ANNA BULLINGER – A “MÃE DE ZURIQUE”

Uma foto antiga de uma mulher em preto e branco.

Enganosa é a beleza e vã a formosura, mas a mulher que teme ao Senhor, essa sim será louvada.

Provérbios 31.30

A mulher cristã genuína é destacada pela modéstia, submissão, temor a Deus, generosidade, amor ao próximo, hospitalidade etc. Podemos dizer que Anna Adlischweiler (sobrenome de solteira), nascida por volta de 1504, possuía todas essas qualidades, tornando-se um exemplo a ser seguido mesmo séculos depois.

Era muito comum, naquela época, que as famílias, por diversos motivos (espiritual, financeiro ou evitar algum casamento indesejado) entregassem seus filhos a mosteiros ou a conventos para serem educados. Quando Anna tinha apenas oito anos de idade, seu pai faleceu em uma batalha e a mãe, desesperada, enviou-a para o convento Oendenbach, em Zurique, onde se tornou freira. Um tempo depois, a própria mãe foi morar no mesmo convento devido a uma doença e para ficar mais perto da filha.

Mas não era esse o destino que Deus havia preparado para Anna. Enquanto, juntamente com outras freiras, encontrava-se enclausurada e vivendo de forma tranquila, a Reforma Protestante “explodia” lá fora. As 95 Teses de Martinho Lutero encontraram corações dispostos à supremacia da Escritura na Suíça, especialmente em Zurique.

O pregador Zwínglio[1] foi o reformador que acendeu essa chama na cidade, pregando em todos os lugares e sem distinção de pessoas. Mas ainda havia um recinto em que o evangelho não havia sido exposto e era justamente o convento em que Anna se encontrava.

O Conselho Municipal de Zurique, insatisfeito que as boas novas ainda não haviam chegado ao convento, ordenou que Zwínglio se dirigisse para o local para que as freiras ouvissem sobre a verdade das Escrituras e decidissem se permaneceriam freiras ou não. Ele obedeceu e, em 1522, ao pregar o sermão sobre “A clareza e Veracidade da Palavra de Deus”, muitas abriram a mente e o coração para a palavra, mas houve algumas que receberam com dureza a mensagem.

Anna estava entre as que ouviu com grande alegria e foi liberta das amarras impostas pela sua mãe e pelos padres. Infelizmente, houve muitas discordâncias e uma dose de confusão entre os adeptos e adversários de Zwínglio, assim, o Conselho Municipal proibiu os Dominicanos (líderes do convento) de entrarem no recinto e instituiu Zwínglio e Leo Judá como cuidadores espirituais das mulheres que decidiram viver ali. Muitas freiras aproveitaram para deixarem o lugar e iniciar uma nova fase de suas vidas. Por mais que Anna desejasse fazer o mesmo, não pôde, pois sua mãe estava muito doente e recusava-se a ir embora.

A união e o chamado

Anna, a mãe e uma idosa religiosa foram as únicas que permaneceram ali. Um dia, porém, Leo Judá, como capelão do convento, levou o jovem Heinrich Bullinger para uma visita pastoral. Quando se encontrou com Anna, uma admiração logo cresceu dentro de si e ao chegar em casa, escreveu uma carta pedindo-a em casamento. Mas não uma carta qualquer! É uma longa missiva, de quatorze páginas e meia, onde descreve sua condição física, financeira e espiritual; é a carta de amor mais antiga, entre os reformadores, que ainda existe. Há nela uma pureza que fica evidente em suas palavras; de forma eloquente, declara:

“Mas para que são necessárias tantas palavras! A suma de tudo isso é que o maior e mais seguro tesouro que você encontrará em mim é o temor a Deus, a piedade, a fidelidade e o amor, os quais eu alegremente demonstrarei; e o labor, a sinceridade e a dedicação não faltarão nas coisas temporais. No que concerne à alta nobreza e aos milhares de florins (moeda holandesa), eu nada tenho a dizer. Mas sei que o que é necessário para nós, não nos faltará. Pois Paulo diz: ‘Porque nada temos trazido para o mundo, nem coisa alguma podemos levar dele. Portanto, tendo sustento e com que nos vestir, estejamos contentes.” [2]

Dez dias após o pedido, recebeu uma resposta positiva. No entanto, como a mãe de Anna era contra o casamento e se recusava a sair do convento, ela pediu que a união fosse adiada para poder cuidar dela, que ainda estava enferma.

Bullinger aproveitou esse período para escrever, inspirado por Deus, um pequeno livro intitulado “Quanto à Educação Feminina, e a Como uma Filha Deve Guiar a sua Conduta e a sua Vida”, onde ensinava, de acordo com a Bíblia, como as cristãs podem ser boas esposas. Com certeza foi de grande ajuda para Anna.

No ano de 1529, a mãe de Anna faleceu e seis semanas depois, no dia 17 de agosto, o casamento ocorreu. Bullinger escreveu em seu diário: “Anna e eu nos casamos em agosto…na igreja de Birmenstorf…Um jantar foi realizado na capela do mosteiro.”[3]

Um ano antes do casamento, o sínodo de Zurique certificou Bullinger como ministro e aceitou o pastorado em Bremgarten, na Suíça, onde seu pai havia pastorado. O casal mudou-se para lá e Anna deu à luz suas duas primeiras filhas, Anna e Margaret.[4]  

Infelizmente, em meio a tanta alegria, momentos de tristeza assolou a comunidade cristã: a derrota de Zurique em Cappel, no dia 11 de outubro de 1531, (na batalha na qual Zwínglio perdeu a vida), fez com que o perigo eminente batesse à porta e ele teve que fugir, na noite de 20 de novembro, para Bremarten, levando em um primeiro momento o pai idoso e um irmão.

Assim que fugiram, os soldados católicos invadiram a casa de Bullinger com Anna e as duas crianças (uma com um ano e meio de idade e a outra com seis meses) quando ainda estavam no lugar, aonde chegaram e ficaram trinta soldados. Com essa situação insuportável, ela conseguiu fugir mesmo com as dificuldades impostas pelo caminho.

Grande foi a alegria do casal ao se reencontrarem. Em meio ao perigo, do qual ninguém ainda estava a salvo, a igreja de Zurique estava à procura de um sucessor que ocupasse o lugar de Zwínglio (uma grande responsabilidade). Os amigos de Bullinger convenceram-no que pregasse na catedral da cidade e ele aceitou; a mensagem foi maravilhosa, a tal ponto que muitos diziam que Zwínglio havia ressuscitado. Com a idade de vinte e sete anos, foi convidado a assumir o posto e ele aceitou com muito zelo e alegria.

Aqui, Anna, juntamente com o marido, cumpre um dos grandes chamados divinos: a hospitalidade. A família cresceu ao longo dos anos, ao todo onze filhos; os pais de Bullinger moravam com eles e ainda receberam, com muito amor, Anna Reinard, a esposa de Zwínglio e os filhos, cuidou deles como se fosse sua própria família. Como esposa de um renomado pastor, pode-se dizer que Anna era até mais ocupada que o próprio marido.

Heirinch era conhecido por abrigar e adotar jovens com mentes brilhantes e tementes a Deus. Um desses jovens foi o Rudolph Gualther, que gerou frutos, pois Gualther foi o seu sucessor como Antistes.[5] Assim, além de Gualther, ainda acolheu Henry Lavater, Josiah Simler dentre outros, e em 1531, dois meninos poloneses juntamente com o seu tutor.

Pode-se imaginar o tamanho da responsabilidade de Anna! O que impressiona mesmo é a excelente capacidade com que administrava o lar, com tamanha quantidade de hóspedes, recebendo o salário de 700 florins, às vezes, um pouco mais. Somente uma mulher sábia, inclusive em lidar com as finanças, poderia, com a ajuda de Deus, administrar um lar tão ativo e produtivo igual ao dela e com parcos recursos.

Uma carta que Bullinger escreveu ao seu filho mais velho em Estrasburgo, datada de 20 de dezembro de 1553, explana um pouco a situação:

“A sua mãe arregala os olhos quando você diz que já vai precisar de um outro par de sapatos para o inverno. Mal faz quinze semanas desde que partiu, quando levou três pares com você: o vermelho, o cinza e o preto. Nessa proporção, você precisará de seis pares de sapato por ano, enquanto eu me arranjo – mais do que suficientemente – com dois.” Depois, Bullinger dá ao seu filho o seguinte conselho: “Não deixe que os seus sapatos se desfaçam em pedaços, mas conserte-os à tempo”.

Três meses depois, o filho é elogiado pela economia. Anna contava com o auxílio de sua sogra e de uma serva muito dedicada à família para ajudar administrar os poucos recursos que dispunham.

É claro que os cuidados que essa família dispensava a quem necessitasse, alcançou também os irmãos que foram perseguidos devido a Reforma. Refugiados protestantes encontraram nessa casa todo o respaldo que precisavam; o casal não renunciava a isso. Os primeiros refugiados que receberam, em 1542, foram os reformados italianos, expulsos pelas perseguições da inquisição, como Pedro Martyr, Bernardo Ochino, Celio Curione e outros – homens de grande erudição teológica. Curione escreveu uma carta de gratidão, na qual chama Bullinger de Bispo, dizendo:

“A sua gentileza e o seu cuidado cristãos por nós durante a nossa estadia em sua casa me obriga a demonstrar-lhe a minha mais profunda gratidão. Saudai por nós, de todo o nosso coração, a sua esposa, que se mostrou tão bondosa e cheia de amor em seu serviço”.

Logo após, ajudaram os refugiados de Locarno (fronteira sul da Suíça). Em 3 de março de 1556, eles fugiram pelos Alpes cobertos de neve. Cento e dezesseis deles chegaram a Zurique em 12 de maio. Bullinger e Anna deram o exemplo de hospitalidade para a cidade e, segundo registros, hospedaram oitenta deles de uma só vez. Em 1550, sob a perseguição acirrada da rainha da Inglaterra, (Maria, a Sanguinária), muitos irmãos ingleses encontraram repouso na casa dos Bullinger.

O conselho de Zurique fundou uma escola para a educação de doze alunos ingleses para o ministério, dos quais cinco vieram a se tornar bispos. Todos eles, posteriormente, vieram a expressar gratidão a Bullinger e à sua esposa, pela gentileza que demonstraram ao recebê-los em sua casa.

Anna cuidou de todos com extremo cuidado e amor cristão, mesmo que preocupações viessem a assolá-la, pensando em como vestiria e alimentaria a todos. Com certeza entregava esses pensamentos a Deus em oração e ele providenciava tudo; nada faltou à família e aos hospedes.

Além dos refugiados, muitos outros visitantes ilustres foram recebidos pelo casal, tais como Calvino e Farel de Genebra, e Bucer e Capito de Estrasburgo; bem como Portalis, embaixador do rei de Navarra e as nobres famílias de Wurtemburg e Schaumburg, que chegaram também como refugiados. Todos foram, por algum tempo, recepcionados pela família de Bullinger ou construíram relações sociais com ela.

a mãe de todos

É claro que não tem como mencionar, nesse texto, tudo que Anna fez para os que precisavam de ajuda. Devido ao seu labor com o próximo, ficou conhecida como “Mãe”; em terras estrangeiras, pelos ingleses, italianos, holandeses e alemães, foi chamada pelo título de “A Mãe de Zurique”.

Realmente Anna foi uma mulher impressionante! Em 1564, seu marido ficou bastante enfermo devido a peste. Ela desdobrou-se em cuidados para com ele e a sua saúde foi restabelecida, mas a um alto preço. Ao salvar a vida do marido, veio a perder a sua logo depois com a mesma doença. Toda a Zurique irrompeu-se em lamentos.

Anna estabeleceu um padrão de comportamento referente ao lar, marido e com o próximo: cotidiano, filhos, refeições diversas, limpeza e compromisso com a igreja, dentro e fora dela. Os frutos foram vistos e vividos, cuidou dos seus e dos que Deus designou que fossem seus; permitiu que uma nova geração, daquela época, fosse capacitada para o ministério e auxiliou o marido para promover o Evangelho independente das circunstâncias.


[1] Ulrico Zuínglio ou Hulrico Zuínglio, foi um teólogo suíço e principal líder da Reforma Protestante na Suíça. Zuínglio foi o líder da reforma suíça e fundador das igrejas reformadas suíças.

[2] Ver “Heinrich Bullinger und seine Gattin”, por Christoffel, p. 21.

[3] Heinrich Bullingers Diarium (Annales vitae) der Jahre 1504–1574, ed. Emil Egli (Basel, Suíça, 1904), 18. O Dr. David Noe gentilmente traduziu o verbete de Bullinger sobre o casamento. A ironia de um jantar de casamento num mosteiro é semelhante à experiência dos Luteros de alojar a sua grande família protestante no Claustro Negro.

[4] Bullinger, Diário, 19.

[5] Nome que designava o cabeça da igreja, naquela época, na Suíça.

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