Poetisa e compositora do Reino
No mundo cristão, desde os tempos bíblicos, houve mulheres destemidas, corajosas e ousadas se levarmos em consideração a época em que viveram. E só se destacaram por esses adjetivos mencionados porque foram encorajadas pelo Espírito Santo de Deus.
Não tiveram medo da opinião pública, antes, temeram mais a Deus que aos homens; não se deixaram desanimar pelas dificuldades impostas, pelas pedras que tiveram que enfrentar pelo caminho, pois sabiam que maior que tudo isso é o Senhor que as chamaram e que tudo tinha um propósito. Tanto é que a história de vida de cada uma atravessou gerações e ainda hoje serve como encorajamento, seja para homem ou mulher, a seguir a Deus com tudo o que temos e somos em prol do Evangelho.
Para inaugurar a série dessas mulheres corajosas, vamos conhecer um pouco da vida e ministério de uma mulher muito especial: Fanny Crosby.
Vamos lá?
Fanny Jane Crosby (1820-1915) nasceu em Putnam, em Nova Iorque, foi poetisa, compositora e autora de quase nove mil hinos belíssimos cantados em todo mundo. Antes de conhecermos um pouco dos hinos compostos por ela, vamos conhecer um pouco da fascinante vida dessa mulher corajosa.
Com apenas seis semanas de vida, foi acometida por uma gripe que deixou seus olhos inflamados. O clínico geral da cidade estava em viagem e ela foi atendida por um outro médico para cuidar do caso. Ele receitou cataplasmas de mostarda quente e, claro, o resultado foi desastroso: a menina nunca mais enxergou. Isso mesmo, a grande compositora de poemas maravilhosos era cega. O dito médico teve que fugir da cidade para não enfrentar a revolta dos parentes e vizinhos da família da criança.
Seu pai, Jonh, morreu no mesmo ano que a filha nasceu, sendo criada pela segunda esposa dele e pela avó, Eunice Paddock Crosby (1778-1831). Eunice alimentou Fanny nos princípios da vida cristã e quando morreu, deixou-a com a importante pergunta: “Você me encontrará no céu?”. Quando completou cinco anos de idade, os vizinhos realizaram uma coleta para ajudar a família a fazer um tratamento médico com o melhor especialista no país, o Dr. Valentine Mott. Infelizmente, o médico concluiu que a cegueira seria de forma permanente, ou seja, Fanny teria que se acostumar com a deficiência ocular. Mas esses acontecimentos não a impediram que demonstrasse a habilidade de compor.
Conforme crescia, a mensagem do evangelho foi implantada, aos poucos, na mente e no coração da jovem por intermédio da avó, que passava horas lendo a Bíblia para Fanny, que já mostrava possuir uma mente extraordinária: decorou várias passagens dos livros de Rute e dos Salmos. Aos 15 anos já sabia de cor os quatro evangelhos, o Pentateuco, Provérbios e Cânticos.
Uma coisa que ela desejava era receber uma educação que era disponível para as outras crianças. Sua oração foi atendida pouco antes de seu aniversário de 15 anos, quando conseguiu se matricular no Instituto para Cegos de Nova York (NYIB) para onde voltaria anos depois para lecionar inglês e história. Fanny passou trinta e cinco anos na instituição como aluna e professora.
Aos vinte e três anos discursou em defesa da educação dos cegos no Congresso Americano onde leu um de seus poemas. Foi a primeira mulher a discursar no parlamento daquele país; atuou como enfermeira quando houve uma epidemia de cólera e nessa mesma época compreendeu que precisava mais de Deus; se envolveu na luta abolicionista contra a escravidão e fez uso também das músicas que compunha para colaborar com o movimento; se envolveu com o resgate dos pobres em Nova York, principalmente com os emigrantes, escrevia pensando neles e nos prisioneiros.
Na mesma instituição, conheceu, aos 38 anos, seu futuro marido cujo nome era Alexandre Alstyne, professor de música e cantor de concerto. Nessa época, Fanny havia deixado o ensino para acompanhá-lo tocando piano e harpa em apresentações púbicas. Nessa mesma ocasião, ela passou por uma dor que nenhuma mãe deveria passar: a perda de uma filha ainda pequena causada pela febre tifoide. O acontecido destruiu Van, que posteriormente se tornou um recluso.
Depois de 22 anos juntos, em 1880, infelizmente, Van e Fanny se separaram. Mas ainda assim, eles permaneceram amigos e colaboraram em recitais de música / poesia para fins de caridade. Ninguém parece saber por que se separaram, mas em 1903, Fanny disse: “Ele tinha seus defeitos – e eu também tenho os meus, mas, apesar deles, nós nos amávamos até o fim.”
Nos meses em que houve o grande surto de cólera, em 1849, fez com que Fanny, além de auxiliar os enfermos, pensasse mais a respeito de sua salvação, de acordo com biógrafo Bernard Ruffin:
“Nessa atmosfera de morte e tristeza, Fanny tornou-se cada vez mais introspectiva quanto ao bem-estar de sua alma. Ela começou a perceber que algo estava faltando em sua vida espiritual. Ela sabia que estava envolvida em reformas sociais, políticas e educacionais, e não tinha um verdadeiro amor por Deus em seu coração.”
A intensidade dessa experiência levou-a a buscar uma certeza mais profunda de fé e amor a Deus. Então, em novembro de 1850, enquanto participava de uma reunião de avivamento, ela foi buscar a certeza de sua salvação.
Convidada por uma amiga para assistir aos cultos e estimulada por um sonho vívido, decidiu ir. Ela diz:
“Parecia que o céu estava nublado há vários dias e, finalmente, alguém veio até mim e disse que o Sr. Camp [o amigo que a convidou para a reunião de avivamento] desejava me ver imediatamente. Então pensei ter entrado na sala e o encontrei muito doente.”
O acampamento “moribundo” perguntou se ela o encontraria no céu depois de sua morte. “Sim, eu vou”, disse Fanny, “Deus me ajudando.” Esta foi a resposta que ela deu à sua avó moribunda. No sonho, pouco antes de morrer, Camp advertiu: “Lembre-se, você prometeu a um homem moribundo!” Fanny registrou:
“Então as nuvens pareceram sair do meu espírito e acordei do sonho assustada. Eu não conseguia esquecer aquelas palavras: ‘Você vai me encontrar no céu?’ e, embora meu amigo estivesse perfeitamente bem, comecei a considerar se poderia realmente conhecê-lo, ou qualquer outro conhecido, na Terra Melhor, se chamado para isso.”
Ela não poderia mais continuar como estava e nos cultos que ia com a amiga, foi duas vezes ao altar, mas não recebeu nenhuma garantia. Na terceira vez, já desesperada, foi ao altar novamente. Por algum tempo os diáconos oraram por ela sem nada acontecer, até que a igreja começou a cantar o hino de Isaac Watts, “Ai, meu Salvador sangrou” (1707). E enquanto cantavam o último versículo que dizia: “Aqui Senhor, eu me entrego. É tudo o que posso fazer”, aconteceu! Fanny diz que a alma dela foi inundada com uma luz celestial e se viu saltando pelos pés gritando “Aleluia!” e em seu êxtase, diz: “pela primeira vez percebi que estava tentando segurar o mundo com uma mão e o Senhor com a outra”.
A fé de Fanny estava em Jesus e nas Escrituras, não em igrejas e denominações. Ela desfrutou da comunhão com metodistas, batistas, episcopais, reformados holandeses e presbiterianos.
Em 1844, escreveu o seu primeiro livro de poemas intitulado “A Menina Cega e Outros poemas”. Umas das primeiras participações como compositora aconteceu em um dos cultos de Dwight L. Moody, que foi considerado um dos maiores pregadores da história do evangelho, naquele momento ele realizava uma conferência na cidade de Northfield, no estado de Massachussetts.
Maravilhado com o talento dela, Moody pediu que contasse o seu testemunho e, embora assustada, relutando no princípio, leu a letra de um hino que havia acabado de compor: “Eu o chamo de meu poema da alma. Às vezes, quando eu estou preocupada, eu repito isto para mim mesma, e essas palavras trazem conforto ao meu coração.” disse ela, antes de recitá-lo.
O hino que recitou não é citado nas biografias da compositora, mas, na verdade, isso não importa já que poderia ter sido qualquer hino dentre as centenas que cantavam durante o avivamento americano no século 19, este período ficou conhecido como o “Grande Despertamento”. Naqueles momentos, os apelos à conversão, frequentemente eram inspirados por palavras como as do hino “Mais perto da sua cruz”, composto por Fanny em 1868:
Meu Senhor sou Teu
Tua voz ouvi, a chamar-me com amor […]
mais perto da Tua cruz leva-me, ó Senhor. (1)
Fanny era membro da Igreja Episcopal Metodista, de Nova Iorque. Ela era uma oradora devota e com frequência preparava os cultos infantis da igreja.
Em 1864, foi apresentada ao compositor Willian Bradbury no qual a recebeu com as seguintes palavras: “Por muitos anos, desejei que você escrevesse para mim, mas me faltou a oportunidade de conversar com você sobre o assunto. Quero que você comece, agora mesmo”. Mais tarde ela mesma escreveu em sua autobiografia que sentiu que a grande obra de sua vida tivesse realmente começado dando início à “deliciosa tarefa”, da qual jamais se afastou.
Seu primeiro hino foi escrito quando estava com 45 anos de idade.
Sobre o trabalho como autora, refletiu:
“Penso que fui levada, aos poucos, em direção ao meu trabalho. Creio que o mesmo acontece na vida daquele que cultiva suas habilidades como presentes de Deus e, então, corajosa, tranquila e persistentemente, faz seu trabalho quando ele lhe vem às mãos”.
Fanny escrevia vários hinos por dia. E mesmo que soubesse música muito bem, não compunha as melodias dos seus hinos, por não dominar o método de braile, ditava a letra para alguém e depois a entregava a um compositor. A facilidade com que memorizava a ajudava muito.
A grande quantidade de composições de Fanny não se deu somente pela criatividade e inspiração, mas também por conta de contrato da editora que a obrigava entregar três composições novas a cada semana. Ela chegou a compor sete canções em um único dia, mas não iniciava o trabalho sem antes se dedicar a horas de oração:
“Pode parecer um pouco fora de moda, começar o trabalho com uma oração, mas eu nunca começo um hino sem primeiro pedir ao bom Senhor para ser minha inspiração”.
Alguns hinos
Hino 15 do tradicional Cantor Cristão, cujo título é “Exultação”: (2)
A Deus demos glória, com grande fervor,
Seu Filho bendito por nós todos deu
A graça concede ao mais vil pecador,
abrindo-lhe a porta de entrada no céus
Exultai, exultai, vinde todos louvar
a Jesus, Salvador, a Jesus redentor
a Deus demos gloria, porquanto do céu,
Seu filho bendito, por nós todos deu!
Outra famosa canção, Segurança: (3)
Vivo feliz, pois sou de Jesus,
e já desfruto o gozo da luz […]
Canta minha alma, canta ao Senhor,
rende-lhe sempre ardente louvor. (2)
Entre seus hinos mais conhecidos no Brasil, estão o “Louvai” (126 CC), “Vitorioso”(471 CC) e “Trabalho Cristão (422 CC)”, e alguns que começam assim:
“Conta-me a história de Cristo, Grava-a no meu coração… (hino 196 CC).
“Oh, Não consintas tristezas dentro do teu coração…” (hino 346 HCC, 339 CC)
Para entendermos o sentido deste hino, ouçamos o que nos diz Fanny Crosby sobre sua cegueira:
“Parece ter sido uma intenção da providência de Deus que eu fosse cega toda a minha vida e eu lhe agradeço esta dispensação. Se uma perfeita visão terrestre me fosse oferecida amanhã, eu não iria aceitá-la. Pode ser que não tivesse hinos cantados para o louvor de Deus, se eu ficasse distraída pelas belas e interessantes coisas em torno de mim. (…) Quando eu chegar ao céu, o primeiro rosto que alegrará meus olhos será o do meu Salvador”.
“É tempo, é tempo, o mestre está chamado já…” (hino 450 CC).
Aos 60 anos de idade, Fanny se dedicou ao trabalho missionário local em Nova York. Ela pregava, cantava e tocava piano nos encontros, ajudando ainda no que pudesse. Aconselhava as pessoas, o que era incomum naquela época para as mulheres. Continuou neste trabalho até aos 85 anos de idade.
“Quero o Salvador comigo e com ele vou andar… ” (hino 347 HCC)
“Perto de ti almejo estar, perto, sim, bem perto… ” (hino 288 CC)
“Meu Senhor, sou teu, tua voz ouvi a chamar-me com amor…” (hino 361 HCC, 292 CC),
“Quero estar ao pé da cruz donde rica fonte corre franca salutar do Calvário monte…” (hino 395 HCC, 290 CC)
“Salvo por Jesus Cristo, tenho perfeita paz…” (hino 374 CC)
Deste hino — “Safe in the Arms of Jesus”, no original — o mais conhecido no mundo, ela disse:
“Creio que foi ditado pelo Espírito do Senhor e que nasceu para uma missão”.
O hino foi escrito depois que sua filha única, do seu casamento com Alexander van Alstyne, morreu ainda bebê enquanto dormia.
“Se eu tiver Jesus ao lado e por ele auxiliado…” (hino 484 HCC, 308 CC).
Ela o escreveu quando ajudava na recuperação de prisioneiros em Nova York.
Para Fanny Crosby:
“os hinos mais duradouros nascem nos silêncios da alma e nada deve se intrometer entre eles até tomarem a forma da linguagem. Algumas das mais doces melodias do coração jamais verão a luz da página impressa. Muitas vezes, as canções sem palavras têm significado mais profundo do que as combinações mais sofisticadas de palavras e música”.
Fanny Crosby escreveu milhares de poemas, seculares e evangélicos, populares e patrióticos, tendo deixado quase 9 mil poemas, para os quai,s usou mais de 200 pseudônimos. Pela sua produção recebia pouco pelas composições e doou muito do pouco que recebia. Sempre morou de aluguel. Foi enganada pelos editores, sempre foi pobre e quis continuar assim.
Conforme a idade avançada se aproximava, a capacidade de escrever diminuiu, ainda assim, continuou ativa discursando em encontros missionários entre os pobres urbanos.
O marido morreu em 1902 e ela no dia 12 de fevereiro de 1915 de uma enfermidade que durou seis meses.
Que mulher extraordinária! Que possamos nos inspirar na sua vida, no amor que tinha pela obra de Deus, mesmo com a delimitação física não a impediu de responder ao chamado do Senhor.
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Referencias:
- No Hinário Adventista este hino é encontrado sob o número 289.
- No Hinário Adventista este hino é encontrado sob o número 16.
- No Hinário Adventista este hino é encontrado sob o número 240.
BELO DE AZEVEDO, Israel. A SEGURANÇA DE FANNY CROSBY. Prazer da Palavra. Disponível em: http://www.prazerdapalavra.com.br. Acesso em 3 de fevereiro de 2021.
FANNY CROSBY. Música Sacra e Adoração. Disponível em https://musicaeadoracao.com.br/37208/fanny-crosby/ . Acesso em 03 de fevereiro de 2021.

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