A DAMA DA REFORMA PROTESTANTE
Um de seus biógrafos escreveu algo interessante sobre esta notável mulher:
Ela não escreveu nenhum livro nem jamais pregou um único sermão, mas seu inestimável auxílio possibilitou que seu marido fizesse tudo isso como poucos na história da igreja.
Quando falamos sobre a Reforma Protestante, é natural lembrarmos de nomes que marcaram o movimento e fizeram grandes contribuições para que se tornasse um divisor de águas na história do cristianismo. Nomes como: João Hus, John Wycliffe, Ulrich Zuínglio, Martinho Lutero, João Calvino e tantos outros que ajudaram a escrever essa história. Mas não podemos esquecer das esposas que, pela graça de Deus, exerceram papeis e grande influência para que os reformadores fossem adiante no propósito divino.
A esposa do reformador alemão, Martinho Lutero, é uma mulher inspiradora; embora pouco se saiba sobre ela, ela é frequentemente considerada importante para a Reforma, seu casamento estabeleceu um precedente para o casamento clerical .
Katharina von Bora nasceu em Lippendorf, um povoado perto de Leipzig, na Alemanha, em 29 de janeiro de 1499. Filha de Hans von Bora e Ana von Haubitz, uma família de nobres empobrecidos que tiveram que vender as propriedades que possuíam após o nascimento de Katharina. Ela perdeu a mãe precocemente, quando tinha apenas três anos de idade; diante do novo casamento do pai, este achou por bem levar a pequena Katharina, quando completou cinco anos de idade, para estudar em uma escola que pertencia ao convento Beneditino onde vivia sua tia Madalena Von Bora. Ao completar dez anos, foi transferida para o mosteiro cisterciense de Nimbschen. Nestes lugares estudou, aprendeu a ler e escrever, inclusive em latim, fazer trabalhos artesanais, usar ervas medicinais, cuidar de hortas, ganhou conhecimentos na área administrativa e a estudar a Bíblia.
No ano de 1517, quando Lutero publicou as 95 teses que culminou na Reforma, Katharina tinha dezoito anos. Um certo comerciante, chamado Leonard Koppe, que entrava no mosteiro com regularidade para abastecer o convento com mantimentos, levou a notícia de que muitas freiras e monges estavam abandonando a religião católica depois de lerem os textos de um tal Martinho Lutero. O livro que os influenciaram a tomar esta decisão foi o Da Liberdade Cristã.
Assim, quando as freiras deste convento também leram sobre os ensinamentos, chegaram à conclusão de que não havia mais sentido viverem enclausuradas e decidiram abandoná-lo e Katharina estava entre elas. Todas escreveram cartas destinadas às famílias pedindo para que as tirassem de lá, do qual foi negado e, então, decidiram fugir; para ajudá-las nessa debandada, as freiras resolveram escrever para Lutero e narraram a situação, quem redigiu a carta foi Katharina. Diante do pedido inusitado, o reformador encorajou o mesmo comerciante, Kopper, a auxiliá-las na fuga. Em uma sexta-feira, no dia 5 de abril de 1523, ele escondeu doze freiras entre os barris de peixes! Levaram-nas até a cidade de Torgau que ficava a 52 km do convento.
Lutero tentou ajudar a todas que fugiram a encontrarem suas famílias, um emprego ou marido. Três das ex-freiras voltaram para suas casas, nove voltaram para Wittenberg e Katharina estava entre elas. Ela foi acolhida por Lucas e Barbara Cranach, pertecentes à uma família importante na cidade; Lucas era um pintor talentoso e foi o artista responsável pelo famoso retrato de Katharina que conhecemos atualmente.
Das freiras que fugiram do convento, Katharina era a única que continuava solteira e Lutero decidiu ajudá-la a encontrar um pretendente. Ela se apaixonou por um ex-aluno do reformador da Universidade de Wittenberg, Jerônimo Baumgärtner. No entanto, os pais do rapaz não aprovaram a relação, visto que ela era uma ex-freira sem dinheiro e era considerado pecado a quebra de votos quando já se era ordenada, assim como o casamento de padres, freiras e monges. Lutero tentou ajudar escrevendo uma carta para a família, porém, a resposta foi desfavorável.
Lutero, então, sugeriu que se casasse com um pastor chamado Casper Glatz do qual ela recusou e dizia: “Só me casarei com o Dr. Lutero ou com alguém muito parecido com ele”. Essas declarações provocavam risadas no reformador, apesar de não mais ser a favor do celibato, não tinha desejo de casar-se. Afirmava categoricamente: “nunca farão com que eu me case!”.
Mas essa decisão não durou por muito tempo. Seja pela amizade, pelos conselhos do pai ou insistência dos amigos, ele acabou propondo casamento a Katharina no dia 13 de junho de 1525 e casaram-se no dia 25 de junho daquele mesmo ano. Apenas doze dias após o noivado! Nas próprias palavras de Lutero: “agradar seu pai, irritar o papa, fazer os anjos rirem e os demônios chorarem, e selar seu testemunho”.
Muitos ficaram surpreendidos com a notícia, um colega de trabalho da Universidade, Melanchthon, escreveu à um amigo e declarou: “Inesperadamente, Lutero desposou Bora sem querer mencionar seus planos ou consultar seus amigos”. Para muitos, este casamento estava fadado ao fracasso, pois motivos não faltavam: ainda não se admitia que ex-padres e ex-freiras selassem matrimônio, era uma imoralidade; Lutero, naquele momento, estava lutando contra Roma ao se rebelar contra as suas doutrinas (corria risco de morte) e era bem mais velho que a esposa (quando se casaram, Lutero estava com 42 anos e Katharina com 26).
São interessantes algumas observações de Lutero sobre o começo de sua vida de casado. Escrevendo à um amigo, declarou: “Existem algumas coisas com as quais precisamos nos acostumar no primeiro ano de casamento; o sujeito acorda de manhã e encontra um par de tranças postiças no travesseiro, onde antes não havia nada!”. Após um ano de casado, escreveu: “Minha Kathe é, em tudo, tão dedicada e encantadora que eu não trocaria minha pobreza pelas maiores riquezas do mundo”. E mais tarde: “Não há na terra um laço tão doce, nem uma separação mais amarga como a que ocorre num bom casamento”.
Por fim, a mais conhecida da declaração:
Não há relação mais bela, mais amável e mais desejável, nem comunhão e companhia mais agradável do que a de marido e mulher num casamento feliz.
Eles receberam de presente, do príncipe Frederico, o prédio do mosteiro agostiniano em Wittemberg para viverem.
O Mosteiro de Santo Agostinho (Augustinerkloster em alemão) em Erfurt, no centro da Alemanha, é uma antiga igreja e complexo de mosteiro que data do século XIII. O local tem quase um hectare de tamanho. Foi construída por frades agostinianos, uma ordem da Igreja Católica. É mais conhecida como a antiga casa de Martinho Lutero (1483-1546). Hoje pertence à Igreja Evangélica na Alemanha Central.
Katharina reformou o mosteiro e o administrava com diligência para que Lutero pudesse dedicar-se às tarefas que essencialmente lhe cabiam: escrever, lecionar e pregar.
Logo, Katharina percebeu que seu marido não era hábil em relação às finanças: não tinha salário como pregador, não cobrava pelas aulas e ainda emprestava dinheiro, quando não podia, à amigos e pessoas carentes. Mas ela conseguiu resolver tudo isso: como pregador, passou a receber salário, as aulas eram pagas, as pessoas eram ajudadas dentro do orçamento doméstico e negociava com as editoras a respeito de publicações dos livros do marido. Era normal ela viajar a negócios por dias e até mesmo semanas. Nesses momentos, Lutero ficava em casa cuidando dos filhos.
Khatarina era uma mulher trabalhadeira e talentosa: cuidava de uma horta e orquidário; fabricava materiais para pescaria; em um pequeno sítio que adquiriram, criava galinhas e gado; fabricava cerveja caseira, gostava de bordar e de uma boa leitura. Para conseguir realizar todas estas tarefas, Katharina levantava as quatro horas da manhã; por isso, ganhou o carinhoso apelido de Lutero de “a estrela da manhã de Wittenberg”. E era também uma ótima hospitaleira: recebia professores, estudantes (ajudando a equilibrar o orçamento doméstico), refugiados, órfãos, parentes, pastores, além de cuidarem dos seis sobrinhos da falecida irmã de Lutero e, claro, os próprios filhos (lembrou da mulher de Provérbios 31?).
Mesmo em meio a tantas tarefas domésticas, não negligenciava as Escrituras. Era sempre encorajada pelo marido a fazer os devocionais e estudar a palavra; não raro, participava das conversas com Lutero e seus alunos sobre temas relacionados com a Reforma e as Escrituras.
Katharina cuidava muito bem do marido tanto física como espiritualmente. Por vezes, Lutero se deprimia, depois de um tempo de muita produtividade, entrava em fases de tristeza e indiferença. Nestas horas, a esposa era instrumento nas mãos de Deus para ajudá-lo a ficar em pé novamente. Diz-se que, certa vez, Lutero estava bastante deprimido. Não se alimentava e passava os dias trancafiado no quarto e estava cheio de dúvidas sobre se o que fazia era ou não a vontade de Deus. Katharina vestiu-se de preto e entrou abruptamente no aposento. Lutero assombrou-se, pensando que alguém tinha morrido. Katharina respondeu: “Ao que parece, Deus morreu!” A reação de Lutero foi imediata: levantou-se e saiu do quarto, agradecendo à esposa por fazê-lo retornar à vida.
Von Bora em 1546.

O casal teve seis filhos, mas, infelizmente, dois morreram muito cedo: a primeira filha, Elizabeth, com apenas oito meses de vida; a segunda, Madalena, tinha trezes anos. Quando Madalena estava muito doente, Lutero orou: “Senhor, eu amo muito a minha filha, mas seja feita a tua vontade”. Ajoelhando-se junto à cabeceira de sua cama, falou: “Madalena, minha menina, eu sei que você gostaria de permanecer aqui com seu pai, e sei que gostaria de ir encontrar-se com o seu Pai no céu”. Ela, sorrindo, respondeu: ‘Sim, papai, como Deus quiser’. Depois de alguns dias, ela faleceu em seus braços, e no seu sepultamento, Lutero disse chorando: “Minha querida e pequena Lena, como você está feliz! Você ressurgirá e brilhará como o Sol e as estrelas… é uma coisa esquisita – eu saber que ela está feliz e em paz, e ainda assim, me sentir tão triste!”
A respeito dos outros quatro filhos: o mais velho, Hans, estudou Direito e tornou-se conselheiro da corte; o segundo, Martin, estudou Teologia; o terceiro, Paul, tornou-se um médico famoso e a terceira filha, Margareth, casou-se com um rico prussiano. A título de curiosidade: os descendentes de Lutero que ainda vivem, descendem de sua filha Margareth, dentre eles, o ex-presidente da Alemanha, Paul Von Hindenburg.
Lutero faleceu em 1546, de derrame cerebral, após de 21 anos de casados aos 63 anos de idade, em sua cidade Natal, Eisleben. Seu corpo foi sepultado na Igreja do Castelo de Wittenberg, onde, cerca de 30 anos antes, havia afixado suas 95 Teses.
Na verdade, estou tão triste que não posso expressar minha grande dor a ninguém e não sei como estou e me sinto. Não posso comer nem beber. Nem dormir novamente. Se eu tivesse possuído… um império, não teria me sentido tão mal ao perdê-lo, como me senti quando nosso querido Senhor Deus tirou de mim – e não apenas de mim, mas do mundo inteiro – esse homem querido e digno.
Seis anos após o falecimento do amado, ela também foi encontrar-se com Deus. Katharina passou o resto de seus dias buscando apoio dos antigos apoiadores de Lutero na esperança de manter sua casa e seus filhos, pois o testamento que ele deixara estava invalidado pelo governo na época. Ela faleceu depois de cair de uma carroça em dezembro de 1552. No seu leito de morte, proclamou: “Eu vou me apegar a Cristo como um carrapicho se apega a um casaco.”
Busto de Catarina de Bora na cidade de Ludwigshafen, por Gernot e Barbara Rumpf

Não há dúvidas que Katharina influenciou o reformador em vários aspectos. É certo que quando se conheceram ele já havia contribuído para a Reforma, mas talvez Lutero não suportaria o que suportou se não tivesse uma mulher igual a ela em sua vida.
Se hoje temos vários escritos de Lutero, que nos ajudam na caminhada cristã, é porque havia uma Katharina em sua vida que possibilitou tudo isso e, claro, sem a vivência de família que ela lhe proporcionou, talvez os textos não teriam tanta vivacidade.
Escrevendo, certa vez, à um amigo, disse:
Minha querida Kate me mantém jovem, e em boa forma também… Sem ela, eu ficaria totalmente perdido. Ela aceita de bom grado minhas viagens e quando volto, está sempre me aguardando com alegria. Cuida de mim nas minhas depressões e suporta meus acessos de cólera. Ela me ajuda em meu trabalho, e acima de tudo, ama a Cristo. Depois Dele, ela é o maior presente que Deus já me deu nesta vida. Se algum dia, vierem a escrever a história de tudo o que já tem acontecido (a Reforma), espero que o nome dela apareça junto ao meu. Eu oro por isso.
Referências
Semblano, Martinho Lutero. Reformadoras: O Papel das Mulheres na Reforma Protestante. Rio de Janeiro: Scriptura, 2012.
Tucker, Ruth A. A Primeira-Dama da Reforma: A Extraordinária Vida de Katharina von Bora. Rio de Janeiro: Thomas Nelson Brasil, 2017.

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