Dedicada literata cristã
Argula sabe mais da palavra divina do que os chapéus vermelhos (canonistas e cardeais) nunca conseguiram conceber.
Balthasar Hubmaier
Argula Von Stauff (1492 – 1556/1557?) nasceu em meio a aristocracia bávara, na cidade de Ratisbona, Alemanha. Um dos privilégios que usufruiu, por pertencer a uma família nobre, foi o de aprender a ler e a escrever prematuramente em uma época em que o acesso aos livros era algo restrito e raro.
Com apenas dez anos de idade, a pequena Argula foi presenteada, pelo seu pai, com um exemplar da Bíblia de Koberger[1]. Devido ao desencorajamento de alguns monges franciscanos, que afirmavam que a leitura da Bíblia poderia ser difícil para uma criança, a pequena tardou um pouco a aventurar-se no livro. Ao entrar em contato com os textos de alguns reformadores que defendiam o Sola Scriptura, logo foi à Bíblia e as verdades lhe saltaram aos olhos imediatamente; a experiência foi tamanha que ficou conhecida como a Bíblia alemã ambulante.
Com dezesseis anos, enviaram-na para a corte em Munique para ser a dama de companhia da duquesa Kunigunde, irmã do imperador Maxiliano. Ali, foi educada em diversas áreas do conhecimento que somente as famílias abastadas tinham acesso.
Infelizmente, ainda jovem, ela sofreu perdas que forjaram a sua personalidade que conheceremos mais adiante. Seus pais faleceram devido a peste que assolou toda a Europa em 1509; a tutoria da jovem ficou por conta de seu tio paterno, Jerônimo, que ao se envolver em um escândalo de cunho político, foi executado em 1516. Nesse mesmo ano, se casou com o católico Frederico von Grumbach com quem teve quatro filhos.
A batalha em favor da Reforma com papel, tinta e garra
A partir do ano 1520, além de cuidar da família e do lar, estudava, com afinco, as doutrinas publicadas pelos luteranos e a corresponder-se com alguns reformadores, entre eles, Paul Esperatus, Melanchton e Martinho Lutero, que admirava Argula pelo conhecimento teológico e pela coragem.
Geralmente, me chamam de luterana, mas eu não o sou. Eu sou batizada no nome de Cristo, a quem eu confesso, e não confesso Lutero. Mas eu confesso que ele, Martinus, também se confessa como um fiel cristão. Que Deus o ajude, para que nunca mais neguemos isso, nem por vergonha, desonra, cárcere ou torturas.[2]
Ela conheceu o reformista após participar da Dieta de Augsburgo.[3] Dirigiu-se até o castelo de Coburgo em que Lutero se refugiava e o informou sobre as decisões da reunião. Fazendo uso de sua sabedoria, aproveitou o encontro para reunir alguns reformadores para a possibilidade de chegarem a um acordo sobre como proceder em relação a Ceia do Senhor, o que obteve êxito. Compareceram Melanchthon, representando Wittenberg, e Martin Burcer representando os alemães do sul.
A panfletista do Reino
No ano de 1523, a Universidade de Ingolstadt – ensejadora da Contrarreforma – condenou o professor Arsacio Seehofer por discorrer em favor das ideias reformistas. Acusaram-no de propagar hersesias, foi preso e sob ameaças de tortura, muito comum na quela época, Seehofer foi obrigado a fazer uma retratação e, mesmo assim, foi condenado a reclusão em um mosteiro. A nossa querida Argula, com seus 31 anos de idade, não ficou quieta e decidiu agir: escreveu uma longa missiva à universidade onde desafiou os professores a um debate público sobre a questão.
Uma antiga xilogravura do século XVI retratando Argula com uma Bíblia na mão, com seus tomos de teologia, enfrentando um grupo de acadêmicos evidentemente intimidados e desconcertados.

E que carta! Argula citou a Bíblia mais de oitenta vezes e comparou todos os versículos de acordo com as acusações feitas pelo clero a fim de combater a decisão tomada pela universidade. Como o seu singelo pedido de debate foi negado, publicou o texto da carta em formato de panfletos e esses não passaram despercebidos, pois foram reproduzidas mais de trinta mil cópias em apenas dois meses. Ela fez história, pois nunca havia acontecido tal coisa: uma mulher se intrometer em assuntos concernentes sobre política e religião. Essa notável cristã se tornou a primeira panfletista da Reforma a aprofundar-se nas doutrinas bíblicas, ainda que muitos a tenham criticado considerando-a leiga e por ser mulher.
Alguns parágrafos da carta:
“Ao nobre, digno, bem nascido e erudito reitor, e a todo o corpo docente da Universidade de Ingolstadt: quando soube o que fez a Arsácio Seehofer, sob o terror da prisão e da estaca, meu coração e meus ossos tremeram. Que escritos de Lutero e de Melanchton você condenou? Você não tem como refutá-los. Onde voce lê na bíblia que Cristo, os apóstolos e os profetas prenderam, baniram, queimaram ou mataram alguém? Dizem-nos que devemos obedecer os magistrados, mas nem o papa, nem o imperador e nem os príncipes têm qualquer autoridade sobre a palavra de Deus, como lemos em Atos 4 e 5. Você não precisa pensar que você pode usar Deus, os profetas e os apóstolos com decretos papais desenhados a partir de Aristóteles, que não era um cristão…”
“Você procura destruir todas as obras de Lutero. Nesse caso, você terá que destruir o Novo Testamento que ele traduziu. Nos escritos alemães de Lutero e Melanchthon eu não encontrei nada de herético… Eu não hesitaria em comparecer diante de ti, de ouvi-lo, de discutir com você. Porque pela graça de Deus, também eu posso fazer perguntas, ouvir as respostas e ler em alemão”.
“A notícia do que foi feito para este rapaz de dezoito anos chegou a nós e outras cidades em um tempo tão curto que logo ele será conhecido por todo o mundo. O Senhor perdoará Arsácio, como ele perdoou Pedro, que negou o seu mestre, embora sem ser ameaçado de prisão e fogo. Grande boa vontade ainda vem deste jovem. Eu lhes escrevo não com base de uma mulher que vocifera, mas com base na palavra de Deus. Eu lhes escrevo como um membro da Igreja de Cristo, contra a qual as portas do inferno não prevalecerão…”
A própria Argula tinha receio de tomar essa decisão. Tardou em se manifestar, levando em conta os versículos em que Paulo declara que as mulheres não devem falar na igreja. Mas, como nenhum homem havia tomado a decisão de expor essa injustiça, ela o fez e argumentou que, no livro de Mateus, em 10:32, se refere ao “sacerdócio de todo crente” e não de todos os homens; ela cria que esses versículos a incluíam como uma verdadeira defensora do evangelho do qual fazia parte.
As autoridades civis não ficaram ilesos às cartas de Argula. Escreveu ao duque de Baviera, ao prefeito e aos vereadores de Regensburg chamando-os a responsabilidade de guardarem a cidade através dos ensinos bíblicos. As cartas e os poemas publicados por ela eram famosos em toda a Alemanha e com dezenas de milhares de cópias distribuídas no país.
Perseguições
As críticas e perseguições não tardaram a chegar. A ira foi sem igual e em um sermão realizado pelo professor Hauer, ele a chamou de: “demônio feminino”, uma “fêmea desesperada”, uma “filha miserável e patética de Eva”, um “diabo arrogante”, uma “tola”, e completou chamando-a de “vadia herética” e “sem-vergonha”. [4]
Essa cristã corajosa, a despeito das críticas, continuou a escrever mesmo que a quantidade de seus inimigos aumentasse. Em uma época em que mulher não podia viajar sozinha, ela foi a Nuremberg para animar os príncipes alemães a acederem à Reforma Protestante.
No final do verão de 1523, Argula escreveu ao duque da Baviera e descreveu os acontecimentos em Ingolstadt, explicando-lhe que o cristão deve obedecer às autoridades, desde que pelo limite das Escrituras Sagradas e discorreu sobre as imoralidades cometidas pelo clero.
Uma das consequências de tais cartas, foi a demissão de seu marido do cargo de administrador de Dieitfurt, uma região da Baviera. O argumento para a demissão foi interessante: ele não foi homem suficiente para impedir os escritos da esposa. Seu matrimônio estava profundamente abalado e em um de seus poemas (1524), escreveu: “Deus ensina-me a compreender / como eu deveria agir para com o meu marido”.
O ódio para com a Argula era em demasiado, que o marido recebeu a proposta de matar a própria esposa com a promessa de que seria perdoado perante a lei. Ele não chegou a tal ponto, mas o casamento foi seriamente prejudicado, as dificuldades financeiras vieram e os filhos tiveram dificuldades nos estudos. Mas ela não sucumbiu a nenhuma dificuldade que encontrou pelo caminho continuando a escrever e a debater as loucuras de um clérigo insano.
E mesmo se acontecesse de Lutero revogar tudo o que disse – que Deus não o permita -, isso não mudaria em nada a minha opinião. Eu não construí a minha opinião sobre a opinião de Lutero ou de qualquer outra pessoa, mas sobre a verdadeira rocha: Jesus Cristo.[5]
O reformador Martinho Lutero, ao saber de suas lutas, escreveu ao seu amigo Espalatino, em 1524, dizendo-lhe: “Estou lhe enviando as cartas de Argula von Grumbach, que é discípula de Cristo, de quem você pode ver como os anjos se regozijam com uma única filha de Adão, convertida e feita em uma filha de Deus”. Para seu amigo Johann Briesmann von Königsberg, Lutero também escreveu sobre Argula:
“O duque de Baviera tem raiva acima da média, matando, esmagando e perseguindo o evangelho com todas as suas forças. Que mulher mais nobre, Argula von Stauffer, que lá está fazendo uma corajosa luta com grande espírito, ousadia de expressão e conhecimento de Cristo. Ela merece que todos oremos para a vitória de Cristo nela… Só ela, entre estes monstros, continua com fé firme, porém, ela admite, não sem estar tremendo em seu interior. Ela é um instrumento singular de Cristo. Recomendo-a a você, que Cristo por esta vida possa confundir os poderosos”.[6]
Ainda existe um exemplar do pequeno Livro de Orações com uma dedicatória escrita por Martinho Lutero que diz: “Á nobre mulher Argula Von Stauff de Grumbach.”
Em 1530, Frederico faleceu devido a uma doença logo após visitarem os Lutero, sendo necessário que sozinha administrasse as terras e os filhos. Três anos depois Argula selou outro matrimônio com o conde Von Schlik, apoiador da Reforma; foi um casamento feliz e próspero, mas não durou muito: o conde foi preso por parentes que desejavam vingança devido a uma disputa familiar no anos 1535. Um tempo depois, infelizmente, três dos seus quatro filhos também morreram.
Legado
Não há um consenso sobre o ano da morte de Argula. Há fontes que afirmam que foi presa pela tropa católica, mantida em cativeiro e foi forçada a fugir para a sua cidade natal totalmente desprezada.
Argula foi uma verdadeira apologeta e escritora, entrou para a história como a primeira mulher a escrever textos teológicos na era protestante. Ainda hoje seus escritos nos levam à reflexão, edifica e nos constrange a lutar pela verdade apregoada no evangelho. Ela enfrentou homens poderosos, não com palavras vazias e ofensas, mas com as Escrituras Sagradas na qual saiu vencedora desse embate.
Em uma sociedade composta principalmente por analfabetos, a maioria de seus escritos foram lidos em voz alta entre grupos de pessoas comuns. Enquanto a igreja católica permitia a leitura da Bíblia somente em latim, muitos puderam ouvir em alemão o que as Escrituras, de fato, ensinavam.
Sua biografia foi digna de inclusão no livro História dos Mártires, de Ludwig Rabe, de 1572, considerada a primeira obra da hagiografia luterana
Seus escritos publicados durante sua vida como cartas panfletárias estavam entre os best-sellers nos tempos da Reforma. Argula foi homenageada pelos pietistas alemães no século 18, foi venerada em várias a geografias populares de valor histórico espúrio no século 19 e, finalmente, tornou-se tema de pesquisa no século 20.[7]
Notas
[1] Editada clandestinamente em Nuremberg em 1483, pelo editor Anton Koberger.
[2] MATHESON, 2014, p. 112 apud Dalferth, Heloisa Gralow, op. cit., p. 79-80.
[3] A Dieta de Augsburgo é o nome com o que se conhecem as reuniões da Dieta Imperial ou Reichstag do Sacro Império na cidade alemã de Augsburgo. Carlos V recebe a Confessio Augustana ou Confissão de Augsburgo na sessão do 25 de Junho de 1530.
[4] VALENTINE, Boby, op. cit.
[5] Birnstein apud Ulrich, Claudete Beise, op. cit., p. 86.
[6] Lutero apud Semblano, Martinho Lutero, op. cit., p. 28-29
[7] DALFERTH, Heloisa Gralow, op. cit., p. 57
Bibliografias
GOOD, James I. Grandes mulheres da Reforma: Quem foram, o que fizeram e o que sofreram as grandes mulheres da Reforma do século XVI. Ed. Layse Anglada. Trad. Anna Gueiros. Ananindeua: Knox Publicações, 2009.
ALMEIDA, Rute Salviano; PINHEIRO, Jaqueline Sousa: Reformadoras: Mulheres que influenciaram a reforma e ajudaram a mudar a igreja e o mundo. -1 ed. – Rio de Janeiro: GodBooks; Thomas Nelson Brasil, 2021.

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