SÉRIE: MULHERES CRISTÃS CORAJOSAS – PERPÉTUA E FELICIDADE

A inspiradora história de duas mulheres que amaram a Deus

A história do cristianismo é marcada por milhares de testemunhos maravilhosos em todo mundo e por estudiosos que se esmeram em buscar, pela inspiração do Espírito Santo, revelações da Palavra que abençoa toda a igreja através dos tempos. Mas também é marcada por momentos que, quando olhamos com os olhos humanos, é algo trágico e terrível; mas quando enxergamos com os olhos espirituais, glorificam a Deus: o martírio de cristãos por causa da fé.

Desde os tempos dos apóstolos, já havia a perseguição por causa de Cristo. A maioria foi morta de maneiras brutais que se possa imaginar. Mas ainda assim, a igreja não se calou e não se rendeu, há inúmeros testemunhos de fé de homens e mulheres que foram mortos, com muita honra, pela causa de Cristo.

Hoje falaremos sobre duas mulheres mártires que também não se curvaram ao inimigo por amor ao evangelho: Perpétua e Felicidade. A história das duas está entrelaçada pois elas sofreram juntas o mesmo martírio, assim como estavam juntas em vida, também estavam em morte pelo grande amor da vida de ambas…Jesus.

Não se sabe muito a respeito da vida delas, mas graças a um diário, que Perpétua manteve na prisão, foi possível sabermos algumas coisas.

Víbia Perpétua era uma nobre aristocrata da cidade de Cartago. Por pertencer a uma família de posses, ela aprendeu ler e a escrever muito bem. A cidade de Cartago (atual Tunísia, norte da África), era uma cidade muito antiga, foi fundada por exploradores marítimos da distante Fenícia quase na mesma época em que os pastores começavam a colonizar as colinas de Roma. Cartago se tornou uma cidade tão próspera que Roma passou a considerá-la como uma das principais metrópoles econômicas rivais. Por conta disso, nas Guerras Púnicas, Roma derrotou Cartago e a cidade ficou abandonada durante muitos anos, até que César Augusto devolveu-lhe a glória que a há muito tempo não se via. A cidade enriquecera com a exportação de cereais e azeite de oliva, assim, a vida da aristocracia romana do Norte da África era feita regalias e conforto. Essa era a época em que Perpétua vivia, e como fazia parte da aristocracia, dinheiro para ela não era problema; essas informações são necessárias para entendermos um pouco do quanto ela renunciou por Jesus.

A natureza exata da fé dessa mulher corajosa é a causa de intrigas de muitos historiadores. A igreja da época de Perpétua era destacada por um movimento cujo nome era Nova Profecia, os historiadores atuais o chamam de Montanismo, por causa do fundador, Montano, que difundiu suas ideias no continente da Ásia menor no século II. As principais características do Montanismo eram as profecias recebidas quando a pessoa estava em transe total; tinham um estilo mais rigoroso que o da maioria dos cristãos na época e proclamava a certeza de que o fim estava perto. Tal movimento chegou ao Norte da África, onde, pela sinceridade espiritual Tertuliano, considerado um dos pais da igreja, foi cativado. Embora esse movimento fora um tanto correligionário nos primórdios, na África, a Nova Profecia se desenvolveu como um movimento de teologia ortodoxa orientado pelo Espírito Santo na esfera geral da igreja. Anunciava que os bens materiais são passageiros, que Deus estava se revelando com o seu povo mais uma vez e que nenhum preço, nem mesmo a morte, era alto demais para ser pago para que o nome de Deus fosse glorificado. Por essa causa, uma jovem pertencente à aristocracia, filha de um pagão, acabou aprisionada no ano de 203.

Perpétua era casada, tinha a idade de vinte e dois anos e estava amamentando um filho quando foi martirizada e executada. Mas ela não caminhou para a morte sozinha: foi acompanhada pela sua escrava, Felicidade, que tinha praticamente a mesma idade de Perpétua e estava grávida de oito meses quando foi presa. Sabendo que ia ser morta, Felicidade pedia a Deus diariamente que o filho nascesse antes da possível execução. Assim aconteceu. O parto foi muito sofrido. Enquanto gemia de dores, o carcereiro dizia-lhe: “Agora se queixa pelas dores do parto. E quando chegarem as dores do martírio, o que fará?”. Ela respondeu-lhe: “Agora sou fraca porque sofre a minha pobre natureza. Mas quando chegar o martírio, a graça de Deus me acompanhará e me encherá de força” (1). Felicidade deu à luz a uma menina, que foi entregue aos cuidados de uma integrante da comunidade cristã.

Perpétua aguentou com perseverança a separação do filho que ainda amamentava e os constantes acessos de chantagens do seu pai, que ora lançava-se ao chão, ora arrancava suas barbas para convencê-la negar a fé em Jesus Cristo. Perpétua se compadecia por esse comportamento, sabendo que ele buscava evitar sua condenação pública e a desonra da família por uma escolha que julgava ser irracional. Numa das visitas do pai, ao ser instigada a abandonar sua opção religiosa, Perpétua argumenta: “Meu Pai, vês no chão este vaso ou jarro, ou como queira chamar?”. Ele respondeu: “Vejo”. Então lhe disse: “Acaso é possível chamá-lo de outro modo?”, ao que ele me respondeu: “Não”. “Da mesma maneira, eu não posso me chamar outra coisa que cristã.” (2)

Com as duas mulheres havia mais mártires que estavam no mesmo grupo dos encarcerados, entre eles, o instruído Saturo. Os diários que Perpétua e Saturo escreveram na prisão constituem o núcleo do texto que temos hoje e graças a esses escritos, Perpétua tornou-se a primeira autora cristã registrada.

Aos sete de março de 203 d.C, Perpétua, Felicidade e seus companheiros de cárcere foram levados ao anfiteatro e lançados às feras.

As memórias de Perpétua e Saturo foram inseridas numa estrutura editorial que apresentava a narrativa e registrava o resultado no coliseu. Acredita-se que esse hábil redator tenha sido Tertuliano. Com a típica eloquência retórica e o estilo impressionante que caracterizam os escritos de Tertuliano, o editor entreteceu a história dos mártires numa narrativa coerente e coesa que une história, teologia e apologética. No entanto, no fundo, o objetivo do editor para o texto era o mesmo de Perpétua: glorificar a Deus perante os olhos do mundo mediante o testemunho máximo do martírio.

Logo abaixo segue um pouco da transcrição do texto da narrativa na qual está registrada um pouco do ocorrido no coliseu. O texto completo do diário de Perpétua encontra-se na obra “Conhecendo os mártires da igreja primitiva”, de Bryan M. Litfin, da editora Vida Nova.

Perpétua e Felicidade são pisoteadas por uma vaca

Para as jovens mulheres, no entanto, o Diabo preparou uma vaca muito feroz.[1] Não era esse o costume, mas fizeram isso para arremedar o sexo das duas mulheres. Então, elas foram despidas, envolvidas em redes e conduzidas à arena. Os espectadores, entretanto, ficaram horrorizados quando viram que uma delas era uma jovem frágil e a outra tinha acabado de dar à luz e tinha os seios ainda túmidos de leite. Por isso as autoridades cobriram as duas com túnicas folgadas.

A vaca arremessou Perpétua primeiro, que caiu sobre o quadril. Sentando-se, ajeitou depressa a túnica no local onde se rasgara, ao lado do corpo, para cobrir as coxas — pois se preocupava mais com a decência do que com a dor. Em seguida procurou o seu grampo e ajeitou os cabelos despenteados. Acreditava que não era adequado morrer com os cabelos soltos, pois em seu momento de triunfo isso lhe daria o aspecto de uma mulher de luto.

Pôs-se de pé. Ao ver Felicidade caída no chão toda dobrada, aproximou-se dela e ofereceu uma das mãos à amiga ajudando-a a se levantar. As duas permaneceram ali lado a lado. Satisfeita a brutalidade da multidão, as duas mártires foram levadas de volta ao Portão da Vida.

Enquanto aguardavam, um crente não batizado chamado Rústico ficou ao lado de Perpétua dando-lhe apoio. Foi então que ela despertou do que parecia uma espécie de sono, embora, na verdade, ela tivesse sido arrebatada no Espírito.[2] Começou a olhar em volta e, para a admiração de todos, perguntou:

— Quando vamos ser lançadas para a vaca, ou seja lá o que for?

Ao ouvir que isso já havia acontecido, não conseguiu acreditar até ver os cortes em seu corpo e os rasgões na roupa.

Em seguida, Perpétua chamou seu irmão e disse a ele e a Rústico.

— Fiquem firmes na fé — instou — e amem-se uns aos outros, todos vocês! Não deixem que nosso martírio seja uma pedra de tropeço para vocês.

Pouco depois, Saturo foi atirado inconsciente com os outros mártires no local onde era costume cortarem a garganta dos moribundos.[3] No entanto, a turba exigiu que os mártires fossem levados para a arena. Assim, quando a espada traspassou o corpo dessas vítimas, os espectadores tomaram parte no homicídio com os próprios olhos e se tornaram cúmplices do crime.

Os mártires se levantaram de maneira espontânea e foram para o lugar onde o povo os desejava. Antes, porém, beijaram-se uns aos outros e com isso consumaram seu martírio com o beijo da paz. Todos eles permaneceram completamente imóveis e cada um recebeu em silêncio o golpe da espada, sobretudo Saturo. Assim como havia sido o primeiro a subir a escada no sonho, assim também foi o primeiro a render o espírito. Mais uma vez estava à espera de Perpétua.

Ela, todavia, teve de sofrer um pouco mais de dor. Quando a espada penetrou entre seus ossos, Perpétua soltou um grito pungente. Depois ela mesma guiou a mão trêmula do jovem e inexperiente gladiador até a própria garganta. Talvez possamos dizer que essa mulher tão notável, temida pelo demônio que habitava o carrasco, não pudesse ser morta se ela mesma não o permitisse.

Impetração de bênção

Salve, ó mártires assaz corajosos e bem-aventurados! Em verdade vocês foram chamados e escolhidos para a glória de nosso Senhor Jesus Cristo! Todo aquele que o engrandece, honra e adora deve ler estas histórias exemplares para a edificação da igreja. Estes novos relatos de milagroso poder não são menos importantes que as narrativas de outrora. Eles nos lembram de que o mesmo Espírito Santo continua a operar, mesmo hoje, junto com Deus Pai Onipotente e seu Filho Jesus Cristo, nosso Senhor, a quem sejam a glória e o poder infinito para todo o sempre. Amém!

[1] A vaca leiteira era um símbolo universal do aleitamento materno. Perpétua e Felicidade, que haviam renunciado o direito aos filhos, são comparadas a uma vaca selvagem como sinal de escárnio sobre elas por terem rejeitado o papel materno tradicional. Tal ato era repugnante e incompreensível para a sensibilidade romana. As duas mulheres são consideradas semelhantes a vacas que voltaram ao estado selvagem e se tornaram ferozes. Como vimos, porém, elas não rejeitaram a maternidade de per si — apenas a puseram em segundo plano diante de uma lealdade ainda mais irresistível. Jesus disse: “Quem ama seu filho ou sua filha mais do que a mim não é digno de mim” (Mt 10.37).

[2] Sem pôr em dúvida a força que o Espírito Santo infundiu em Perpétua nesse momento, podemos imaginar também que, do ponto de vista filosófico, ela se encontra em estado de choque por causa dos ferimentos e com dificuldade de compreender o que acontece ao seu redor. Seus atos — cobrir-se, procurar o grampo de cabelo, ajudar Felicidade, encarar a multidão em meio ao seu estado de estupor — não são intrinsecamente impossíveis nem mesmo improváveis num momento em que a jovem traumatizada procurava preservar a própria dignidade ou entender o que estava ocorrendo. Contudo, é provável que esses atos não tenham sido praticados com a intencionalidade e a clareza mental que o autor quer nos dar a entender. No contexto da antiguidade, isso não teria sido considerado uma fuga à fidelidade factual. O público desse texto entendia bem seu caráter “teologizado” e não esperava nenhum relato jornalístico dos acontecimentos.

[3] Nos coliseus antigos, esse aposento se chamava spoliarium, um lugar onde se retirava a armadura dos gladiadores mortos e os criminosos moribundos recebiam o golpe de misericórdia do executor. Segundo um estudioso, o spoliarium do anfiteatro de Cartago situava-se perto da Porta da Morte, no lado oeste da estrutura (David L. Bomgardner, “The Carthage Amphitheater: A Reappraisal”, American Journal of Archeology 93, n. 1 [January 1989]: p. 89, 100). Embora houvesse um cemitério do lado de fora dessa parte do edifício, Perpétua e seus companheiros não foram sepultados ali. Os restos mortais dos mártires acabaram indo parar na grande igreja da antiga Cartago, chamada Basílica dos Antepassados, construída sobre o antigo cemitério da rica família de Perpétua. Essa igreja foi destruída, e os ossos dos santos se perderam. Entretanto, há num museu da Tunísia uma placa de pedra onde se lê “Aqui jazem os mártires Saturo, Saturnino, Revogado, Secúndulo, Felicidade (e) Perpétua, que sofreram em 7 de março”. Perto do local onde foi encontrada a placa, em 1906, na abside da igreja, os arqueólogos descobriram o túmulo de uma criança cujo corpo estava envolvido num tecido bordado a ouro. Encontraram também dois sarcófagos de adultos, num dos quais o morto estava envolvido num pano igualmente rico. É tentador imaginar tratar-se das relíquias de Perpétua e Dinócrates, seu irmão mais novo, embora os dados talvez não nos permitam tal afirmação. Mesmo assim, onde quer que estejam esses ossos, não ficarei surpreso se eles começarem a se mover quando soar a última trombeta.

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Trecho da obra “Conhecendo os Mártires da Igreja Primitiva: Uma Introdução Evangélica“, de Bryan M. Litfin, publicada por Vida Nova: São Paulo, 2019, pp. 109-110, 125-126, 127-128.

Referências

A inspiradora história de Perpétua e Felicidade

(1) Santas Perpétua e Felicidade. Artigo disponível em > http://farfalline.blogspot.com/2015/03/santas-perpetua-e-felicidade.html.

(2) ROBERTS. Alexander. & DONALDSON, James. 10 Early Christian Saints. The Passion of The Holy Martyrs Perpetua and felicitas (203). Adapted from the Ante Nicene Fathers, Vol. 3. 1885.


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Duas mulheres abraçadas antes de morrerem no coliseu. Desenho.

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