Texto base: João 4:1-42
Nesta linda passagem bíblica, Jesus ministra não somente para a samaritana, mas também para nós, aulas de duas vertentes da teologia: adoração e evangelização. Mais do que falar, ele demonstrou, na prática, que o que realmente importa é propagar o evangelho e para isso fez o que nenhum judeu ousava na época: passar por Samaria para chegar à Galileia; falar com uma mulher a sós sendo ela samaritana e anunciar o Reino de Deus aos gentios.
Mas porque havia contendas entre o povo samaritano e o povo judeu?
Contexto histórico
Para melhor entendermos tal desavença, é necessário que voltemos para o Antigo Testamento. Em 722 a.C, quando Oseias conspirou contra Salmanasar, o rei da Assíria, Samaria, a capital de Israel, foi sitiada pelas tropas assírias por três anos e seus moradores foram transportados para a Assíria (2 Rs 17.3-6). Somente os pobres puderam ficar em Israel (Jr 39.10) e logo chegaram os estrangeiros e se estabeleceram naquela região já devastada.
“O rei da Assíria trouxe gente de Babilônia, de Cuta, de Hamate e de Serfavaim, e a fez habitar nas cidades de Samaria, em lugar dos filhos de Israel; tomaram posse de Samaria e habitaram nas suas cidades”.
2 Rs 17.24
Da mescla com o povo que havia ficado, surgiu uma nova raça designada de samaritanos (nome derivado de Samaria, a metrópole fundada por Onri, pai de Acabe, por volta de 880 A.C).
Quando os estrangeiros passaram a morar em Samaria, não tinham temor ao Deus de Israel, por esse motivo, o Senhor mandou leões invadirem suas terras e matarem alguns dos moradores. Concluíram que tal acontecimento deveu-se à ira de Deus como castigo pela idolatria, então, rogaram ao rei da Assíria que enviasse um sacerdote de origem israelita para ensinar-lhes a maneira correta de “servir o Deus da terra.”
Infelizmente, o povo samaritano mesclou o paganismo com a religião judaica. Quando uma parte dos judeus exilados voltaram para a terra de seus pais, construíram um altar para o holocausto e começaram a pôr os fundamentos do templo. Os samaritanos queriam fazer parte dos cerimoniais e da construção do templo: “Deixa-nos edificar convosco, porque, como vós, buscaremos a vosso Deus, como também já lhe sacrificamos desde os dias de Esar-Hadom, rei da Assíria, que nos fez subir para aqui” (Esdras 4:2). O pedido de ajuda foi negado e como vingança, começaram a fazer grande oposição contra os judeus para atrasarem a obra (Esdras 4:4-6). Até mesmo quando Neemias começou a reconstruir os muros de Jerusalém, um de seus maiores opositores foi Sambalate, o governador de Samaria à época (Neemias 2:10,19; 4:1; 6:1).
Como os samaritanos passaram a odiar os judeus, logo começaram a construir o próprio templo no monte Gerizim, porém, João Hircano, um dos reis Macabeus, destruiu este templo em 128 a.C. Ainda assim, continuaram adorando em cima da montanha, onde haviam erigido o sagrado templo.
O historiador judeu Flávio Josefo disse que, por volta do ano 19 d.C., um grupo de samaritanos entrou no templo de Jerusalém e espalhou ossos humanos sobre o altar, profanando o santuário e acirrando contra si o ódio judaico. Este ato causou revolta e indignação por parte de todos os judeus das sinagogas de Israel, que passaram a encerrar suas orações diárias lançando uma maldição sobre os samaritanos.
É certo que: os samaritanos adoravam o Deus de Israel, mas aceitavam apenas o Pentateuco considerando a história de Israel apóstata; alegavam o Monte Gerizim como o verdadeiro local de adoração desprezando completamente o templo de Jerusalém e eles também estavam à espera de um restaurador do fim dos tempos que restaurasse os vasos sagrados deixados por Moisés no Monte Gerizim.
A rota espiritual
“No caminho, ele tinha de passar pela região da Samaria’ (João 4.4, grifo nosso).
Geograficamente falando, não havia necessidade de Jesus passar por Samaria, pois havia um caminho alternativo para se chegar à Galileia a partir da Judeia:
Jerusalém – até a Galileia seguindo o vale do rio Jordão. O caminho percorria o deserto de Judéia até Jericó e seguia pelo vale do Rio Jordão até Bet – Shean. Era o caminho que os Judeus faziam para ir as festas de preceito em Jerusalém. Ex: Páscoa, Pentecostes, Tendas. Jesus na infância percorria este caminho com sua família.
PICCIRILO, 1992
Mas espiritualmente falando, sim, era necessário que Jesus passasse por Samaria. O verbo “tinha” nessa passagem está conjugado no modo pretérito imperfeito do indicativo, ou seja, que expressa uma certeza, um fato. Jesus sabia que havia uma necessidade espiritual de passar por aquele lugar, pois ali haveria uma mulher sedenta da água que ele oferecia, uma sede que até por ela mesma era desconhecida.
Então ele percorreu a zona da montanha passando por Samaria: “Ele chegou a uma cidade da Samaria, chamada Sicar, que ficava perto das terras que Jacó tinha dado ao seu filho José. Ali ficava o poço de Jacó. Era mais ou menos meio-dia quando Jesus, cansado da viagem, sentou-se perto do poço” (João 4:5).
Sicar pode ser identificada aqui como Shechem (mais próximo do poço de Jacó) ou também como “Askar” (acerca de 1,5 km a nordeste do poço). A localização do poço ainda hoje é conhecida e está à vista do Monte Gerizim que era sagrado para os samaritanos.
Não se sabe exatamente a quanto tempo que Jesus e os discípulos estavam viajando, o fato é que ao meio-dia (sexta hora) estavam todos cansados e famintos e resolveram fazer uma pausa. Era comum os viajantes pararem nos poços para beberem água e descansarem, mas o objetivo principal de Jesus não era esse.
“Uma mulher samaritana veio tirar água, e Jesus lhe disse:
— Por favor, me dê um pouco de água.
(Os discípulos de Jesus tinham ido até a cidade comprar comida).
A mulher respondeu:
— O senhor é judeu, e eu sou samaritana. Então como é que o senhor me pede água? (Ela disse isso porque os judeus não se dão com os samaritanos” (João 4:7-9).
A maioria das mulheres na época de Jesus realizava trabalhos pesados em casa e um deles era o de buscar água pura para a família. Elas faziam esse serviço geralmente ao entardecer, quando o sol não estaria quente, mas essa mulher foi buscar água na hora mais quente do dia em que quase não se via pessoas junto ao poço ou pelo caminho. Mas por quê? Ela não era bem vista pela sociedade samaritana, provavelmente, pela vida conjugal que mantinha, pois separava-se dos maridos com tamanha rapidez com que se casava novamente. Sendo assim, as mulheres samaritanas não achavam que ela, que teve vários maridos, seria uma boa companhia nem mesmo para buscar água.
O interessante é que o povo samaritano sofria preconceito por parte dos judeus devido aos desentendimentos quanto à adoração a Deus. Talvez se sentissem injustiçados por eles pelo que havia acontecido no passado, mas também eram preconceituosos entre eles mesmos. Essa mulher que o diga!
O que mais impressiona é que na verdade nada mudou. Quem, entre os cristãos, ao ler essa passagem, fica com pena dessa mulher que precisa ir buscar água sozinha, na hora mais quente do dia, porque as outras a desprezavam? Provavelmente a maioria. Mas é bem provável que muitos de nós já fizemos ações semelhantes com outras pessoas e nem percebemos (ou não?).
Seja dentro da igreja ou não, quantas vezes deixamos pessoas do lado de fora do nosso círculo de relacionamentos, até mesmo nas horas mais “quentes” de suas vidas, nos momentos mais difíceis, porque as condutas que praticam não condizem com a religiosidade que estamos apegados. Perdemos até mesmo uma grande chance de praticar o discipulado, se bem que, em muitos casos, quem precisa de um verdadeiro discipulado seja nós mesmos, religiosos repletos de preconceito.
O texto diz que Jesus sente sede e pede um pouco de água a ela. Da Silva Campos faz uma maravilhosa observação a respeito:
Por que o Rei do Universo, o Criador do céu e da Terra, o Dono de todas as fontes de água, pede de beber? “Se eu tivesse fome, não to diria, pois meu é o mundo e a sua plenitude” (Salmos 50:12). Diz Davi. Por que então Ele pediu água a samaritana? Aqui, há algo que precisamos compreender. Deus nunca nos pede algo porque precisa do ser humano. Ele pede porque tem algo maior para nos oferecer.
O Evangelho segundo a mulher de Samaria, pág.87
Jesus pediu um pouco de água e em troca, ele lhe daria a água que jorra da vida eterna que saciaria, em sua alma, a sede de justiça e salvação. Ele pede o nosso coração para nos darmos o dele que é perfeito, com disposição à obediência; pede a nossa velha mente para colocar, em nós, uma mente voltada à sua vontade; pede a nossa vida terrena e curta para nos dar uma vida na eternidade; ele pede o nosso estilo de vida torpe e mesquinho e nos dá uma vida plena de acordo com a sua Palavra que, mesmo com tantas perseguições, é de regozijo.
“Então Jesus disse:
— Se você soubesse o que Deus pode dar e quem é que está lhe pedindo água, você pediria, e ele lhe daria a água da vida” (João 4:10).
Alguns estudiosos apontam que os rabinos falavam da Torá, a Lei, como Dom de Deus e como água viva. Mas João usa, de forma frequente, o simbolismo de maneira diferente para se referir ao Espírito (7:37-9), o pano de fundo aqui é Deus como provedor da fonte da vida genuína (Is 12:3; Jer 2:13).
Jesus está à beira de uma fonte, mas na verdade ele é a fonte. Cristo pede água para beber, como homem, mas como Deus só ele pode matar a sede espiritual daquela mulher; como homem, ele está pedindo algo, mas mal sabe ela que como Deus, só ele pode dar o que ela necessita. O que Deus oferece vai muito além do que podemos imaginar.
Jesus disse que, se ela pedisse, lhe daria a água da vida e está pronto para jorrar dessa água para quem está disposto a pedi-la. Pois Jesus não é o dono da água que mata a sede espiritual, não é dono da água que refrigera o corpo sedento por justiça, Jesus é a própria água que precisamos. Além do pão que nos alimenta, é a água que jorra uma vida livre do pecado e cheia do perdão.
“Ela respondeu:
— O senhor não tem balde para tirar água, e o poço é fundo. Como é que vai conseguir essa água da vida? Nosso antepassado Jacó nos deu este poço. Ele, os seus filhos e os seus animais beberam água daqui. Será que o senhor é mais importante do que Jacó?
Então Jesus disse:
— Quem beber desta água terá sede de novo, mas a pessoa que beber da água que eu lhe der nunca mais terá sede. Porque a água que eu lhe der se tornará nela uma fonte de água que dará vida eterna.
Então a mulher pediu:
— Por favor, me dê dessa água! Assim eu nunca mais terei sede e não precisarei mais vir aqui buscar água” (João 4:11-15).
Embora não possamos conhecer a profundidade, com exatidão, o poço no primeiro século, nos tempos modernos ele tem cerca de trinta metros de profundidade.
Seu ditado “nosso Pai Jacó” pode ser considerado como uma afronta aos ensinamentos judaicos de que o povo judeu era filho de Jacó, enquanto os samaritanos tinham muito do sangue gentio graças à casamentos mestiços com povos pagãos. Mas Jesus, que é maior que Jacó, não discute esse ponto com ela. Mais adiante perceberia que ele é muito maior do que todos os profetas que já viveram, que não tem como comparar, pois, apesar de Jacó ter deixado aquele poço para as gerações futuras, não matava a sede por completo. Os que tinham bebido daquela água, tornavam a ter sede, alguns até mesmo morreram espiritualmente mesmo obedecendo todos os mandamentos porque não encontraram na religião a água que Deus dá sem medida.
Na Antiga Aliança, os sacrifícios para a purificação de pecados precisavam ser repetidos ao longo da vida dos israelitas, ou seja, mal terminavam de oferecer sacrifícios por conta de seus pecados, logo aparecia aquela necessidade do ritual novamente, pois a Lei exigia que Israel realizasse sacrifícios diários para expiar o pecado.
Mas agora, na perfeita Aliança, um único sacrifício foi feito garantindo, assim, o perdão para sempre. E ele estava oferecendo à aquela pobre mulher que ainda não havia compreendido a riqueza do que estava sendo oferecido, mas já estava mais receptiva à mensagem de Cristo.
“— Vá chamar o seu marido e volte aqui! — ordenou Jesus.
— Eu não tenho marido! — respondeu a mulher.
Então Jesus disse:
— Você está certa ao dizer que não tem marido, pois já teve cinco, e este que você tem agora não é, de fato, seu marido. Sim, você falou a verdade”(João 4:16-18).
Quando Jesus pediu a ela para que chamasse o marido, já tinha o conhecimento da real situação que vivia. Por causa desses cinco casamentos, houve divórcios, o que fez com que a samaritna ficasse marcada por uma má reputação. E pela falta de um status melhor, subia ao poço sozinha para buscar água. A intenção de Jesus ao perguntar sobre a vida conjugal, era fazê-la consciente dos próprios pecados e confessá-los e ao fazê-lo, estaria se preparando para uma nova vida.
Jesus sabia o quão ela precisava de uma mudança, de um refrigério para a alma que já estava tão abatida, a pergunta é: a samaritana sabia o quanto precisava de Jesus? Se não, depois do que confessou ao Mestre, ela pôde constatar que necessitava de um Salvador.
“A mulher respondeu:
— Agora eu sei que o senhor é um profeta! 20 Os nossos antepassados adoravam a Deus neste monte, mas vocês, judeus, dizem que Jerusalém é o lugar onde devemos adorá-lo” (João 4:19).
No início da conversa, para a samaritana, Jesus era apenas um judeu comum, depois o viu como “Senhor” e agora o enxergava como um profeta, pois Cristo sabia de algo que se dependesse dela, durante o diálago, não iria revelar. Mas Jesus conhece o coração das pessoas, o íntimo da alma e nada pode ser ocultado de sua presença.
Depois de ter a vida desnudada, ao perceber que não era apenas um judeu comum, ela desvia o assunto para saber qual o lugar certo de cultuar a Deus. Passou de uma questão pessoal para uma questão pública rapidamente, com a intenção de resolver, de uma vez por todas, a interminável disputa entre os judeus e os samaritanos sobre qual era o lugar correto de adoração à Deus.
Quem pode julgá-la? Ela estava mais preocupada com questões religiosas, que no momento, não tinha importância. Talvez porque ainda não tinha se dado conta com quem estava falando, porque, se soubesse, essa pergunta teria sido a menor de suas preocupações. Isso acontece conosco: adiamos a intimidade com o Senhor por coisas triviais; deixamos os nossos pecados escondidos no mais profundo de nosso coração, falamos ou pensamos neles de forma ocasional, mas sem a busca de um arrependimento verdadeiro e de perdão; deixamos embaixo do tapete toda a nossa podridão e nos preocupamos com coisas ou afazeres que não tem ou não deveria ter importância em nossas vidas. No fundo, somos iguais a ela, não nos damos conta de quem Jesus é realmente.
“Jesus disse:
— Mulher, creia no que eu digo: chegará o tempo em que ninguém vai adorar a Deus nem neste monte nem em Jerusalém. Vocês, samaritanos, não sabem o que adoram, mas nós sabemos o que adoramos porque a salvação vem dos judeus. Mas virá o tempo, e, de fato, já chegou, em que os verdadeiros adoradores vão adorar o Pai em espírito e em verdade. Pois são esses que o Pai quer que o adorem. Deus é Espírito, e por isso os que o adoram devem adorá-lo em espírito e em verdade”(João 4:21-24).
Cristo deixa claro que o ponto levantado pela mulher, muito em breve, não teria importância, pois uma nova dispensação estaria por chegar, na verdade, já estava sendo montada naquele momento. Os samaritanos estavam errados não só em relação ao lugar de adoração, mas a quem se dirigiam ao adorarem, pois era muito confuso; ao falar que a salvação vem dos judeus, estava falando de si próprio e que essa revelação foi depositada nesse povo em particular.
O lugar de adoração, na verdade, era o de menos, o que importa verdadeiramente a Deus é que o adoremos em espírito e em verdade. Enquanto as pessoas, naquela época, estavam preocupadas com um lugar “apropriado” de culto, provavelmente viam a adoração como uma obrigação religiosa, Deus queria uma que viesse do coração que tivesse sido transformado por ele. A religiosidade nos cega e gostamos disso.
“A mulher respondeu:
— Eu sei que o Messias, chamado Cristo, tem de vir. E, quando ele vier, vai explicar tudo para nós.
Então Jesus afirmou:
— Pois eu, que estou falando com você, sou o Messias.” (João 4:25-26)
A mulher sabia da vinda do Messias e parece que já estava praticamente preparada para a revelação que viria a seguir: a pessoa com quem estava falando esse tempo todo, era o próprio Messias, o prometido nas Escrituras.
O interessante nessa revelação, é que Jesus raramente diz algo tão abertamente para o seu próprio povo e o faz para a mulher samaritana. Ele se revela para alguém que era para ser sua “inimiga”, para alguém que pertencia a um povo cuja adoração era duvidosa, para uma mulher que tivera cinco relacionamentos e quem estava com ela no momento não era ainda seu marido. Jesus se revelou a uma pecadora que não pertencia ao seu rebanho.
É impressionante em como Jesus quebra as regras, faz tudo o que povo judeu, muito religiosos por sinal, não faria. Logo após, a cena muda e os discípulos aparecem, mas a semente do que foi conversado está plantada no coração da samaritana.
“Naquele momento chegaram os seus discípulos e ficaram admirados, pois ele estava conversando com uma mulher. Mas nenhum deles perguntou à mulher o que ela queria. E não perguntaram a Jesus por que motivo ele estava falando com ela” (João 4:27).
Os discípulos ficaram maravilhados ao verem Jesus falando com ela: primeiro, por ser mulher, pois não era comum, naquela época, um homem falar com uma mulher sozinho, ainda mais com uma fama duvidosa; segundo, por ser samaritana. Para eles, estava tudo errado. Como que eles se impressionavam de Jesus falar com ela e não ficavam espantados de Jesus falar com eles? Quão hipócritas eram ao pensar que eram mais dignos do que a pobre mulher? A nossa velha mania refletida nos discípulos.
“Em seguida, a mulher deixou ali o seu pote, voltou até a cidade e disse a todas as pessoas:
— Venham ver o homem que disse tudo o que eu tenho feito. Será que ele é o Messias?
Muitas pessoas saíram da cidade e foram para o lugar onde Jesus estava” (João 4:28-30).
Antes de revelar-se à mulher, seu principal objetivo era que Jesus desse a água que mataria a sua sede por completo, para que não fosse necessário voltar ao poço, talvez para evitar de ver as pessoas que a julgavam constantemente. Mas depois de finalmente ver quem estava dirigindo-se a ela, aquele pote de água deixa de ser importante porque compreendeu que uma “água” muito melhor estava na sua frente: a que Jesus oferecia e que já começava a jorrar de dentro dela.
A samaritana desprendeu-se do seu passado, que era motivo de falatório entre a comunidade, e foi à cidade contar a experiência que obtivera com Jesus. É certo que todos sabiam como vivia, pois afirmou que tal homem disse tudo o que tinha feito e sem esperar foram pessoalmente ver de quem se tratava.
Enquanto isso, os discípulos pediam a Jesus:
— Mestre, coma alguma coisa!
Jesus respondeu:
— Eu tenho para comer uma comida que vocês não conhecem.
Então os discípulos começaram a perguntar uns aos outros:
— Será que alguém já trouxe comida para ele?
— A minha comida — disse Jesus — é fazer a vontade daquele que me enviou e terminar o trabalho que ele me deu para fazer.
João 4:31-34
O fato de os discípulos oferecerem a Jesus algo para comer e beber, demonstra que ele padecia das mesmas coisas que nós. Mas naquele momento estava preocupado com outro tipo de comida: a de proclamar as boas novas do Evangelho e fazer a vontade de Deus.
Ao colocar sobre a alma de uma mulher humilde e, em alguns aspectos, também repulsiva, ao colocar nela o desejo de ser salva, de ser uma adoradora, toda a fome dele se foi. A espiritual era mais importante.
“Vocês costumam dizer: “Daqui a quatro meses teremos a colheita.” Mas olhem e vejam bem os campos: o que foi plantado já está maduro e pronto para a colheita. Quem colhe recebe o seu salário, e o resultado do seu trabalho é a vida eterna para as pessoas. E assim tanto o que semeia como o que colhe se alegrarão juntos. Porque é verdade o que dizem: “Um semeia, e outro colhe.” Eu mandei vocês colherem onde não trabalharam; outros trabalharam ali, e vocês aproveitaram o trabalho deles.”
João 4:35-38
O Mestre desejava que os discípulos abrissem os olhos espirituais e enxergassem além daquela colheita que seria realizada há quatro meses; queria que eles vissem outro campo de colheita que já estava maduro, prontos para receber o evangelho. Nos lugares que podem ser considerados, humanamente falando, menos promissores, como era em Samaria, poderia ser os lugares que mais absorveriam o evangelho resultando em um salário pago não em dinheiro, mas com a vida eterna dessas almas.
Na obra de Cristo, o semeador e o ceifeiro costumam ser pessoas distintas. No caso da cidade de Samaria, os discípulos iriam colher os frutos que foram semeados por Jesus e a mulher num tempo mais adiante. Nós mesmos já fomos, por certo, abençoados por obras de nossos irmãos no passado. Mas o que importa mesmo é que ambos se alegram quando a obra é concluída e que a colheita foi benéfica.
Cristo representa a si mesmo como o lavrador [antes o Senhor dos operários], que tem a direção tanto da semeadura como da colheita, que comissiona todos os agentes – tanto os do Antigo Testamento como os do Novo – e, portanto, não fique no mesmo nível nem com os semeadores nem com os ceifeiros.
Olshausen
Muitos samaritanos daquela cidade creram em Jesus porque a mulher tinha dito: “Ele me disse tudo o que eu tenho feito.” Quando os samaritanos chegaram ao lugar onde Jesus estava, pediram a ele que ficasse com eles, e Jesus ficou ali dois dias.
João 4:39-42
E muitos outros creram por causa da mensagem dele. Eles diziam à mulher:
— Agora não é mais por causa do que você disse que nós cremos, mas porque nós mesmos o ouvimos falar. E sabemos que ele é, de fato, o Salvador do mundo.
O testemunho da mulher samaritana foi o suficiente para irem aonde Jesus estava e ouvir os ensinamentos a respeito do Reino, e eles creram não por causa dos milagres (“nós mesmos o ouvimos falar”), pois não há evidencia de milagres ali; creram pela mensagem sobrenatural que lhes foram passadas. O que veio a acontecer ali nunca aconteceu entre os judeus: reconheceram Jesus como o Salvador do mundo, o Messias tanto esperado e anunciado pelas Escrituras.
As pessoas daquele povoado pediram a Jesus que ficasse ali e ficou por dois dias. Ele veio primeiro para os judeus, todavia não quiseram recebê-lo e os que não pertencia ao seu povo o recebeu de braços abertos, era o vislumbre da igreja gentia.
Antes aquelas pessoas creram no que a mulher disse, mas agora, tiveram a oportunidade de ouvir pela própria boca do Mestre Jesus. Não só ela teve a sua sede sanada para sempre, como também todas as pessoas que creram no seu testemunho e depois do próprio Cristo. Quando anunciamos as boas novas, não só as pessoas ao nosso redor são restauradas, como a nós mesmos, quem dá é o que mais recebe.
A mulher samaritana desenvolveu um papel crucial na evangelização de Samaria e os seus feitos ecoam pela eternidade. Ela é um exemplo para todos: nos mostrou que não importa o que fizemos no passado, o que é importa é o que faremos depois de nos encontrarmos com Jesus…ficaremos ocupando nossas mãos (com vasos de água que não mata a sede de verdade) e nossa mente com coisas que nos satisfaçam momentaneamente, ou deixaremos tudo para trás para uma nova vida em Cristo Jesus?
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REFERÊNCIAS
Nova Tradução na Linguagem de Hoje 2000 (NTLH).
PICCIRILLO, MICHELE PROF., Cenni di Geografia Biblica, Storia e Geografia Biblica, Suplementos – 2 The Route, Studium Biblicum Franciscanum – ano acadêmico 1992, Jerusalém.
f. A Missão da Igreja (Missão Editora, Belo Horizonte,1994), pp. 65,6.

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