A mulher que esqueceu de si mesma para ajudar ao próximo
“Nenhum poço é tão profundo que Ele não possa alcançar. Com Jesus, mesmo nos momentos mais difíceis e sombrios, o bem permanece e o bem maior há de vir.”
Corrie ten Boom
Imagine-se em um lugar onde não há cores para contemplar: nenhuma flor, lago, nem mesmo um céu azulado, mas permanentemente cinza; não há cordialidade, amizade e educação, mas só um trabalho incessante sem receber nada em troca. Nem mesmo a garantia de estar vivo no dia seguinte, pois pode ser assassinado a qualquer momento por um tirano. E ainda assim, crer que há um Deus que te contempla e que governa tudo.
Essa foi a vida que Corrie ten Boom viveu durante dez meses em que passou por alguns campos de concentração nazista durante a II Guerra Mundial. Essa horrível experiência pode ser conhecida através de seu livro “O Refúgio Secreto” (Editora Betânia) que posteriormente foi adaptado para o cinema com o mesmo título.
Para um melhor entendimento do porquê do título do livro, vamos conhecer um pouco sobre a vida desta notável mulher e o que tem a nos ensinar com a sua história de vida.
Cornelia Johanna Arnolda ten Boom, conhecida como Corrie ten Boom, nasceu no dia 15 de abril de 1892 em Amsterdã, Holanda, vindo a falecer na mesma data de seu aniversário, em 1983. Pouco depois de seu nascimento, a família mudou-se para Haarlem. Ela pertencia a uma família cristã reformada e graças a educação cristã que cultivava e a fé pela inerrante palavra de Deus, ela pôde suportar o que viria anos mais tarde.
O histórico de oração desta família é admirável, pois o avô de Corrie, Willen ten Boom, orava, semanalmente, pelo povo judeu que ainda era vítima de preconceito no continente europeu. Toda a família deu continuidade a esta tradição pois reconheciam a importância desse povo nas Escrituras e possuíam um profundo respeito por eles.
Era a mais nova de quatro irmãos: tinha um irmão, Willem, e duas irmãs, Nollie e Betsie. Um irmão, Hendrik Jan, morreu na infância. Infelizmente, a mãe faleceu devido à um problema cardíaco aos 63 anos de idade.
Casper ten Boom, seu pai, era o proprietário de uma relojoaria. Logo ela demonstrou interesse na profissão e aprendeu o ofício com maestria e, em 1922, tornou-se a primeira mulher relojoeira licenciada na Holanda.
A família levava uma vida tranquila, até que, no dia 10 de maio de 1940 os alemães invadiram a Holanda. Era o início de um intenso pesadelo em todo o país, na verdade, em toda a Europa.
Não é de admirar que quando teve início a perseguição a este povo, esta família não pensou duas vezes ao tornar-se defensora dos judeus, enfrentando o próprio Hitler e o medo. Ela, verdadeiramente, cumpriu o que está escrito em Filipenses 2:4:
“Cada um cuide, não somente dos seus interesses, mas também dos interesses dos outros.”
Corrie estava decidida a ajudar esconder a quem lhe fosse permitido e a relojoaria foi fundamental para que isso acontecesse. Os membros que faziam parte da resistência holandesa contra os alemães, esconderam nas grandes caixas de relógios antigos, argamassas e tijolos para a construção de uma parede falsa e uma sala camuflada no quarto de Corrie. O cômodo tinha 2,5 de comprimento e 60 cm de profundidade podendo abrigar sete pessoas. Ali nascia “O Refúgio Secreto”. Instalaram ainda uma campainha para alertá-los a se esconderem sempre que a Gestapo estivesse nas redondezas ou batesse à porta.
Durante quatro anos, com a ajuda de Deus em pequenos e grandes milagres, o refúgio salvou muitas vidas. Até que no dia 28 de fevereiro de 1944, um informante denunciou a família sobre as operações e muitos foram presos. Felizmente, o refúgio não foi descoberto e naquele dia, seis pessoas foram poupadas e resgatadas pela resistência holandesa dois dias depois.
O pai de Corrie, com 84 anos, foi levado para a prisão de Scheveningen e morreu dez dias após a captura. Willem, irmão de Corrie, um ministro reformado holandês, foi liberto graças a um juiz solidário e a irmã Nollie também foi liberta.
Nos dez meses seguintes, Corrie e sua irmã Betsie foram transportadas de Scheveningen para o campo de concentração de Vugt, na Holanda, terminando no campo de concentração de Ravensbruck, perto de Berlim. Os prisioneiros eram forçados a trabalharem em projetos agrícolas e fábricas de armamento. Milhares de mulheres foram executadas nesse lugar.
Nem é preciso descrever em que condições essas duas mulheres e tantas outras viveram neste tipo de ambiente: respiraram o ar da morte, da podridão e o da injustiça (se não conhece, é uma boa oportunidade para ler mais sobre o assunto). O que mantinha estas duas irmãs de pé? A Palavra de Deus. Conseguiram contrabandear uma Bíblia de forma miraculosa e não foram pegas em todo o tempo que estiveram confinadas.
Mesmo em meio ao sofrimento, as irmãs conduziam orações secretas (a palavra “secreto” era constante em suas vidas) onde dormiam, cantavam e oravam de forma discreta para não chamar atenção dos guardas.
No dia 16 de dezembro de 1944, apenas duas semanas antes de Corrie ser libertada, Betsie faleceu em Ravensbruck de fome e negligência médica. As últimas palavras, ao morrer, proferidas pela irmã de Corrie é também uma lição para nós:
… (nós) devemos contar a eles o que aprendemos aqui. Devemos dizer a eles que não existe um buraco tão fundo que Ele não esteja ainda mais fundo. Eles vão nos ouvir, Corrie, porque estivemos aqui.
Esta notável mulher foi liberta do campo devido a alegações de um “erro burocrático”. O que Ten Boom chamou essa ocorrência de milagre. Pouco tempo depois de sua libertação, todas as outras mulheres de sua faixa etária em Ravensbruck foram executadas. Realmente ela vivenciou um milagre.
Agora livre, tentando voltar a uma rotina normal, Corrie dedicou-se ao ministério e a narrar ao mundo o que presenciou e viveu naqueles dias terríveis. No ano de 1945, alugou uma casa em Bloemendaal para transformá-lo em um lar para os sobreviventes do holocausto e criou uma organização sem fins lucrativos na Holanda como uma forma de apoiar o lar e o ministério.
Em 1946 mudou-se para os Estados Unidos. Neste país participou de várias conferências e falou em diversas igrejas. Ela viajou para 64 países falando de sua experiência e pregando a Cristo. Seu livro de 1971, The Hiding Place, tornou-se um best-seller. Em 1975, a World Wide Pictures, o ramo cinematográfico da Billy Graham Evangelistic Association, lançou uma versão para filme com Jeannette Clift George no papel de Corrie.
Devido aos problemas de saúde, Corrie se estabeleceu em Placentia, Califórnia, em 1977 e reduziu suas viagens após a cirurgia de marca-passo. No ano seguinte, sofreu o primeiro de vários derrames, o que reduziu sua capacidade de falar e se locomover sozinha.
Corrie ten Boom morreu em seu 91º aniversário. Ela foi enterrada no Fairhaven Memorial Park em Santa Ana, Califórnia.
Toda a sua vida, até a idade adulta, foi dedicada ao Evangelho. Confesso que li o livro, “O Refúgio Secreto”, há alguns anos. Lembro de ter achado uma obra comovente e várias passagens ficaram marcadas na minha mente, mas ainda não sabia nada sobre a autora e em como, logo após a guerra, ela trabalhou de forma incansável a apregoar a Palavra de Deus.
Eis aqui a lição que aprendi: ela poderia ter vivido enclausurada por muito tempo, afinal de contas, enfrentou um campo de extermínio! Mas ainda assim, dedicou todo o tempo que restava para servir ao próximo e mesmo estando desgastada, ajudou outras pessoas a superarem um trauma que, talvez, ainda nem ela mesma houvesse superado ainda. Creio que com a ajuda de Deus e ao auxiliar os outros, ela foi curada.
Corrie cumpriu o ide de Jesus mesmo em meio as piores circunstâncias: primeiro dentro de campos de extermínio e depois fora deles.
Mesmo em meio a tanto sofrimento a que fora submetida, enfrentando a perca de familiares, Corrie permaneceu fiel. A fé não diminuiu, muito pelo contrário!
Com ela podemos aprender que as diversas prisões que enfrentamos, só aprisiona o nosso corpo mortal. A nossa adoração e comunhão com o Senhor continuam livres.
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REFERÊNCIAS
Casa Corrie Tem Boom. “O Museu” https://www.corrietenboom.com/en/information/the-museum. Acessado 25 de outubro de 2021.
https://www.greelane.com/pt/humanidades/história–cultura/biography-of-corrie-ten-boom-4164625/. Acessado 25 de outubro de 2021.

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