Uma das pregadoras durante a Reforma Protestante
As informações a seu respeito são raras, as datas de nascimento e morte não são exatas. Claudine Levet atuou em Genebra como pregadora e escritora no ano de 1536. As atividades desta mulher foram relatadas nas atas de Antoine Fromment, pastor protestante da época.
Em 1532, Claudine Levet, essa admirável pregadora durante a Reforma, já era esposa de Aymon Levet, boticário (profissão que corresponde à de farmacêutico), burguês de Genebra e capitão do distrito de Saint-Gervais, onde o casal residia e onde foram proprietários de um banco e uma loja. Claudine sabia ler muito bem, o que, para uma mulher, não passava despercebido nem mesmo nas famílias de elite política da época.
Ela se interessava muito por assuntos de cunho teológicos. No começo da Reforma Protestante foi desfavorável ao movimento, mas logo se converteu e acabou convencendo o marido e os amigos próximos a segui-la. Durante a agitação civil que desabrolhou após a pregação dos primeiros reformadores, Claudine Levet os recebeu em sua casa por conta da perseguição.
Elogiada por sua capacidade de explicar as Escrituras, organizou, com sua cunhada, Paule Levet, e outras mulheres de sua comunidade, reuniões de aprendizado da Bíblia. Em muitas ocasiões, quando estava em um culto e não havia quem ministrasse a palavra, os irmãos presentes pediam que Claudine explicasse algum versículo, pois viam nela capacidade vinda do Senhor.
Abandonando as regalias e a grandeza em que vivia, utilizou suas posses em socorro aos necessitados, principalmente aos da família na fé, os que haviam sido expulsos e exilados em prol da Reforma Protestante hospedando-os em seu lar.
Através das informações registradas por Fromment, é possível concluir que Claudine Levet pregava publicamente em Genebra, antes mesmo da chegada de Calvino, onde assumiu, em diversas ocasiões, o papel de pregadora quando não havia quem os fizesse nos cultos.
Conhecida por suas ideias, escapou por pouco de um linchamento em 1533. Pouco depois, colocou suas habilidades de oratória à prova ao interceder por seu marido, que havia sido ferido e preso. Devido à sua facilidade de oratória e aos conhecimentos bíblicos que possuía, os magistrados da cidade lhe confiaram, em 28 de agosto de 1535, a tarefa de pregar às Irmãs “Clarissas” para convencê-las a deixar o convento. As freiras, no entanto, não gostaram de sua pregação e da teóloga Marie Dentière que a acompanhava, e o encontro terminou em contendas.
Após a transição para a Reforma, a supervisão religiosa dos fiéis em Genebra foi confiada exclusivamente aos pastores. Esta decisão tornou a atividade de pregação de Claudine Levet ilegal e, como continuou a falar em cultos públicos, não foi mais encontrada, sendo difícil rastreá-la. Ainda assim, chegou a remeter uma carta à rainha Margarida, de Navarra, pedindo que ela intercedesse junto ao irmão, o rei da França, para eliminar a divisão entre homens e mulheres na igreja: “Embora não seja permitido a nós (mulheres) pregar em assembleias públicas e nas igrejas, não obstante não nos é proibido escrever e admoestar uma à outra com todo o amor”, escreveu à rainha.
No entanto, alguns documentos raros atestam o reconhecimento social que ainda gozava: viúva em 1537, “la Levetaz” ou “donne Claudine” (como é mencionada nas fontes) foi nomeada tutora de seus filhos, Guillaume e Gabriel Levet, administrou seus bens e comprou uma casa.
Os anos seguintes foram conflituosos para esta mulher. Em 1540, quando era casada com um cirurgião chamado mestre Pierre, Claudine Levet compareceu com seus quatro filhos pequenos perante os magistrados da cidade. Ela acusava o marido de abuso e pedia proteção, que foi concedida e o marido levou uma séria advertência. Um ano depois, é o cirurgião quem denunciava Levet porque ela se recusava a morarem juntos novamente. Segundo o marido, ela também frequentava a casa de pessoas suspeitas de anabatismo, corrente teológica radical que na época foi proibida e perseguida. Claudine Levet declara, então, que recusa a coabitação para não cometer uma falta moral, acusando-o, por sua vez, de adultério e bigamia. Os membros do Conselho levaram a investigação a Chambéry para estabelecer o mérito de sua denúncia. Eventualmente, eles pedem que o casal se reconcilie. Mas Claudine Levet não cedeu e por isso passou alguns dias na prisão.
A denúncia do anabatismo não gerou consequências, mas em uma data desconhecida, Claudine Levet abandonou Genebra e instalou-se no cantão de Vaud. Um terceiro casamento, com Jean de Tournay, pároco em Aigle e colaborador próximo dos reformadores Pierre Viret e João Calvino, testemunha mais uma vez sua inclusão social e seu envolvimento religioso.
Os últimos vestígios dela surge do contrato de casamento de sua filha Esther de Tournay em 6 de junho de 1563 em Genebra. Claudine Levet é mencionada como falecida.
Infelizmente, isso é tudo que se sabe a respeito dessa mulher perspicaz e de seu compromisso com Deus incontestável. Ainda que pouco conhecida por conta dos escassos registros de suas atividades para o crescimento do Reino de Deus, tudo o que fez impactou e contribuiu para que a palavra de Deus fosse disseminada na época em que viveu.
É inegável que o seu exemplo de amor ao próximo e, principalmente, pela palavra de Deus, pode servir de exemplo a todos que buscam fazer com que o Reino de Deus continue a crescer.
Referências
FROMET, Antoine. Os atos e gestos maravilhosos da cidade de Genebra, recém-convertidos ao Evangelho faictz na época de sua Reforma e como eles a receberam, ed. Gustave Revilliod, Genebra, J.-G. Fick, 1854, p. 15-21 e pág. 44.
Registros do Concílio de Genebra na época de Calvino, dir. Arquivos do Estado de Genebra, vol. 1 e 2, Genebra, Droz, 2003.

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