VIDA DE ANNA REINHARD – ESPOSA DE ULRICH ZWÍNGLIO

A confiança que suavizou

Pouco sabemos a respeito da infância e adolescência de Anna Reinhardt (Suíça: 1484-1538) antes de se tornar esposa do reformador Zwingli.[1] Apesar das escassas informações sobre alguns aspectos de sua vida, ao casar-se com este homem de Deus, temos respaldo suficiente para sabermos que ela era uma cristã verdadeira, obediente, gentil, trabalhadora e muito bonita.

Anna não fazia parte da nobreza suíça, mas seu pai era proprietário de algumas terras. Um dia, um jovem chamado John Meyer Von Knonau, pertencente a uma tradicional família da região, apaixonou-se por Anna e devido a desaprovação familiar (que já havia “arranjado” um casamento para ele), casaram-se em segredo no ano de 1504, no distrito de Zurique. Quando os pais do jovem souberam, deserdaram-no.

Apesar do início conturbado, Knonau, em 1511, foi eleito para o cargo do conselho da cidade e posteriormente tornou-se oficial do exército suíço, no qual lutou na guerra contra a França. Mesmo obtendo vitórias, voltou para casa com a saúde debilitada e veio a falecer em 1517, deixando Anna e três filhos: duas meninas e um menino.

A situação dela era muito difícil: além de perder o marido de forma prematura, estava constantemente preocupada com a vida dos filhos devido à péssima situação econômica. Mas um dia, o avô paterno viu o menino, que se chamava Gerold, desconhecendo o parentesco, apaixonou-se por ele e, quando soube que era seu neto, encheu-o de cuidados. Anna sentiu um certo alívio.

Mesmo após a morte do avô, quando tinha nove anos de idade, continuou sendo cuidado pela avó. Mais adiante, Gerold seria o elo que conectaria Anna ao reformador, o que não demorou a acontecer.

Em 1519, Ulrich Zwínglio foi transferido para atuar como sacerdote em Zurique, onde, em suas pregações, criticou com obstinação as indulgências católicas e declarava, inspirado em Lutero, que a Bíblia é o “evangelho puro”. A casa de Anna fazia parte da paróquia em que ele pregava e logo tornou-se uma de suas fiéis ouvintes; a beleza e a modéstia cristã da viúva não passaram despercebidas por Zwínglio, assim como as dificuldades que enfrentava para sustentar a família com os parcos recursos de que dispunha.

As virtudes batalhadoras logo chamaram a sua atenção, como também seu pequeno e inteligente filho, Gerold. Ao constatar da tamanha inteligência do menino, logo começou a ensinar-lhe grego e latim e quando percebeu o rápido aprendizado do aluno, enviou-o, com apenas onze anos, para Basileia, o centro literário da Suíça. Zwínglio praticamente adotou Gerold; ele era tão inteligente que o seu tutor escreveu para ele: “Se você tiver outros meninos como este, por favor, envie-os a mim. Eu serei um pai para eles, e eles serão meus filhos”.

Quando o jovem viajou, em 1523, para a região de Baden, Zwínglio presenteou-o com algo maravilhoso: escreveu um livro intitulado Conselhos para a Educação de um Jovem Nobre.[2] Não devemos duvidar da importância do discipulado para com as pessoas que Deus nos confia. Ensinar o Caminho de acordo com as Escrituras é plantar no Reino de Deus, o que gera frutos inimagináveis. James I. Good diz que

O jovem deu início a uma nova vida e nunca trouxe desgraça – somente honra – à sua família e amigos. Ele veio a ser um dos mais brilhantes e promissores jovens de Zurique. Tornou-se membro do conselho da cidade com apenas dezoito anos de idade, e presidente desse conselho aos vinte e um! Apesar de jovem, foi elevado muito rapidamente às posições mais destacadas na cidade.[3]

Os cuidados tão amorosos com o rapaz fizeram com que Anna se aproximasse ainda mais de Zwínglio, culminando em um amor que duraria até a morte. Em 1522 casaram-se, mas não sem causar um alvoroço em Zurique e em sua cidade natal, Toggenbrg. Todo esse escândalo é devido à tradição de que os párocos não deveriam contrair matrimônio, pois ele ainda era considerado um padre. Após a cerimônia renunciou o sacerdócio.

Os católicos e alguns anabatistas acusaram o reformador de casar-se com Anna somente pela beleza e pelo dinheiro; ele defendeu-se dizendo que ela não possuía mais do que 400 florins (quantia insignificante na época), algumas joias e vestimentas. Conta-se, que depois do casamento, ela não fazia questão de usar “nem vestimentas de seda nem anéis” e passou a se vestir como “as esposas de simples artesãos”.

Zwínglio se referia a Anna como sua “amada assistente” e realmente ela honrava esse título, pois quando ele, juntamente com outros ministros de Zurique, começou a traduzir a Bíblia (1525) ela se empenhava com outros deveres: cuidava da residência paroquial, que recebia muitas visitas, inclusive de refugiados que eram perseguidos pela igreja católica; alimentava os pobres, os doentes e não se esquecia das viúvas, pois já sentiu, na pele, a situação amarga da viuvez. Agia com tanto cuidado com os que necessitavam de auxílio que chegou a ser comparada à Dorcas, uma serva fiel dos tempos dos apóstolos.

É claro que toda essa dedicação era maior quando se tratava do marido e dos filhos que o casal concebeu. Ela animava-o em momentos de tristeza e sofrimento. Quando estava traduzindo a Bíblia para a sua língua materna, Zwínglio tinha o costume de ler os rascunhos que traduzira durante o dia para Anna antes de dormirem. Ela lutou e incentivou para que todos da igreja em que o marido pastoreava obtivessem a cópia traduzida para que fizesse parte de suas vidas.

Anna amava ouvir Zwínglio em suas pregações, ainda mais quando um novo aspecto acerca do caráter de Cristo era revelado. Por conseguinte, a sua vida não estava apartada de uma atmosfera religiosa, pois era esse o seu maior deleite!

A vida em família não foi somente flores devido às constantes perseguições. Como já ficara sem marido uma vez, temia pela vida do reformador, pois as ameaças eram constantes. Ela sentia uma forte preocupação com o esposo e sempre o aconselhava a não sair sozinho, principalmente à noite, bem como a tomar cuidado com o que comia e bebia quando não estava em casa, pois temia envenenamentos. Anna, ao pressentir qualquer perigo a rodeá-lo, pedia ajuda aos irmãos para que o acompanhassem nas reuniões.

Com todos esses cuidados, muitas tentativas contra a vida de Zwínglio foram frustradas. Em uma noite, em 28 de agosto de 1525, a casa em que moravam foi apedrejada por dois homens e vários pedaços de madeira chegaram aos compartimentos da casa, aterrorizando Anna e os filhos. O reformador empunhou sua espada e gritou aos agressores que viessem durante o dia e mostrassem a cara para resolverem a questão.

Infelizmente, a onda de violência não acabou nesse episódio e muitos outros vieram a surgir. Ambos pressentiam que o que ainda estava por vir seria algo terrível e já oravam a Deus por proteção. Para o horror e desalento de muitos cristãos que apoiavam a Reforma, no dia nove de outubro de 1531, souberam que o exército do distrito católico estava se aproximando. Assim, um pequeno exército em Zurique foi formado para combatê-lo e Zwínglio foi nomeado para acompanhá-los como capelão.

Os soldados estavam reunidos, preparando-se para a partida, quando Anna foi se despedir. Todos irromperam-se em lágrimas e os filhos se apegavam às vestes do pai: “É chegada a hora de nos separarmos”, disse Zwínglio a ela, “Que assim seja; é a vontade do Senhor.” E deu-lhe um grande abraço de despedida. A emoção e o medo quase lhe impediram a fala, mas ela declarou: “Nós nos veremos novamente, se o Senhor assim desejar. A Sua vontade seja feita. E o que você trará de volta quando vier?” A resposta de Zwínglio foi: “Bênçãos, após as trevas e escuridão da noite”. Estas foram as últimas palavras à esposa, praticamente um prenúncio. Então abraçou os filhos, pressionando-os junto ao peito e com muita dor, afastou-se deles para partir. Enquanto se dirigia com os soldados para o final da rua, olhou mais uma vez para trás e ela acenou-lhe um último adeus.

Anna voltou para casa e orou, com fervor, ao Senhor de sua vida para que protegesse seu amado nessa ferrenha batalha, mas que acima de tudo que a vontade divina permanecesse. Não há dúvidas de que recebeu o consolo tão ansiado.

Infelizmente, a batalha não foi como Zurique desejava e com muita dor ela soube da morte não somente do marido, mas de seu amado filho Gerold, seu irmão, um primo e de seu genro. Por mais que os amigos tentassem esconder os detalhes sórdidos da batalha, para que não viesse a sofrer mais, foi impossível: o corpo do seu esposo havia sido esquartejado, queimado e as cinzas profanadas. Será que houve algum sofrimento igual a esse? Para os braços de Jesus, que sabe o que é sofrer, ela correu e encontrou força e consolo para a sua alma e pessoas para ajudá-la.

O jovem Henrique Bullinger, que sucedeu seu esposo na igreja, lhe fez esta promessa: “De nada você necessitará, querida mãe. Eu permanecerei seu amigo, seu mestre e conselheiro.” E assim aconteceu. Zwínglio não possuía bens materiais, pois tudo que possuía foi doado para auxílio dos pobres e refugiados; Bullinger fez de Anna e de seus filhos sua própria família, nada faltou a eles. Ele foi a providência divina para a viúva.

Não se sabe muito dos últimos anos de Anne. Diz-se que dificilmente saía de casa depois da morte do marido, exceto para ir à igreja. Ela vivia para os seus filhos e para o Senhor. No final da sua vida, ficou muito doente por algum tempo, mas ela suportou pacientemente o seu sofrimento.

Quando ela faleceu, em seis de dezembro de 1538, Bullinger comentou: “Eu não desejo um final mais feliz para uma vida do que este. Ela partiu placidamente, como uma tênue luz, e foi para o seu lar e para o seu Senhor, louvando e nos encomendando todos à graça de Deus.” A sua morte foi como sua vida: doce, bela e serena.

Devido aos sofrimentos que viveu, Anna passou a ser conhecida como A Mãe Chorosa da Reforma. Acredito que ela se apegou firmemente nas promessas do Pai:


Notas:

[1] Zwinglio nasceu em 1484, filho de um magistrado local de uma pequena aldeia alpina chamada Wildhaus. Ele frequentou as universidades de Viena e Basileia antes de servir como padre de 1506 a 1516 na cidade suíça de Glarus. Durante seu tempo como sacerdote na cidade de Einsiedeln (1517-1518), Zwinglio rompeu com a tradição católica romana ao pregar claramente no vernáculo alemão. Essa pregação lhe rendeu um cargo na cidade livre cantonesa de Zurique em 1519.

[2] Uma boa tradução deste primeiro trabalho reformado em educação foi feita pelo Prof. A. Reichenbach, do Ursinus College, intitulado “The Christian Education of Youth”.

[3] GOOD, J. Grandes Mulheres da Reforma. 1.ed. Ananindeua, Pará: Knox Publicações, 2009. cap.1. p.10.



Uma resposta para “VIDA DE ANNA REINHARD – ESPOSA DE ULRICH ZWÍNGLIO”.

  1. Avatar de ANNA BULLINGER – A “MÃE DE ZURIQUE” – ELLA CRISTÃ

    […] anos, ao todo onze filhos; os pais de Bullinger moravam com eles e ainda receberam, com muito amor, Anna Reinard, a esposa de Zwínglio e os filhos, cuidou deles como se fosse sua própria família. Como esposa […]

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