A penitência que vem do coração
Este salmo foi escrito pelo rei Davi em momentos de profunda tristeza e é conhecido como o salmo penitencial, ou seja, de lamentos e confissões. A palavra “penitência” é empregada no sentido de súplica, de arrependimento que não envolve um ritual ou reza como uma obrigação religiosa. Neste tipo de penitência, o “ritual” é um coração contrito e desejoso pelo perdão e presença de Deus, que são atos suficientes e verdadeiros que o agrada.
Dentro do livro de Salmos, sete deles são considerados penitenciais: Salmos 6, 32, 38, 51, 102, 130 e 143. Desses, cinco são de autoria do rei Davi (Sl 6, 32, 38, 51, 143), os dois restantes (Sl 102 e 130) a autoria não é conhecida.
Segundo Schokel, as fases que caracterizam o Salmo 38 são: a admissão do pecado, a doença sofrida e sentida como castigo de Deus, os efeitos sociais em relação aos amigos e inimigos, a confissão do pecado e a súplica por auxílio.
O pecado
“As minhas culpas me afogam; são como um fardo pesado e insuportável”.
v. 4
Pecado é tudo o que não condiz com o caráter de Deus. Como a glória de Deus é a manifestação do seu caráter, o pecado é o carecimento do homem em relação ao caráter de divino (Rm 3.23). O rei Davi, logo nos primeiros versículos, assume que pecou e pede a Deus para que não o repreenda quando estiver irado (sim, Deus se ira!). Só recebe disciplina quem comete erros.
A Bíblia não revela qual foi o pecado que rei de Israel praticou que o deixou tão conturbado e aflito. Sabemos que foi um homem de quem Deus se agradava, mas ainda assim, como todos nós, cometeu vários erros.
No momento em que pecamos, na maioria das vezes, podemos ter a sensação de que é algo bom porque o pecado tem uma aparência aprazível; é chamativo no melhor sentido da palavra. Podemos averiguar, no livro de Gênesis 3:6, qu a serpente, ao tentar Eva a comer do fruto proibido, foi levada a comê-lo primeiramente pela aparência:
“Quando a mulher viu que a árvore parecia agradável ao paladar, era atraente aos olhos e, além disso, desejável para dela se obter discernimento, tomou do seu fruto, comeu-o e o deu a seu marido, que comeu também”.
Gn 3:6
O Diabo não apresentou as terríveis consequências que a “bela” fruta traria para ela e toda a humanidade, apenas concentrou-se no desejo de Eva pelo conhecimento do bem e do mal. Mas o que veio a seguir foi o terrível pecado contra o Criador, agora sem a aparência boa e agradável aos olhos, que estava diante do casal e de seus descendentes: todo o inferno pela frente. Ai de nós se não fosse o sacrifício de Jesus!
O rei Davi comparou as culpas que o assolava ao afogamento em águas profundas, sujas e a um peso difícil de suportar: como uma pedra atada ao pescoço, que nos leva para o lugar mais fundo do mar de culpa e desespero.
Há momentos que nos sentimos assim: afogados pela culpa, mágoa e incertos a respeito do amanhã. Vagamos em lugares que não deveríamos e como resultado, não sabemos lidar com o “depois”, com o sofrimento causados por nós mesmos.
Erramos porque não corremos para a cruz e para a obra salvadora que Jesus providenciou para nós, pecadores, ao morrer pelos pecados que o primeiro casal deixou como uma herança para a humanidade. Ao sermos atraídos para Cristo, tornamo-nos herdeiros de um bem maior e melhor (na verdade, não há comparação) que o Diabo ofereceu há muito tempo: a remissão dos pecados.
A doença sofrida e sentida como castigo de Deus
“Por causa de tua ira todo o meu corpo está doente; não há saúde nos meus ossos por causa do meu pecado”.
v.3
“Minhas feridas cheiram mal e supuram por causa da minha insensatez” .
v.5
“Estou ardendo em febre; todo o meu corpo está doente.”
v.7
Com a entrada do pecado no mundo, toda a criação foi submetida à decadência (Rm 8:21). Ninguém está imune ao sofrimento, nem mesmo os cristãos. Um desses sofrimento pelos quais passamos são as doenças. Apesar do desenvolvimento da medicina, que encontrou centenas de curas para algumas delas, existem outras centenas que nos causam sofrimento e dor.
É errôneo afirmar que as doenças, que por vezes somos acometidos, é o resultado direto de algum pecado como muitos gostam de afirmar. No entanto, no caso de Davi, como ele mesmo afirma nestes versículos, é demonstrado que o salmista sofre de alguma doença física e atribui à enfermidade como uma consequência do pecado e as reconhece como sendo justas.
O pecado de Davi gerou enfermidades físicas e emocionais, quando isso acontece conosco devemos receber de forma dignificante: “Pois o Senhor disciplina a quem ama, e castiga todo aquele a quem aceita como filho” (Hb 12.6). A razão para ele corrigir seus filhos, é e sempre será o amor: “O que não faz uso da vara odeia seu filho, mas o que o ama, desde cedo o castiga” (Pv 13:24).
A somatização (sintomas físicos os quais a medicina não explica a origem e nem constituem um quadro clínico específico, mas seriam de origem emocional, é quando uma doença vem da emoção) fez com que ele sentisse depressão, feridas que cheiram mal, febre e inquietação.
Davi recorre a Deus para que o livre das dores físicas, mas é visível, pela súplica do salmista, que as dores que sentia no coração superava qualquer dor no corpo. As dores que sentia na alma eram profundas e refletia na forma física. Em meio ao sofrimento, o rei de Israel clama pela ajuda do Rei dos reis, porque sabe que o único que poderia livrá-lo da morte que o cercava.
Os efeitos sociais em relação aos amigos e inimigos
“Meus amigos e companheiros me evitam por causa da doença que me aflige; ficam longe de mim os meus vizinhos.”
v.11
“Os que desejam matar-me preparam armadilhas, os que me querem prejudicar anunciam a minha ruína; passam o dia planejando traição.”
v.12
Como se não bastasse as dores físicas e emocionais, ele sofria também pelo afastamento dos amigos e pela aproximação de seus inimigos. O texto declara que os amigos e vizinhos de Davi abandaram-no quando mais precisava por causa da doença que sofria.
Mas Davi não foi desamparado por Deus, e sabia disso. Seja no meio da doença que nos deteriora, na angústia que não contamos para ninguém, no pecado que tenta nos aprisionar, no choro contido ou derramado; em meio as lágrimas que não puderam ser secadas por alguém, na tristeza que insiste em permanecer ou na solidão que você pensa que ninguém enxerga. Nada disso pode assustar a Deus ou surpreendê-lo.
Na verdade, o surpreendido pode ser você (Deus faz isso sempre!). Talvez tenha sido providência do próprio Deus para que Davi reconhecesse que quem poderia ajudá-lo era apenas o Senhor. Talvez seja a providência do próprio Deus para que reconheçamos que quem pode nos ajudar é apenas o Senhor.
A confissão do pecado
“Confesso a minha culpa; em angústia estou por causa do meu pecado.”
v.18
Qual seria a sua reação, se devido a um pecado ficasse adoentado, se os poucos amigos que ainda estivessem do seu lado começassem a acusá-lo injustamente e os seus inimigos prometessem matá-lo e, além de tudo, sofrer por ter magoado o coração de Deus devido aos seus erros? Diante de tudo isso, Davi decidiu confessar o pecado que tanto o agoniava.
E devemos agir do mesmo modo.
De acordo com o dicionário bíblico, a confissão de pecado significa fazer uma admissão de uma mudança de posição. A confissão de pecado é feita a Deus (SI 32,3-6; 1 Jo 1.9), àquele que sofreu o dano (Lc 17,4), a um conselheiro espiritual (2 Sm 12.13) ou à congregação de crentes (1 Co 5.3).
O começo da restauração começa com o reconhecimento da culpa, que errou. Negar o pecado ou inventar justificativas não ajuda, apenas retarda a aniquilação do erro que o Senhor, através do sangue de Jesus, proporciona.
Ao confessarmos, devemos fazê-lo de todo o coração e reconhecer a nossa miséria, que somos pecadores por natureza e que precisamos de Deus, é o caminho para a restauração da comunhão.
A súplica por ajuda
“Senhor, não me abandones! Não fiques longe de mim, ó meu Deus!
Apressa-te a ajudar-me, Senhor, meu Salvador!”
v.21,22
Ao pedirmos ajuda ao Deus dos céus, reconhecemos que ele é poderoso para transformar qualquer situação. Confiamos na sua onipotência e na sua forte mão; se ele sustenta todo o universo, pode também nos sustentar em nossas angústias mais profundas.
Muitas vezes buscamos o auxílio que tanto precisamos em fontes erradas e duvidosas. Não que seja errado buscar ajuda com pessoas que confiamos, mas a nossa primeira opção tem que ser o Senhor. Ele não pode ser o último recurso, mas a nossa fonte inesgotável de conforto e sabedoria. Não substitua Deus.
Quando se sentir enfermo, fraco, envergonhado, hesitante, procure a Deus. Não há lágrima que ele não possa enxugar, caminhos que ele não possa criar, não há portas que não possa fechar ou abrir, dores que não possa curar, seja espiritualmente ou fisicamente; não há pecado tão grande que não possa perdoar e feridas que ele não possa cicatrizar.
Não se desespere, mas confie.
Aplicação pessoal:
Como esta reflexão do Salmo 38 pode te ajudar?
Tenho algum pecado para confessar?
Algum erro que preciso evitar?
Tenho recebido a disciplina do Senhor com humildade?
O que posso aprender com Davi?
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Referências
ALONSO SCHÖKEL, Luís; CARNITI, Cecília. Salmos I (1-72), p. 548.
Dicionário Bíblico Wycliffe. Rio de Janeiro: CPAD, 2006. ______. Teologia do Antigo Testamento,vol. 2. São Paulo: Aste, p.1485.

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