(PARTE I)
Quem eram os moravianos? Como que o exemplo missionário deles repercute até os dias atuais?
A Morávia é uma região da Europa Central que constitui atualmente a parte oriental da Tchéquia, as principais regiões são a Boêmia no Oeste e Morávia no Leste. Seu nome vem do rio Morava, às margens do qual um grupo de eslavos se estabeleceu por volta de 500 d.C.
Essa região havia sido evangelizada no século IX por missionários vindos da Constantinopla (a atual Istambul). No final da Idade Média, durante o período do Renascimento (movimento de reforma artística, literária e científica que teve origem no século XIV na Itália e se espalhou para o resto da Europa até o século XVI), houve uma concentração de alemães no país principalmente na Universidade de Praga; uns dos professores era João Huss que pregava contra os equívocos da igreja Católica Romana, como resultado, foi condenado pelo Concílio de Constança e queimado vivo, apesar de ter em mãos um salvo conduto imperial (1415).
“Senhor Jesus, por Ti sofro com paciência esta morte cruel. Rogo-Te que tenhas misericórdia dos meus inimigos”.
Morreu cantando salmos.
Com certeza foi uma das influências para Martinho Lutero no início da Reforma Protestante em 1517.
Posteriormente, na terra natal de Huss, na Boêmia, estourou uma revolta na qual formou-se uma igreja evangélica cujo nome era Unitas Fratrum, a União dos Irmãos. Quando em 1620, a Boêmia foi vencida pela Áustria, o novo governo iniciou a contrarreforma com o objetivo de aniquilar todos os cristãos e dentre eles, a União dos Irmãos. Apesar de ter sido uma perseguição sangrenta, muitos conseguiram fugir.
Quando tudo parecia perdido e indicava que não havia mais nenhum cristão na Boêmia e na Morávia, Deus estendeu a mão. E para continuar a obra, usou um pastor de ovelhas da Morávia chamado Cristiano David, outrora, havia sido um católico fervoroso, mas ao ler a Palavra de Deus conheceu a verdade.
E conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará.
João 8:32
Ao viajar para fora da Morávia, recebeu ajuda durante uma enfermidade que o acometia, de um pastor luterano pietista na Saxônia. Ao voltar a para a terra natal, começou a pregar o evangelho com esmero; mas é claro que se tornou um motivo para mais perseguições, pois com a chegada do despertamento espiritual, é comum vir também as provações e as perseguições para calar a palavra da salvação.
Para ajudá-lo, Cristiano procurou o pastor da Saxônia, que o apresentou ao pastor Rhote, o qual, por sua vez, levou-o a falar com o conde Zinzendorf.
Quem foi conde Zinzendorf?

A família Zinzendorf era uma família aristocrata que residia em um castelo do Reino da Saxônia, a uns quinze quilômetros da fronteira checa. O pai de Zinzendorf exercia o secretariado de estado em Dresden (cidade da Alemanha), infelizmente faleceu quando o pequeno Zinzendof tinha apenas seis semanas de vida, mas antes, consagrou o pequeno filho ao Senhor. Quatro anos mais tarde, sua mãe casou-se novamente e o menino foi educado por uma avó e uma tia.
A família apoiava o movimento pietista, Para Cairns, “O pietismo acentuava um retorno interior, subjetivo e individual ao estudo bíblico e à oração. A verdade bíblica se manifestaria diariamente numa vida de piedade, tanto de leigos quanto de ministros” (1).
O menino amava o Senhor incondicionalmente e conhecia bem o Catecismo de Lutero. Ao completar dez anos foi para a famosa escola pietista de August Hermann Francke, em Halle; por discordâncias teológicas, ele saiu do movimento e liderou um grupo, chamado a “Ordem do Grão de Mostarda”, que tinha como compromisso a edificação mútua. Ao completar quinze anos, foi para a Universidade de Witteberg, a cidade de ortodoxia luterana, para se preparar para o curso de Direito para um trabalho de cunho governamental. Mas nas horas livres procurava estudar Teologia.
Ao concluir os estudos, como era costume para um acadêmico aristocrata na época, viajou através da Alemanha para a Bélgica, França e Holanda (1717-1720). Em Dusseldorf (uma cidade da parte Oeste da Alemanha), viu a pintura de um quadro chamado “Ecce Homo” (Eis o homem), de Domínico Feti, com as palavras desafiadoras escritas em latim na parte inferior da tela:
Ego pro te haec passus sum
Tu vero quid fecisti pro me.”
“Tudo isso Eu fiz por Ti;
Que fazes tu por mim?”

Ao deparar-se com esse quadro ficou extasiado e perplexo, pois a pintura mexeu com todos os seus sentidos. Ele já não era mais o mesmo. Deus usou uma pintura para falar ao coração daquele homem com palavras que ficaram para sempre marcadas em seu coração.
Daquele momento em diante, ele gastou sua vida, sua fortuna e sua fama em prol do evangelho.
Domenico Fetti (Roma, 1589 – Veneza, 1623) foi um talentoso pintor barroco que apesar de sua curta vida, pintou muitas variações de Ecce Homo que estão expostas em muitos museus por toda a Europa.
Depois que o Cristiano falou com o conde Zinzendorf, explicando a cruel perseguição em que os cristãos estavam enfrentando, o conde decidiu ajudá-los abrigando-os em sua propriedade na cidade de Herrnhut (uma cidade da Alemanha localizada no distrito de Görlitz, região administrativa de Dresden, estado da Saxônia). Um grupo de cinco famílias deixaram suas casas em uma madrugadapara uma viagem que durou doze dias até chegarem à vila de Berthelsdorf (1722).
O conde os recebeu com muito carinho em uma localidade distante da vila, no pasto onde o gado era vigiado, o “Hutberg” (montanha da guarda). Segundo ele, seria um verdadeiro “Herrnhut”, um lugar debaixo da guarda do Senhor para louvá-lo dia e noite (Sl 134:1). Esse lugar tornou-se um lar para que outros refugiados fossem acolhidos: herdeiros da Unitas Fratrum, anabatistas, calvinistas e schewenkfeldianos (místicos que colocavam o Espírito acima da palavra escrita). Somente era permitido os refugiados de cunho religioso na vila.
É claro que em um grupo tão diversos quanto este, é natural que surgissem desentendimentos e confusões como disputas teológicas, divergências étnicas, concorrência no trabalho etc. A situação chegou a tal ponto que o conde precisou intervir: no dia 12 de maio, ele convocou uma reunião para que todos, homens e mulheres, comparecessem na casa grande de Herrnhut. O conde discorreu pastoralmente sobre o pecado do separatismo; em seguida, explicou suas “ordens e proibições” que todos tinham que obedecer por força de lei, uma constituição simples que fora adaptada à situação local; finalmente, ele apresentou 42 “Estatutos” como base para uma futura sociedade religiosa. A reunião durou mais de três horas, mas com resultados satisfatórios em que todos firmaram um compromisso em obedecer as determinações de Zinzendorf que, por sua vez, garantiu que seus arrendatários nunca seriam servos feudais, mas que sempre poderiam viver como pessoas livres, o que para aquela época, era algo inusitado e especial.
O grande avivamento
Com o tempo, o conde deixou o trabalho na corte para dedicar-se somente a Herrnhut, deixando os negócios para que a esposa e um amigo de Watteville administrassem por ele. Depois de algumas conversas com os refugiados, ficou latente para ele a vontade dos checos em reviver a Igreja dos Irmãos. Então, ele decidiu organizar em Herrnhut uma “igrejinha dentro da Igreja” com as mesmas características (incluindo as disciplinares) da antiga igreja checa. Assim, os irmãos checos manteriam preservados os laços com o passado ao mesmo tempo que a congregação continuaria como uma parte integral do sistema paroquial da igreja de Berthelsdorf.
O conde bem sabia que as leis que regiam o Estado da Saxônia não permitiriam uma reorganização independente das Unidas Fratrum. Assim, ao utilizar alguns elementos dos “Estatutos”, eles preparam o que posteriormente seria chamado de “Concórdia Fraterna”. Em julho de 1727, o documento foi assinado de forma solene: o conde assinou primeiro, seguido por Cristiano David e em seguida quase todos os habitantes de Herrnhut. Todas as noites havia reuniões de estudo bíblico e oração, eram cultos calmos com pleno regozijo ao Senhor, sem tentativa de estimular as emoções. O conde sempre alertava: “Criar excitação religiosa é tão fácil como excitar as paixões carnais. E frequentemente, a primeira leva à segunda.”
Após algumas semanas, Zinzendorf encontrou em uma biblioteca, na cidade de Zittau, uma cópia da versão latina, feita por Comênio, do antigo “Manual de Disciplina” da já extinta Unitas Fratrum checa. O conde muito se alegrou ao perceber que ela havia sido uma igreja fiel e ortodoxa e que as normas que a regiam eram semelhantes aos artigos da “Concórdia Fraterna!” Ao regressar a Herrnhut, apresentou a versão alemã do documento, o que resultou em uma profunda gratidão nos irmãos refugiados, pois viram bem de perto a herança de seus pais.
As contendas haviam acabado em Herrnhut e os moradores buscavam incessantemente a santificação. Assim sendo, o pastor Rothe convocou a todos a participarem para a Ceia do Senhor que seria realizada no dia 13 de agosto de 1727. Era visível a extrema reverência que havia antes mesmo do culto começar. O pastor Rothe pregou a importância daquele momento depois de tantas dificuldades: agora eles eram os convidados de Deus para sentarem-se à sua mesa. Depois do momento dos cânticos, duas moças fizeram profissão de sua fé e após outro hino, o conde fez uma oração de confissão pública e em meio a lágrimas de muitos ali, suplicaram perdão pelo sangue de Cristo, livramento de todas as divisões e uma benção de uma união verdadeira de coração para que todos pudessem ser uma benção para os outros, seja de perto ou de longe.
Absolutamente, todos que se encontravam ali sentiram um misterioso toque de poder de Deus. Encheram-se de paz e regozijo no Espírito Santo, houve um profundo senso de comunhão com os outros e eles puderam dizer que aprenderam a amar; até os dias atuais, o dia 13 de agosto, é considerado o dia do renascimento espiritual da Igreja dos Irmãos.
historiadores relatam que o conde deixou a Casa de Deus “Sem saber se eles pertenciam a Terra ou se já estavam no céu.” Zindendorf, na sua descrição desse dia, disse: “O Salvador permitiu que o Espírito, de quem até então nós não tínhamos nenhuma experiência ou conhecimento, viesse até nós. Até agora nós tínhamos sido líderes e ajudadores. Agora o próprio Espírito Santo tomou total controle de tudo e de todos”.
Resultados
Duas semanas após à ceia memorável, Herrnhut deu início a “Intercessão de Hora em Hora”: durante 24 horas por dia havia oração e cada irmã ou irmão tinha o seu lugar no rodízio, esse veio a ser o relógio de oração mais longo da história da Igreja, pois estendeu-se por mais de um século.
Um ano depois da renovação da aliança, em Herrnhut, um grupo de jovens solteiros começou a estudar a Bíblia, medicina, línguas e geografia. Eles sentiam que estavam sendo impulsionados por Deus para uma grande obra, e que obra! A chamada macedônica veio em 1731 e já no ano seguinte iniciou-se o trabalho moraviano missionário.
Até essa época a igreja cristã acreditava que o governo era o responsávem em alcançar os outros povos com o Evangelho, através da colonização. Segundo Kenneth Mulholland, “os morávios foram os primeiros cristãos a colocar em prática a ideia de que a evangelização dos perdidos é dever de toda a igreja, não apenas de uma sociedade ou de alguns indivíduos” (2).
Os moravianos enviaram missionários para as Ilhas Virgens (1732); Groenlândia (1733); Suriname (1735); África do Sul (1736); Jamaica (1750); Canadá (1771); Austrália (1850); Tibet (1856), entre outros longínquos lugares que ninguém até aquele momento, ousou ir.
Em vinte anos, Herrnhut enviaria mais missionários ao exterior do que todas as outras igrejas protestantes nos primeiros duzentos anos da sua existência! É o resultado daquele despertamento em 1727…glória a Deus!!
O conde Zinzendorf liderou Igreja moraviana até sua morte, em 09 de maio de 1760, quando Deus o chamou aos 60 anos de idade. Tendo sido um homem que buscou a comunhão com o Senhor e a unidade do povo de Deus na terra, Zinzendorf levou seus seguidores a ter uma motivação: o amor sacrificial de Jesus ao redor do mundo.
Em suas ultimas palavras, Zinzendorf, no seu leito de morte, nos deixa um exemplo de verdadeira união entre os irmãos e a paixão pelas almas:
“Eu estou indo para o meu Salvador. Eu estou pronto. Não há nada que possa me impedir agora. Eu não consigo dizer o quanto eu amo vocês. Quem teria acreditado que a oração de Cristo, ‘Que todos sejam um’ (Joao 17:11), poderia ter sido tão surpreendentemente cumprida entre nós! Eu só pedi pelos primeiros frutos entre os pagãos e milhares tem sido me dado. Não estamos nós como no céu?! Não vivemos nós como anjos?! O Senhor e os seus servos entendem um ao outro. Eu estou pronto.”
Que possamos dizer como Zinzendorf: “Venceu o nosso Cordeiro. Vamos segui-lo”.
Referências
1. O Cristianismo Através dos Séculos. CAIRNS, Earle, p 370.
2. Perspectivas no Movimento Cristão Mundial, p 277.

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