“QUEM É QUE ME TOCOU?”

O toque que gerou salvação

Texto base: Lucas 8:43-47

Introdução

A história da cura milagrosa da mulher do fluxo de sangue está registrada nos Evangelhos Sinóticos (Mateus 9:20-22; Marcos 5:25-34; Lucas 8:43-48). Ela tocou nas vestes de Jesus com a intenção de ser curada e pensou que o faria sem que ele percebesse. O que não sabia é da impossibilidade de esconder-se do olhar atencioso e reconfortante de Cristo.

A Bíblia não revela seu nome, o estado civil e se tinha filhos. O que sabemos é que era moradora da cidade de Cafarnaum e que antes de se encontrar com Jesus sofria, por doze anos, de uma hemorragia intensa.

As implicações físicas da doença

Hemorragia é o extravasamento do sangue para fora dos vasos sanguíneos. No caso da mulher descrita por Lucas, compreende-se que ela padecia do que é conhecido na medicina como sangramento uterino anormal (SUA). O período menstrual dura cerca de quatro dias, mas nesse caso, ela sangrava por doze anos.

Manoel Moreira menciona como possíveis causas para a ocorrência da hemorragia uterina: processos fibróticos traumáticos, miomas, pólipos que de forma mecânica interferem na reepitelização endometrial.[1] A SUA é uma doença ginecológica, pois segundo a fisiologia, o útero passa por alterações diárias, trocando o tecido epitelial, sob ação hormonal, no qual encontramos as fases de estrogênios e progesterona.

Ao sangrar por 12 anos, deduz-se que a mulher não era tão jovem, assim, sendo adulta, além de perder sangue poderia apresentar muita dor. Estava na cidade de Galileia a procura de algum médico para ajudá-la, já havia gastado todo o dinheiro que possuía com esse propósito, porém, sem resultado.

Alguns questionam se doença da mulher pode ter sido cíclica. De acordo com os relatos presentes nos três Evangelhos, fica claro que a hemorragia uterina que ela padecia não era cíclica, pois persistiu por doze anos tendo início antes do ministério de Jesus de forma ininterrupta.

Devido à medicina rudimentar da época, não foi possível detectar a causa, portanto, a cura, humanamente falando, era praticamente inalcançável.

Ela se encontrava enferma e precisava de algo que trouxesse alívio para o seu corpo já tão cansado não somente pela doença, mas pela procura constante de médicos que nada podiam fazer por ela. Além de todo o problema gerado pela enfermidade, o Evangelho de Marcos menciona o empobrecimento da mulher: ela gastou todos os seus haveres com médicos e, provavelmente, possíveis curandeiros na tentativa de se livrar da enfermidade, todavia, sem sucesso (Mc 5.26).

As implicações sociais e religiosas da doença

Em razão dessa enfermidade, a mulher enfrentou uma série de privações religiosas e sociais. É preciso compreender que essa era uma situação embaraçosa que enfrentava: de acordo com a Lei Mosaica, era inapropriado que ficasse em evidência pública (Lv 15.25-27). Além disso, sabia que sua doença a tornava impura e não podia tocar em alguém ou em qualquer objeto. Até mesmo a ida ao templo estava proibida.

Ela foi obrigada a viver à margem da sociedade judaica, pois se tudo o que tocava ficava impuro, com as pessoas ao seu redor não seria diferente. A sua principal companhia era a solidão.

Segundo a Lei, a mulher que estivesse em “seus dias” ficaria impura por sete dias, ou seja, o normal é que estas observâncias referentes à Lei durassem uma semana, mas ela ficou impura por doze longos anos! (Lv 15.19).

É importante enfatizar que não se trata de uma discriminação em relação ao sexo feminino. Talvez alguns judeus tenham feito uso dessa situação para desprezar alguém de quem não gostavam, mas se tratava de uma Lei que ensinava que qualquer fluxo que saísse de uma pessoa, fosse homem ou mulher, torná-los-ia impuros diante de Deus (Levíticos 15,16-18).

Uma mulher que sangra por um ano inteiro, fisiologicamente teria anemia, desproteinização, astenia, podendo, inclusive, morrer. No caso dela, que sangrava por doze anos, o sofrimento é inimaginável.

Sem forças para suportar o insuportável, ela decidiu que buscaria a cura em um “certo nazareno” chamado Jesus. Segundo o livro de Marcos, a mulher possuía um conhecimento prévio acerca do Messias. A fama curadora de Cristo chegou aos seus ouvidos e coração e ignorando as necessidades da alma, tentou vê-lo em busca da cura física tão sonhada (Mc 5:27).

Quando o encontrou, Jesus estava em meio à multidão e seguia rumo a casa de Jairo, para curar a sua filha que se encontrava em um estado terminal. Mas ainda quando estava a caminho, a menina faleceu (Lc 8:41-44). O interessante é que Lucas faz questão de mencionar a idade dela: quase doze anos.

A mulher sofria com a dor dessa enfermidade há doze anos; Jairo estava sofrendo com a morte prematura da filha. Não importa se o seu mal, seja físico ou não, já tenha transcorrido mais tempo que esperava ou se está apenas começando. Que tenhamos em mente que o plano de Deus, assim como a sua vontade, é distinto aos nossos. O nosso dever, como fez Jairo, é confiar mesmo em meio a morte e como agiu a mulher, mesmo em meio à doença.

Devemos pensar que ela, ao adentrar aquela multidão, cometeu um crime sagrado: estava encostando em muitos ali e os deixavam igualmente impuros. Com certeza pensava que diante de uma necessidade de cura tão grande, não poderia haver legislação. A sua condição e fé estavam acima de qualquer lei. Era possuidora de uma fé inabalável e pensou em seu coração que se ao menos, de forma breve, tocasse na borda de sua roupa, a saúde seria restaurada.

A cura

Infelizmente, mesmo em meio a sua fé, houve um pouco de superstição. Ela pensava que a cura viria, de certo modo, das vestes de Jesus e não de Jesus. Assim como pensamos que o que temos veio de nossa força, merecimento e bondade; Deus, em alguns casos, é ignorado. Muitas vezes, ignoramos que tudo vem dele, até mesmo o ar que nos mantém vivos, depende unicamente de sua vontade.

Lucas especifica a parte das vestes de Jesus que foi tocada pela mulher: a “orla da veste”. As roupas dos homens judeus possuíam nas bordas “franjas”, e nelas ficava atado um cordão azul que, por sua vez, estava gravado os Mandamentos de Deus (Números 15:38,39). A palavra “borda” ou “orla” no idioma hebraico é “kanaf” que também significa “asa”: “Mas para vós, os que temeis o meu nome, nascerá o sol da justiça, e cura trará nas suas asas; e saireis e saltareis como bezerros da estrebaria” (Malaquias 4:2); “E rogavam-lhe que ao menos eles pudessem tocar a orla da sua roupa; e todos os que a tocavam ficavam curados” (Mateus 14:36).

Mesmo em meio ao seu sofrimento, angústia, dor e superstição, houve fé, coragem e determinação. Jesus iria fazer uso de sua crença errada em relação ao seu poder para lhe dar uma fé mais inteligente que o reconheceria como verdadeiramente homem e verdadeiramente Deus.

O “crime” estava feito: a mulher ignorou a lei, mas não ignorou o poderio curador de Jesus, o Cristo. Ela tocara no Mestre e imediatamente sentiu que o fluxo cessou e Jesus, por sua vez, sentiu que dele havia saído poder e no íntmo dela pôde sentir que a sua aflição havia terminado.

Os acontecimentos seguintes nos revelam verdades incontestáveis a respeito do Messias. O sentido principal do texto não é exatamente sobre essa mulher, mas sobre Jesus, pois através dela, podemos conhecer mais sobre ele.

A sua onisciência

A multidão o comprimia de tal forma que não é difícil imaginar que até para respirar era custoso. Todos ali encostavam entre si lutando por um pequeno espaço para estar junto a Jesus, o que tornava a caminhada mais complicada. Nesse tumulto todo, Cristo sentiu um toque diferente de todos os outros: suave, mas ao mesmo tempo de muita fé; um toque rápido, mas que os seus efeitos, da parte de quem o tocou, durariam por toda a vida. O toque foi nas vestes, não em alguma parte do corpo que pudesse sentir fisicamente.

Como Deus, a sua onisciência entrou em ação e de súbito parou a caminhada e perguntou quem o havia tocado (Lc 8:45). O impetuoso Pedro e outros que com ele estavam, perguntaram, com uma pontada de ironia, que em meio àquela multidão, onde todos se encostavam em todos, Jesus ainda queria saber quem o havia tocado. Era impossível.

A onisciência de Cristo nos conforta. Saber que Deus conhece plenamente todas as coisas, que até mesmo pequenas ocorrências não passam desapercebidas diante dele, é maravilhoso. Nada pode ser ocultado de sua presença e que mesmo em meio a escuridão ele enxerga a mais minúscula partícula que possa haver no universo, é alentador. A nossa dor não é ignorada por ele, mesmo que queiramos ser anônimos como a mulher que tocou em Jesus, é impossível, pois ele sabe exatamente quem somos e é seu desejo que saibamos exatamente quem ele é.

A sua santidade

A santidade de Cristo nos confronta. Através dela vemos o quão a nossa é débil. De acordo com a Lei Mosaica, uma mulher que estivesse em “seus dias”, tudo o que ela tocasse se tornaria impuro; pela lógica, era para Jesus estar impuro também. O Senhor do universo sempre contraria tudo ao seu redor, o que fazia com que muitas pessoas não o entendessem (e ainda não entendem) o seu comportamento e a sua pessoa. Os republicanos e os fariseus ficavam intrigados pelo modo de agir “do que se dizia ser o Messias”, a essa gente faltava tato espiritual.

Com Jesus, o impuro torna-se puro; o sujo torna-se limpo; ele transforma pessoas indignas do céu a serem dignas do Pai. Ele transformou a vida daquela mulher que estava fadada a viver reclusa e em ostracismo, para uma vida livre não somente de sua doença, mas também de sua culpa.

A obra salvadora do Salvador

A salvação oferecida por Jesus nos liberta. A mulher estava procurando por uma cura física e recebeu muito mais: a cura de uma alma doente pelo pecado que talvez nem ela estivesse ciente.  Somente o Príncipe da Paz é capaz de declarar: “Tem bom animo, filha, a tua fé te curou. Vai-te em paz” (Lc 8:48). É como se ele estivesse dizendo: “Você recebeu a cura para o seu corpo doente e ao ir embora, desfrute de sua cura e sua paz com Deus através de mim.”

A mulher, agora não mais a do fluxo de sangue, aprendeu que a cura do pecado é tão completa em si mesma como foi com a doença da qual era portadora.

Essa história é reveladora: em nosso sofrimento, angústia, dor e pecado, temos alguém que não ignora a nossa condição e entregou-se para que o nosso corpo, mente e coração fosse restaurado. Somente Cristo é o alívio e cura para o corpo enfermo e depravado pelo pecado.

Ele não está alheio ao que enfrentamos aqui na terra. Se for de sua vontade, podemos desfrutar de sua cura em nosso corpo físico, mas o seu principal propósito é curar, através do seu sangue, a nossa condição pecaminosa. A oportunidade está diante de nós.

Somente o Senhor dos senhores pode lidar com nossa condição tão corrompida e através de sua morte na cruz, nos restaurar por completo. O que pecamos no anonimato, Jesus os apaga a vista de todos; quando o tocamos em secreto, por medo ou vergonha, Jesus nos leva a uma confissão de nossos erros para uma relação aberta e consciente diante de sua igreja.


Referências

[1]   MOREIRA, Manoel de Almeida (Org.). Tocoginecologia para graduação, residência e especialização. Belém: Cejup, 2003. p. 54-55.

RICHARDS, Larry. Todos os milagres da Bíblia. Agnos, 2005.




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Um braço de mulher tocando na roupa de Jesus.

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