Foi martirizada ainda muito jovem, mas seus atos ficaram para a eternidade
“Se a justiça foi feita com meu corpo, minha alma encontrará a misericórdia em Deus. A morte trará dor ao meu corpo pelos seus pecados, mas a alma será justificada perante Deus. Se as minhas falhas merecem punição, pelo menos minha juventude e imprudência foram dignas de perdão; Deus e a posteridade me mostrarão favor.”[1]
Essas fortes e sábias palavras foram ditas por uma jovem que havia reinado na Inglaterra por um período curto de nove dias (ficou conhecida como “A Rainha dos Nove Dias). Estamos falando de Jane Grey (c.1536/1537-1554), que nasceu em Leicestershire, na Inglaterra. Seus pais foram os duques de Suffolk, Henry Grey e Frances, a filha de Maria Tudor, irmã de Henrique Vlll. Portanto, Jane era sobrinha-neta de Henrique VIII, prima de Eduardo VI e a quarta na linha de sucessão ao trono inglês.
Infelizmente, graças à imensa ambição dos pais e de jogos políticos arquitetados por alguns no palácio, em uma busca incessante pelo poder, os pais de Jane desejavam que a filha obtivesse a coroa de forma rápida e precisa. Esperar por algum acontecimento trágico que impedisse que os filhos do rei chegassem ao trono era angustiante; assim, eles mesmos providenciaram a tragédia.
Os duques de Suffolk estavam visando um casamento por conveniência com o rei Eduardo VI. Para que o plano se consolidasse, fez com que a jovem estudasse idiomas como o latim, francês, grego e italiano. Naquela época, tinha-se o costume de que os filhos passassem um tempo na casa de famílias que possuíam um status elevado, com o objetivo de uma educação mais apropriada. Assim, os moços obtinham uma melhor posição social e as moças, um bom casamento. Para que o futuro de Jane fosse em um palácio, deixaram-na com a rainha Catarina Parr [2], aos nove anos de idade.
Enquanto os pais de Jane Grey desejavam a tutela real para a concretização de um casamento vantajoso para, Deus tinha algo maior para ela ali: Catarina Parr era uma cristã piedosa e foi um exemplo para essa jovem que passou a amar a Deus de todo o coração e se converteu à fé protestante.
Ao completar dois anos vivendo com a rainha e após a morte de Henrique VIII, Jane voltou para a casa dos pais. Infelizmente, passou a ser vista por eles como um verdadeiro fracasso, pois os “esforços” para torná-la rainha foram em vão e a indiferença para com a filha, na visão dos duques, era no mínimo, merecida. Mas ela encontrou consolo nas Escrituras Sagradas e acredito que o versículo “Ainda que o meu pai e a minha mãe me abandonem, o SENHOR cuidará de mim” (Salmos 27:10) foi vivenciado com muita alegria.
Para completar o desastre do projeto falido dos pais, o jovem rei Eduardo VI contraiu sarampo e tuberculose fazendo com que a sua vida fosse abreviada. O primeiro-ministro, John Dudley, já estava prevendo que o jovem rei não iria viver por muito tempo; então a sua mente começou a “trabalhar” para que pudesse beneficiar-se com essa situação e a jovem Jane Grey estava em seus planos.
Embora a próxima na linha de sucessão ao reinado fosse a irmã de Eduardo VI, a católica Maria Tudor. Para John Dudley não seria algo vantajoso, pois temia que ao ser coroada rainha, poderia impor o catolicismo como a religião oficial do império britânico e ele sofreria por apoiar os protestantes; Jane era a opção mais viável, pois professavam a mesma fé.
Para que o plano se concretizasse, ele convenceu os pais de Jane, que por certo não foi difícil, para que se casasse com o seu filho Guildford. A jovem recusou a proposta matrimonial, mas seus pais surraram-na fortemente, amaldiçoaram-na e insultaram-na tanto, que por fim, acabou cedendo. No dia 25 de maio de 1553, Jane e Guildford casaram-se.
John Dudley fez com que o pai e a mãe de Jane a obrigassem a se casar com seu filho Guildford. Guildford Dudley é geralmente descrito como uma pessoa fraca, um tipo de jovem ingênuo, influenciável e desengonçado […]. Ninguém realmente sabe o suficiente sobre Guildford para dizer. De qualquer forma, Jane foi forçada a se casar com ele. [3]
Antes do falecimento do rei Eduardo VI, John Dudley convenceu-o a mudar o testamento do pai para que inviabilizasse as suas duas meias-irmãs, Maria e Elisabeth, de herdar o trono britânico e declarar apenas Jane Grey como sucessora. Algumas semanas após o matrimônio, Eduardo VI faleceu e os planos do primeiro-ministro concretizaram-se.
Jane foi informada da morte do primo somente três dias após ocorrido, quando soube ficou profundamente triste e chegou a desmaiar quando lhe informaram que seria proclamada a nova rainha da Inglaterra. A posição foi recusada até que mostraram a mudança do testamento por parte do primo e de ser acusada de agir indevidamente consigo mesma e com a família. As manipulações simplesmente não cessavam.
O reinado de Jane Grey durou apenas nove dias: 10 de julho de 1553 – 19 de julho de 1553. Seu marido lhe pediu que o fizesse rei, com a intenção de garantir aos pais manipuladores a posição política que almejavam, mas a jovem rainha recusou o pedido.
Era de se esperar que a princesa Mary, a irmã do falecido rei (que mais tarde ficaria conhecida entre os protestantes como “Maria, a sanguinária”, em virtude do grande número de protestantes que ela executou), ao saber da coroação de sua prima, iria lutar a todo custo pelo trono. Tinha como vantagem o apoio da maioria dos políticos que não enxergava com bons olhos essa disputa.
Assim, ela seguiu para Londres acompanhada por uma tropa de soldados dispostos a lutar por ela. Com grande apoio, foi fácil proclamá-la a nova rainha da Inglaterra e quanto a Jane, sentiu-se aliviada por ser deposta e estava contente em poder voltar para a casa; mas a rainha Mary I tinha outros planos para ela: enviou-a à uma prisão na outra parte da Torre de Londres, prendendo também seu marido, Guildford, seu sogro, John Dudley e alguns outros acusados de traição.
Pai, embora tenha agradado a Deus acelerar minha morte através de ti, por quem minha vida deveria ter sido prolongada, ainda assim posso suportá-la com muita paciência. Minha sincera gratidão a Deus é maior por encurtar meus dias tristes, mais do que se possuísse todos os reinos do mundo, com toda uma vida longa ao meu dispor. […] E assim, bom, pai, confesso-te meu atual estado, cuja morte está próxima, embora isso talvez possa te parecer bem lamentável, para mim não há nada que possa ser mais bem-vindo do que deste vale de miséria aspirar aquele trono celestial cheio de alegria e prazer com Cristo nosso Salvador. Em cuja fé inabalável, se for lícito à filha assim dizer ao pai, ela o admoesta a não apostatar do Senhor que até agora te fortaleceu, e continues assim para que por fim possamos nos encontrar no céu com o Pai, o Filho e o Espírito Santo (Última carta de Jane ao seu pai). [4]
John Dudley se retratou a fim de conseguir o perdão de Mary I, mas foi decapitado no mês seguinte. O julgamento de Jane e de seu marido ocorreram no dia 13 de novembro, ambos foram julgados culpados e sentenciados à morte. O pai de Jane tentou uma rebelião para que Mary I não se casasse com o rei da Espanha, mas foi um total fracasso e veio a ser executado.
Mary I, muito preocupada em “salvar” Jane de suas crenças, das quais julgava ser uma heresia, mandou um de seus capelães mais capacitados teologicamente, John Feckenham, para convencê-la a voltar para o catolicismo. Ele, acostumado a debater de forma fervorosa com muitos teólogos protestantes, julgava Jane muito jovem e ignorante referente a sã doutrina e acreditava que seria fácil convencê-la. Como estava enganado!
A ex-rainha registrou a conversa logo após o capelão se retirar, eis um dos pontos que discutiram:
Feckenham: Não há nada mais necessário em um cristão além de crer em Deus?
Jane: Sim, devemos crer nele e amá-lo de todo o coração, de toda a nossa alma e de todo o nosso entendimento, e ao nosso próximo como a nós mesmos.
Feckenham Por que, então, a fé não justifica nem salva?
Jane: De fato, somente a fé (como São Paulo afirma) justifica. […].
Feckenham: Por que, então, é necessário fazer boas obras para a salvação e crer apenas não é suficiente?
Jane: Isso eu nego e afirmo que somente a fé salva. Mas é apropriado para os cristãos, como sinal de que eles seguem seu mestre, Cristo, fazer boas obras, mas, apesar disso, não podemos dizer que elas tenham proveito para a salvação. Pois, embora todos nós façamos tudo o que podemos, ainda assim somos servos inúteis, e somente a fé no sangue de Cristo salva.[5]
Feckenham também a questionou sobre a ceia, afirmando que os elementos eram o próprio corpo e sangue de Cristo e que as palavras do mestre confirmavam isso. Perguntou também, se Cristo, com seu poder, não poderia fazer esse milagre, assim como fez outros. Jane respondeu:
Sim, de fato, se Deus desejasse fazer um milagre em sua ceia, poderia ter feito, mas afirmo que ele não tinha em mente qualquer obra ou milagre além de partir seu corpo e derramar seu sangue na cruz pelos nossos pecados. Mas peço que você me responda a esta única pergunta: Onde estava Cristo quando disse: “Tomai, comei, isto é o meu corpo”? Ele não estava à mesa quando disse isso? Ele estava vivo naquele momento, e só no dia seguinte começou o sofrimento. Bem, o que ele tomou a não ser o pão? E o que ele partiu a não ser pão? E o que ele deu além de pão? Veja, o que ele tomou, e ele partiu; e veja, o que ele partiu, ele deu; e veja, o que ele deu, foi isso que eles realmente comeram; no entanto, tudo isso enquanto ele mesmo estava na ceia perante os seus discípulos; se não foi assim, eles foram enganados.[6]
Depois de mais algumas perguntas, o experiente Feckenham não conseguiu rebater os argumentos bem aprofundados de Jane. Pelo contrário, suas respostas articuladas mostravam sua fé e convicção nas Escrituras. Vencido, encerrou a conversa e, ao se despedir, de forma pesarosa, disse: “Tenho certeza de que nunca mais nos encontraremos”. Jane, por sua vez, respondeu: É verdade que nunca nos encontraremos, a não ser que Deus transforme seu coração; pois estou certa de que, a menos que você se arrependa e se volte para Deus, você está em uma má situação”.[7]
Na véspera de sua morte, escreveu uma última carta ao pai e a irmã: “A se aproximar a minha morte, alegre-se como eu, boa irmã, que eu seja liberta desta corrupção e levada à incorrupção. Pois estou certa de que, ao perder uma vida mortal, ganharei a vida que é imortal”.[8]
Feckenham, que ficou de tal forma impressionado com os argumentos de Jane, estava ao seu lado no dia da execução, assim como outros capelães. Foi de seu desejo dirigir a eles algumas palavras:
“Boas pessoas, eu cheguei até aqui para morrer, e pela lei, sou condenada para tal. O fato contra a realeza foi ilegítimo, bem como o seu consenso por mim. Mas, no tocante à busca e desejo deste por mim, de minha parte, eu lavo as minhas mãos em inocência perante Deus, e perante a face de cada um de vós, bons cristãos, neste dia.”[9]
E continuou:
“Eu oro para que todos vós, bons cristãos, sejam testemunhas de que eu morro como uma verdadeira mulher cristã, e que eu busco ser salva por nenhum outro meio, senão unicamente pela graça de Deus, no sangue do seu único Filho Jesus Cristo: e eu confesso que, mesmo tendo conhecimento da Palavra de Deus, muitas vezes eu a negligenciei, busquei a mim mesma e ao mundo; e portanto, esta praga e julgamento estão, feliz e dignamente, ocorrendo a mim por causa dos meus pecados. Contudo eu ainda agradeço a Deus que, pela Sua bondade, tem me concedido tempo e oportunidade para me arrepender. E agora, boas pessoas, enquanto eu ainda vivo, eu peço que me assistam com suas orações.”
Logo após perguntou ao capelão se permitia recitar o Salmo 51, ele consentiu. Jane se ajoelhou e recitou em inglês para que todos ali entendessem, e Feckenham repetiu em latim. Ao terminar, ela lhe falou: “Rogo a Deus que ele lhe recompense abundantemente por sua bondade em meu favor”[10]. Comovido e sem ter o que responder, ele começou a chorar. Ao perceber sua angústia, ela lhe deu um beijo no rosto e segurou sua mão. Por um instante, o capelão católico e a ex-rainha protestante permaneceram de mãos dadas.
A sua execução foi tão comovente que até o carrasco lhe pediu perdão. Ajoelhada e de olhos vendados, Jane não conseguia achar o cepo. Agoniada, perguntou, já bastante fraca, onde devia se posicionar. Um momento depois, o Barão de Chandos, tenente da Torre de Londres, responsável pelos prisioneiros, ajudou a colocar o pescoço sobre o tronco de execução.
Antes de morrer, ela falou suas últimas palavras: “Senhor, em tuas mãos entrego o meu espírito.” Essa jovem de apenas 16 anos nos ensina algumas preciosas lições:
Pode ser que as pessoas que mais amamos, até mesmos os nossos pais, nos abandone, mas Deus, em seu infinito amor, nos acolhe e demonstra que o amor dele excede a tudo e a todos; se estudarmos as Escrituras diligentemente, estaremos prontos para qualquer situação; até mesmo a morrer pelo verdadeiro Evangelho e a nos mantermos fieis mesmo diante daquela que um dia julgou que seria o nosso fim: a morte.
Notas
[1] HAYKIN, Michael A. G., op. cit., p. 44 – 46.
[2] Catarina Parr (Londres, 1512 – Winchcombe, 5 de setembro de 1548) foi a sexta e última esposa do rei Henrique VIII e Rainha Consorte do Reino da Inglaterra e Reino da Irlanda de 1543 até 1548.
[3] ZAHL, Paul F. Five women of the English Reformation. Mchigan: Gran Rapids, 2003, p.62.
[4] BAINTON, Roland H., op. cit., p. 31.
[5] HAYKIN, Michel A. G., op. cit., p. 31.
[6] HAYKIN, Michel A. G., op. cit., p. 38-39.
[7] ABREU, Maria Zina Gonçalves de, op. cit., p. 295.
[8] HAYKIN, Michel A. G., op. cit., p. 43-44
[9] Disponível em: https://macasdeouroblog.com/blog/2017/11/03/mulheres-da-reforma-protestante-lady-jane-grey/ . Acesso em 28 de set. de 2023.
[10] HAYKIN, Michael A. G., op. cit., p. 46
Bibliografia
SALVIANO, Rute; PINHEIRO, Jaquelone. Reformadoras: Mulheres que influenciaram a reforma e ajudaram a mudar a igreja e o mundo / 1. ed. Rio de Janeiro: GodBooks; Thomas Nelson Brasil, 2021.

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