REFLEXÃO: SALMO 24

REFLEXÃO: SALMO 24
Salmo de Davi.

Ao Senhor Deus pertencem o mundo

e tudo o que nele existe;

a terra e todos os seres vivos

que nela vivem são dele.

Senhor construiu a terra

sobre os mares

e pôs os seus alicerces

nas profundezas do oceano.

Quem tem o direito de subir

o monte do Senhor?

Quem pode ficar no seu santo Templo?

Somente aquele que é correto

no agir e limpo no pensar,

que não adora ídolos,

nem faz promessas falsas.

O Senhor Deus o abençoará, o salvará

e o declarará inocente no julgamento.

São assim as pessoas

que adoram o Senhor,

que prestam culto ao Deus de Jacó.

Abram bem os portões,

abram os portões antigos,

e entrará o Rei da glória.

Quem é esse Rei da glória?

É Deus, o Senhor, forte e poderoso,

o Senhor, poderoso na batalha.

Abram bem os portões,

abram os portões antigos,

e entrará o Rei da glória.

Quem é esse Rei da glória?

É Deus, o Senhor Todo-Poderoso;

ele é o Rei da glória.

O livro dos Salmos é a maior coletânea de poemas líricos de cunho religioso que existe. É poesia do início ao fim e para quem aprecia este gênero literário e ama a Palavra de Deus, a Bíblia está repleta de poesias que transbordará o seu intelecto e transformará o seu espírito; é um recurso literário explorado pelos autores bíblicos e ocupa uma porção considerável na bíblia.

Nesse livro encontramos desabafos, confissões, conselhos, orações, agradecimentos, dúvidas e exaltações ao Deus altíssimo. É impressionante a quantidade de atributos divinos que encontramos no livro de Salmos!

São maravilhosos e ricos em figuras de linguagens, como por exemplo, as símiles e as metáforas. A utilização de repetições é muito comum e as palavras-chave muitas vezes ressaltam temas de maior importância nas orações ou nos cânticos.

Mas o que é poesia?

Segundo o dicionário, é a “arte de criar imagens, de expressar emoções em que se combinam sons, ritmos e significados”. Pode-se definir poesia como qualquer tipo de linguagem verbal ou escrita que é estruturada ritmicamente e destina-se a contar uma história, expressar qualquer tipo de emoção, ideia ou estado de ser.

Robert Lowth (1829) ensinou que a utilidade é o objetivo final da poesia, e que o prazer é o meio pelo qual esse fim pode ser efetivamente cumprido. Nesse espírito ele declarou:

“Eu, portanto, estabeleço como uma máxima fundamental, que a poesia é útil, principalmente porque é agradável (…) os escritos do poeta são mais úteis do que os do filósofo, na medida em que são mais agradáveis” (Lowth, 1829, p.11).

Dentre toda a extensão do livro, hoje vamos dedicar a nossa atenção ao salmo do capítulo 24 que faz parte de uma trilogia, um conjunto de três salmos messiânicos, ou seja, que se cumprem em Jesus se completam: O Salmo 22, 23 e o 24. O Salmo 22 descreve Jesus como o Salvador que morreu por nós. Jesus Cristo citou-o na cruz: “Deus meu, Deus, por que me desamparaste?” (Mt. 27:46); o 23 refere-se a Jesus como o Bom Pastor, que nos guia e está conosco. Ele disse: “Eu sou o bom o bom pastor, o bom pastor dá a vida pelas ovelhas” (Jo. 10:11) e o Salmo 24 fala de Jesus como o Rei, o Criador dos céus e da terra.

Esse salmo é considerado real, ou seja, descreve um verdadeiro Rei que governa o mundo. Apresenta a entrada do Senhor na cidade de Jerusalém e pode ter sido cantado quando o rei Davi levou a Arca da Aliança para a cidade santa: “Assim subindo, levavam Davi e todo o Israel a arca do Senhor, com júbilo, e ao som das trombetas” (2 Samuel 6:15).

Pode-se dividi-lo em três passagens:

  • Adoração a Deus como Criador e Soberano do mundo (v. 1,2);
  • Questionamento de qual seria a abordagem apropriada ao Senhor (v. 3-6);
  • Antevisão do Rei da Glória (v. 7-10).

Deus é o criador e sustentador do mundo. Formou-o maravilhosamente somente com o poder de suas palavras. Desde o quark, uma partícula localizada no interior do núcleo do átomo, ou seja, a menor substância do universo, até o maior animal do mundo, a baleia azul, o Senhor os criou e tudo pertence a ele. Os alicerces que sustentam a terra de nada adiantaria sem o Alicerce maior: Deus, o sustentador de todo o universo.

E claro, não poderia faltar a joia de sua criação: o homem. Deus moldou o homem através do barro com as próprias mãos. O universo, juntamente com as galáxias, as estrelas, as nebulosas, asteroides, cometas, radiações etc. foram formados por uma ordem divina. Mas o homem não: O Senhor o modelou, temos as digitais de suas mãos em nós! E pertencemos a ele, somos obras sua.

Como se sente ao pensar sobre isto? O mesmo Deus que criou a imensidão do universo, é o mesmo que nos formou. E mais: nos criou à sua imagem e semelhança! Os animais irracionais não possuem este privilégio. É sempre bom lembrarmos o modo em que fomos formados para que possamos render graças àquele que é digno de ser chamado Criador.

No Salmo 15 também encontramos perguntas semelhantes. O salmista, ao perguntar sobre o direito de subir ao monte do Senhor, está, na verdade, perguntando quem poderá fazer morada para sempre na presença de Deus. Não declara, especificamente, sobre pertencer a uma igreja (o que é importante para todo cristão), mas vai além: descreve o perfil de um verdadeiro adorador.

Após o questionamento, ele mesmo responde. Na verdade, descreve o perfil de um autêntico cristão:

Tem uma vida correta tanto no agir como no pensar: “Pois estamos tendo o cuidado de fazer o que é correto, não apenas aos olhos do Senhor, mas também aos olhos dos homens” (2 Coríntios 8:21).

Viver de forma correta, para os que temem a Deus, não pode ser considerada uma obrigação. Simplesmente o seu caráter é transformado por Deus e ele não saberia viver de outra forma. Se no passado a sua vida era desregrada, pela graça de Deus, passa a ser guiada pelo Espírito Santo.

Quando vivemos de maneira correta, o nosso comportamento é transformado. A maneira como tratamos o nosso próximo, seja cristão ou não, também muda mesmo sem percebermos. É uma consequência maravilhosa.

Ao vivermos segundo os preceitos bíblicos, os nossos pensamentos se transformam e tudo o que pensamos é voltado para a glória de Deus.

Não se rende a idolatria:Por isso, meus amados irmãos, fujam da idolatria” (1 Coríntios 10:14).

Paulo nos manda fugir de qualquer idolatria/paganismo. O apóstolo instrui para que deixemos etal pecado em algum canto do nosso coração ou para esconder a idolatria de Deus (mesmo porque seria impossível); não diz para dividirmos o nosso tempo com coisas ou pessoas que não o agradam. É conciso ao afirmar para que FUJAMOS de qualquer pessoa ou objeto que toma o lugar de Deus na nossa adoração.

É comum, ao falarmos de idolatria, pensarmos imediatamente em imagens católicas ou em deuses de culturas politeístas. Antes fosse apenas isso! Seria até mais fácil removê-los de algum canto de nossa casa, mas o difícil é tirá-los do nosso coração.

Tudo que ocupa o lugar de Deus em nossa vida já é idolatria, é um tipo de “deus”. Seja o marido ou a esposa, dinheiro, sexo, trabalho, um apego emocional etc. se colocarmos essas coisas acima do Senhor, estamos praticando este terrível pecado. Cuidado.

Que peçamos a Deus auxílio para que não coloquemos nada acima dele em nosso viver. Lembre-se que a glória pertence ao Senhor e não a divide com ninguém.

Não age com falsidade: “Guarde a sua língua do mal e os seus lábios da falsidade” (Sl 34:13).

A falsidade é uma das características dos que não temem a Deus. Agir dessa maneira com o próximo é um ato de covardia e inimizade, não somente com a pessoa afetada, mas também com o próprio Deus. Quem se deixa levar por esse ato está, na verdade, dando lugar ao diabo e se torna um instrumento dele para coisas que não agradam ao Senhor.

Não faça promessas falsas, não espalhe notícias mentirosas e não seja fingido com o próximo. Os verdadeiros adoradores não agem assim! Não se rendem às pressões desse mundo e se negam a praticar maldades para agradá-las, mesmo porque, o intuito principal da vida do cristão é agradar somente a Deus não importando em que circunstâncias.

Que ao usar a nossa boca seja para palavras de consolo, benção, admoestações bíblicas e louvor ao que é merecedor: o nosso Baluarte.

Para algumas pessoas pode parecer demasiado pesado, mas para quem sabe que estas são as atitudes certas que agradam ao Salvador, é leve. Difícil mesmo é carregar a carga pesada do pecado que o diabo faz com que muitos o façam com uma certa aparência de leveza. “Pois o meu jugo é suave e o meu fardo é leve” (Mt 11:30).

Quem pratica o amor que Jesus ensinou, será salvo no dia do julgamento. O diabo poderá tentar culpá-lo de todas as formas, mas Deus o declarará justo diante dele, pois conhece os seus graças ao sangue do Cordeiro. Assim, somos mais que vencedores.

Quem age de maneira diferente ao que o salmista declarou, não é um genuíno cristão e não pode permanecer na presença dele. Deus não os suportaria.

Que entre o Rei da glória!

Aqui a chegada da Arca da Aliança é retratada para nós. As cidades dos tempos bíblicos eram cercadas por muros e portões para a proteção de possíveis invasões inimigas. Eram portais imensos colocados em lugares estratégicos nos muros que protegiam a cidade. Ficavam sempre abertos em épocas de paz e, quando em guerra, eram fechados para que protegessem os habitantes. Para que os portões fechassem com mais rapidez, não eram abertos para os lados, como se faz nas casas atualmente: e sim, suspensos, presos por cordas e correntes pesadas!

Quando o inimigo estava próximo, a corda era cortada e as correntes soltas. O peso da porta fazia com que despencasse e fosse fechada de forma ágil. Era muito prática.

Ao término da guerra, era enviado um arauto (oficial das monarquias medievais encarregado de proclamações solenes, do anúncio de guerra ou paz e de informar os principais sucessos nas batalhas) para anunciar a chegada do rei vencedor. Quando se aproximava dos portões, gritava: “Maranata!”, expressão que em aramaico significa “O nosso rei vem!”, e ordenava que as portas se abrissem. Assim, os responsáveis pelos portões tinham duas alternativas: fechar as portas e guerrear contra o novo rei ou levantá-las, abrindo-as para o novo rei e aceitar o seu governo.

Assim, o Salmo 24 faz menção a essa porta e ela está fechada! Então o salmista, o “arauto” da vez, ordena em alta voz: “Abram bem os portões, abram os portões antigos, e entrará o Rei da glória”! Quando a arca chega em Jerusalém há um júbilo glorioso porque tinha chegado aquele que daria beleza ao lugar: O Senhor!!

Há uma pergunta retórica nesses versos quando indagam “quem é o Rei da Glória?”, a resposta é óbvia e vem logo em seguida: É Deus! O Deus de Israel que ampara e protege todo o povo, o Senhor forte e poderoso que não perde nenhuma batalha, o que temeremos?

Que se abram todos os portões! O da nossa mente e do coração! Chegou quem faltava: O Senhor dos Exércitos! O poderoso nas batalhas, ele peleja em favor do seu povo, traz consigo uma espada flamejante para aniquilar o diabo e os seus seguidores. A batalha da cruz já foi vencida pelo sangue que foi derramado, nos salvou e redimiu.

Quem mais poderia tal feitos senão o Rei da Glória?

Os versos são repetidos para dar ênfase no que está sendo declarado. O povo de Deus nunca se cansará de adorar e repetir que Jesus é o Rei glorioso e em afirmar que é o Salvador de todos os povos.

Assim será até esse mesmo Rei voltar com toda a sua glória.

Amém.


REFERÊNCIAS

LOWTH, Robert. Lectures on the Sacred Poetry of the Hebrews. (Translated from the original latin by G.Gregory F.A. S) A new edition with notes by Calvin E. Stowe.For Crocker & Brewster, And J. Leavitt, No.182, 1829.p.11.

KAISER, Walter C.; SILVA, Moisés. Introdução à Hermenêutica Bíblica. (2ª edição). Cultura Cristã, 2009.p.83.




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Uma resposta a “REFLEXÃO: SALMO 24”

  1. Avatar de REFLEXÃO: SALMO 38 – ELLA CRISTÃ

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