“Cheia da força de Deus, respondeu: — Sou cristã, e entre nós não se pratica mal algum. Os verdugos chegaram a revezar-se para arrancar-lhe qualquer confissão, mas foi tudo em vão. E os cristãos, admirados com tão grande força de alma numa menina e com tanta grandeza moral numa simples serva, reconheceram nela a porta-voz do próprio Mestre “para quem é grande honra aquilo que os homens têm como desprezível e que leva mais em conta o poder do amor do que as vãs aparências”. [1]
O cenário em que surge essa cristã valorosa, Blandina, (162 – 2 de junho de 177) é na cidade de Lyon [2], na França do século II. Nessa época, contendo cerca de quarenta mil habitantes e devido a sua importância econômica, esta cidade podia reivindicar o posto “de metrópole de toda a região de Gália.” [3].
Quando tudo parecia em ordem e transbordava um clima afável neste tranquilo lugar, subitamente, deu-se início a uma das perseguições mais cruéis do cristianismo: Cinquenta cristãos foram torturados e mortos sem, contudo, negar a fé em Cristo, nosso Senhor.
A perseguição iniciou-se, inexplicavelmente, devido a uma cerimônia anual que reunia grande parte da população, vindos também de regiões próximas, o “Legado das três Gálias ao redor do altar de Roma e de Augusto” [4] no famoso santuário de Lugduno para render-lhes culto. Durante a solenidade, sentiram-se ofendidos com os cristãos e começaram a procurá-los em todos os lugares: os expulsaram de seus lares, praças, trabalhos e proibiram que adentrassem em ambientes públicos.
Os cristãos perseguidos de Vienne e Lyon expuseram a forma desumana que eram tratados numa famosa carta encaminhada aos irmãos da Ásia e da Frígia: “A intensidade da opressão que aqui suportamos, a magnitude da cólera dos pagãos contra os santos e tudo o que suportaram os bem-aventurados mártires, nós não somos capazes de transmitir com exatidão, nem é possível, decerto, registrar em um escrito”. [5]
O governador foi orientado pelo imperador a obedecer à lei de Trajano [6]. Desse modo, foram levados à prisão alguns cristãos acusados de falsos crimes e seus servos também foram presos e torturados para que confirmassem essas falsas acusações:
“Foram presos também alguns pagãos, criados dos nossos, quando o governador mandou que se buscassem todos os nossos. Estes, pelas insídias de Satanás, temendo os tormentos que viam padecer os santos e forçados a isto pelos soldados, acusaram-nos falsamente de ceias canibais, de promiscuidades edípicas e de tantas outras coisas que para nós não é lícito nem dizer nem pensar, nem mesmo crer que tais coisas tenham ocorrido entre os homens.” [7]
Os cristãos primitivos não revelavam os detalhes da prática da Ceia do Senhor aos que não eram batizados, devido a isso, os pagãos intuíam que poderiam estar praticando algum ato de cunho reprobatório, pois os vizinhos e os servos ouviam falar de ter que comer da carne e beber do sangue de Cristo. Desse modo, é fácil espalhar boatos e, ainda mais sob torturas, inventarem atos que não coincidiam com a verdade.
De tempos em tempos, há sempre uma violenta perseguição contra os cristãos. Segundo o relato de Irineu, quando seus criados foram presos e torturados para que revelassem algum segredo de sua prática, não tinham nada a dizer que agradassem a seus algozes, exceto que tinham ouvido de seus mestres que a comunhão divina era o corpo e o sangue de Cristo e, imaginando que, de fato, consumiam carne e sangue humano, informaram aos inquisidores. Os torturadores assumiram, então, que o canibalismo era uma prática cristã e tal falácia acabou sendo passada adiante. [8]
Diante dessas informações, a fúria satânica acabou caindo sobre o diácono Santo, de Viena; ao recém-batizado Maturo; a Atalo, de Pérgamo, e sobre a nossa personagem, a jovem Blandina. Não se sabe praticamente nada a respeito dessa jovem cristã, mas apenas o essencial: que padeceu, com muita alegria e regozijo, em nome do Senhor Jesus.
A senhora de Blandina, que também estava presa, temia que a jovem não fosse capaz de suportar o que estava por vir, pois considerava sua serva fraca fisicamente e espiritualmente imatura. Estava totalmente enganada: ela foi torturada dia e noite, até que os guardas cansaram, tanto que trocavam de turnos para atormentar a jovem de todas as formas. Mesmo com o corpo todo dilacerado e aberto, seu espírito mostrou-se forte; uma verdadeira cristã, declarava, a todo momento, que era cristã e que não sabia de nenhum ato errado praticado por seus irmãos na fé.
Em sua fragilidade, demonstrou a sua fortaleza. Não obstante, “como generoso atleta, se rejuvenescia em sua confissão; era para ela uma renovação de suas forças, um repouso e um término dos sofrimentos suportados o dizer: ‘Sou cristã e entre nós nada há de mal’”.[9]
Os torturadores concluíram que não teriam nenhuma confissão daquela maneira, então conduziram-na, juntamente com Maturo e o diácono Santo, a um estádio para lutarem no lugar dos gladiadores e serem entregues às feras num espetáculo público. Os carnífices chicotearam com açoites de ferro os dois homens; seu sangue encharcava a arena e todos ali uivavam nas arquibancadas loucos por mais derramamento de sangue. Foram ambos lançados às feras e obrigados a lutar contra elas em prol de um divertimento barato. Após a esse entretenimento, colocaram-nos sobre cadeiras de ferro em brasa: para o público era um odor de diversão, para Deus, um cheiro suave. Por fim, os mataram.
Para Blandina estava reservado algo tão cruel quanto: foi pendurada num madeiro e exposta às feras. “O vê-la assim atada em forma de cruz e ouvi-la rezar em alta voz dava aos atletas uma grande coragem: nesse combate, com os olhos corporais lhes parecia ver, em sua irmã, Aquele que foi crucificado por eles”. [10]
Ao vê-la assim, muitos cristãos que não havia tido a mesma força e fé e que se arrependiam de terem negado a Cristo, eram fortificados a proclamarem o nome de Jesus e entregavam suas vidas a ele.
Como as feras não a tocavam, Blandina foi levada de volta para a cela a espera pelo privilégio de morrer por seu Senhor. Átalo, que era um renomado romano, foi também levado ao calabouço enquanto o governador aguardava uma resposta do imperador do que fazer em relação a ele.
Em meio a uma festividade local, o governador levou os cristãos, outra vez, ao tribunal para proporcionar um espetáculo à multidão. Os cidadãos romanos que não renegavam a fé eram decapitados; os demais, levados às feras.
Eusébio nos traz um relato triste e lindo ao mesmo tempo:
“Cristo foi grandemente glorificado naqueles que primeiramente haviam renegado e que agora, contra o que poderiam esperar os pagãos, confessavam sua fé. Estes, na verdade, eram interrogados privadamente, como para serem em seguida postos em liberdade, mas ao confessar sua fé foram sendo juntados à fila dos mártires.” [11]
Por decisão do governador, Atalo, mesmo sendo um cidadão romano, foi levado novamente à arena. Logo após foi posto em uma cadeira de ferro quente e quando começou a queimá-lo, falou à multidão: “Estais vendo! Isto é comer homens, o que estais fazendo. Nós, por outro lado, nem comemos homens, nem fazemos nada de mau”.[12]
Para a preciosa Blandina, o dia de morrer por seu Salvador chegou: levaram-na, juntamente com Pôntico, um rapaz de apenas quinze anos, para uma última chance de jurar pelos ídolos romanos, mas permaneceram firmes e até menosprezaram tais deuses. Foram submetidos a todo tipo de tortura para negarem a fé, mas foi em vão. Blandina ainda teve forças para confortar o rapaz, que veio a morrer primeiro.
Após mais açoites, os algozes a envolveram numa rede elevada acima do solo, expondo-a à fúria de um touro, que a lançava ao ar. “Permanecia a Bem-aventurada Blandina, a última de todos, como uma nobre mãe que acabava de exortar seus filhos e os enviar vitoriosos ao Rei; por sua vez, ela atravessa de novo toda a série de suas batalhas e corre para junto deles, plena de gozo e alegria nesta partida”:[13] Depois de tantos tormentos, por fim foi decapitada e desse modo terrível foi levada ao Senhor, o amor de sua vida.
Deus não age como o esperado e escolhe os mais “fracos e improváveis” como modelos de fortaleza. Blandina e seus companheiros cristãos morreram por causa da fé. Mas como Tertuliano, o pai da Igreja, declarou: “O sangue dos mártires é a semente da Igreja”.
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Notas
[1] Rops, Daniel. A igreja dos apóstolos e dos mártires, p. 178 (Citação de Eusébio de Cesária, História eclesiástica, 5, I.17).
[2] Lyon, Lião ou Lion é a terceira maior cidade da França. Está localizada na parte central do leste do país na confluência dos rios Ródano e Saône, a cerca de 470 km ao sul de Paris, 320 km ao norte de Marselha e 55 km a leste de Saint-Étienne. Os habitantes da cidade são chamados de lioneses, em francês Lyonnais.
[3] RICHARD, François; PELLETIER, André. Lyon et les origines du Christianisme en Occident. Lyon: Éditions Lyonnaises d’Art et d’Histoire, 2011, p.35.
[4] RIBER, Lorenzo. Santos Mártires de Lyón. In: ECHEVERRÍA, Lamberto de; LLORCA, SJ, Bernardino; REPETTO BETES, José Luis (Org.). Año Cristiano. Madrid: BAC, 2004, v.VI, p.47.
[5] Os longos trechos desta carta foram recolhidos por Eusébio de Cesareia em sua História Eclesiástica e são a única fonte primária de que se dispõe sobre o assunto. É, portanto, neste famoso historiador cristão que nos basearemos para a narração dos fatos deste artigo.
[6] Trajano, entre 98 e 117 d.C., considerou os cristãos ateus. Decretou que os cristãos não deveriam ser perseguidos, mas se fossem denunciados seriam condenados à prisão ou à morte: um mártir muito conhecido desta época foi Inácio, Bispo da Antioquia. A legislação de Trajano não foi agravada pelos imperadores que o seguiram até o ano 180 d.C., quando Marcos Aurélio foi o imperador; ele era tolerante, mas em relação aos cristãos foi um dos mais cruéis nas perseguições. No final do século II, o Império estava ameaçado pelas invasões e foi convocado um culto Imperial aos deuses romanos e os cristãos recusaram-se a fazer tal culto.
[7] Eusébio de Cesareia. História eclesiástica, livro 5, I.14, p. 153.
[8] Roberts, Alexander; Donaldson, James (Ed.). The Ante-Nicene Fathers: Translations of the Writings of the Fathers Down to a.D. 325. New York: Charles Scribner’s sons, 1903, apud: Aquilina, Mike; Bailey, Christopher. Mothers of the Church, p. 68-69.
[9] Rops, Daniel. A igreja dos apóstolos e dos mártires, p. 178 (Citação de Eusébio de Cesária, História eclesiástica, 5, I.17).
[10] Eusébio de Cesaréia. História Eclesiástica. L.V, c.1, n.4.
[11] Eusébio de Cesareia. História eclesiástica, 5, I.52, p. 159.
[12] Eusébio de Cesareia. História eclesiástica, 5, I.52, p. 159.
[13] Eusébio de Cesareia. História eclesiástica, 5, I.52, p. 159.

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