DIÁRIO DE VIAGEM: O MONTE DAS OLIVEIRAS E O JARDIM DO GETSÊMANI

O Monte das Oliveiras

Há vários milênios, uma ampla montanha repleta de oliveiras elevava-se majestosamente próximo à cidade de Jerusalém. É o Monte das Oliveiras ou Monte Olivete, cujo nome é derivado das oliveiras que decoram a paisagem. É um lugar importante que foi amplamente utilizado por Jesus para demonstrar verdades eternas.

Está situado a leste da Cidade Antiga de Jerusalém, pertencente a uma cadeia de colinas com três picos; faz parte da fronteira ocidental do Deserto da Judeia. Entre ele e Jerusalém, encontra-se o Vale do Cedrom ou, como também é conhecido, o Vale de Josafá. Ao subi-lo, somos contemplados com uma visão maravilhosa da velha cidade. É uma das imagens mais icônicas de Jerusalém que tem capturado a imaginação de visitantes ao longo do tempo.

Fonte: arquivo pessoal.

Se estende de norte a sul e mede 3,5 km. A distância do Monte das Oliveiras ao centro de Jerusalém é cerca de 05 km, “jornada de um sábado” (At 1.12).

Um dos elementos marcantes do Monte das Oliveiras, é o histórico cemitério judeu que cobre parte de sua encosta. O local começou a ser utilizado como cemitério há 3 mil anos, possui 150.000 túmulos e é o cemitério judeu mais antigo do mundo.

Ser enterrado nesse cemitério, em Jerusalém, é considerado um privilégio para os judeus. Segundo uma profecia judaizante, quando o Messias chegar ressuscitará os mortos a partir do Monte das Oliveiras. É por isso que algumas famílias pagam quantias exorbitantes por um túmulo neste cemitério.

Fonte: arquivo pessoal.

Nos tempos bíblicos, o monte continha muitas oliveiras, vinhas, figos e várias árvores frutíferas. No entanto, durante o governo do imperador romano Tito, as oliveiras foram retiradas (ainda há oliveiras centenárias, mas nenhuma pode ser datada do tempo bíblico). Quando os romanos no ano 70 d.C. destruíram Jerusalém pelo fogo, a partir do monte, Tito fez ali o seu quartel-general.; assim, atualmente, o solo é rochoso e com poucas árvores.

O Monte das Oliveiras no Antigo Testamento

Fonte: Arquivo pessoal.

A primeira menção do Monte das Oliveiras na Bíblia é no livro de 2 Samuel:

Foi em um de seus cumes que o rei Salomão construiu altares aos ídolos cultuados por suas esposas estrangeiras:

Provavelmente por isso o cume mais ao sul foi chamado de Monte da Ofensa.

Numa de suas visões, o profeta Ezequiel viu a nuvem da glória de Deus partir da cidade de Jerusalém e seguir para leste, até se pôr sobre o Monte das Oliveiras:

O profeta Zacarias menciona o Monte das Oliveiras numa profecia escatológica relacionada ao julgamento divino:

A interpretação exata dessa profecia é muito debatida entre os teólogos de diferentes correntes escatológicas.

É plausível que Neemias, em 8.15, ordenou que o povo saísse ao monte, provavelmente o das Oliveiras, e trouxessem ramos de frondosas árvores para a Festa dos Tabernáculos:

O Monte das Oliveiras no Novo Testamento

O Novo Testamento registra diversos momentos de Jesus no monte. Parece que o lugar era um dos locais de descanso favoritos do Senhor fora da cidade. Foi dos arredores do Monte das Oliveiras que Jesus iniciou a sua entrada triunfal em Jerusalém:

A multidão que aclamou a Jesus durante a triunfal entrada, cortou galhos de árvores do monte, pois saíram de Betfagé:

Ao que tudo indica, após contornar uma das curvas na descida a partir do monte, Jesus chorou ao admirar Jerusalém:

Foi o lugar em que Jesus proferiu o sermão escatológico na semana da crucificação (Mateus 24-25; Marcos 13); na noite da traição, foi orar no monte, em um jardim chamado Getsêmani (Mateus 26:30); na região de Betânia, sobre o Monte das Oliveiras, ocorreu a ascensão de Jesus (Lucas 12:50-53; Atos 1:9-12).

O Monte das Oliveiras era um dos lugares preferidos do nosso mestre. Nele, os discípulos ouviram palavras de ânimo, de advertências e parábolas que ficaram para nosso aprendizado. A vida devocional e privada de Jesus também se passou ali: ele recolhia-se para descansar depois de um dia fatigado pelos trabalhos e provações.

O monte nos recorda a humanidade na divindade de Jesus: ao contemplá-lo, lembramos que ali ele demonstrou a sua humanidade ao orar e descansar; se Cristo sentia essa latente necessidade, que nós, seus coerdeiros, façamos o mesmo.

O Jardim do Getsêmani

Fonte: arquivo pessoal.

Jesus, após a última ceia, atravessou o Vale do Cedrom e foi até o Getsêmani, um jardim que fica aos pés do Monte das Oliveiras.

Getsêmani, em hebraico, gat shemanim, significa literalmente “prensas de azeite”, sugere que o referido jardim era um bosque de oliveiras onde se fixava um espaço para a prensagem de azeite. No livro de Marcos, ele é chamado de chorion, “lugar” ou “propriedade”; em João 18.1, aparece como um kepos, “horto” ou “jardim”. Acredita-se que o lugar pode ter pertencido a um discípulo de Cristo, visto que ele o usava frequentemente para oração ou simplesmente com o intuito de ficar a sós com os discípulos.

No Jardim do Getsêmani, existem oito oliveiras muito antigas e grandes. Além delas, há outras oliveiras, totalizando um conjunto de vinte e três árvores; possui cerca de 1.200 metros quadrados de área.

Fonte: arquivo pessoal.

As cenas que antecedem o julgamento e a morte do Messias, aconteceram nesse jardim. Embora a dolorosa oração de Jesus, a traição e prisão no Getsêmani são descritos nos quatro Evangelhos (Mateus 26:36-56; Marcos 14:32-50; Lucas 22:39-53 e João 18:1-12), o local é precisamente mencionado apenas nos livros de Mateus e Marcos. Lucas não faz menção do nome Getsêmani, mas de acordo com o médico, a angústia que Jesus sentiu nesse lugar foi tão forte que o seu suor se transformou em sangue.

História

O Jardim do Getsêmani tornou-se um lugar para visitação para os primeiros peregrinos cristãos. Foi visitado em 333 d.C pelo anônimo “Peregrino de Bordéus”, cujo Itinerarium Burdigalense (“Itinerário de Bordeaux”)[1] é a descrição mais antiga deixada por um viajante cristão em Jerusalém. Em seu Onomasticon[2], Eusébio de Cesareia observa que o Getsêmani se situava “aos pés do Monte das Oliveiras” e acrescenta que “os fiéis costumavam ir lá para rezar”.

Alguns mercadores bósnios, cavaleiros croatas da Sagrada Ordem de Jerusalém[3], no século XVII, compraram as terras que inclui o Jardim do Getsêmani e fizeram uma doação votiva aos cristãos franciscanos. Logo após, o lugar foi fechado por um muro e passou a ser utilizado exclusivamente para oração.

Uma placa tridimensional no lado direito, ao lado da entrada do jardim, descreve a doação mencionada à comunidade.

Fonte: arquivo pessoal.

Localização

Embora a localização exata do Getsêmani não possa ser determinada, é fato indiscutível que o jardim se localiza no Monte das Oliveiras. Há quatro lugares que alegam ser o local onde Jesus orou na noite em que foi traído:

  • Perto do Túmulo da Virgem Maria: uma igreja cristã construída ao redor de um antigo túmulo escavado na rocha da Judeia, aos pés do Monte das Oliveiras;
  • Igreja Ortodoxa Grega ao leste: é um termo que pode se referir a qualquer uma das três classes de igrejas cristãs, cada uma associada de alguma forma ao cristianismo grego;
  • No pomar ortodoxo russo, ao lado da Igreja de Maria Madalena: é uma igreja cristã ortodoxa oriental localizada no Monte das Oliveiras.

Essas três igrejas reivindicam o local ao pé do monte como autênticos, pois eram assim considerados pela imperatriz Santa Helena, a mãe de Constantino, o Grande.

Mas uma antiga tradição comumente aceita, localiza a cena da oração do Getsêmani e da traição de Jesus em um lugar chamado de “Gruta da Agonia”, perto de uma ponte que atravessa o Vale do Cedrom. Após os franciscanos tomarem posse do jardim, ampliaram o terreno com as oliveiras e adquiriram um adjacente, foi neste local, em 1920, que descobriram ruínas de antigas igrejas: a de uma basílica bizantina do século IV, destruída por um terremoto em 746 e de uma pequena capela cruzada do século XII abandonada em 1345.

Depois que os restos da igreja da era bizantina foram escavados, construíram a atual Basílica entre 1922 e 1924. Para sua construção, várias nações colaboraram com grandes doações, por isso também é chamada de Basílica das Nações.

Fonte: https://www.viator.com/en-IN/Jerusalem-attractions/Church-of-All-Nations/d921-a18546
Fonte: arquivo pessoal.

A “Gruta da Agonia”, ao fundo da imagem, localizada no altar, é o nome dado à gruta do Getsêmani; é no local onde fica a pedra na qual Jesus teria orado antes de ser preso.

Escavações recentes revelaram restos de uma igreja precedentemente desconhecida, que foi fundada no fim do período bizantino (VI século d.C.) e continuou a ser utilizada durante o período omaíada (VIII século d.C.).

Fonte: arquivo pessoal.

As escavações foram encontradas abaixo das ruínas em frente à igreja; o Jardim está localizado ao lado do templo.

A datação das oliveiras

O Conselho Nacional de Pesquisa (Consiglio Nazionale delle Ricerche, CNR)[4], usando a datação por carbono, conseguiu determinar a idade de três árvores. Mostrou que seus troncos e galhos têm cerca de 900 anos, tornando-os uma das mais antigas oliveiras conhecidas.

A datação por carbono indicou que as três amostras vieram dos anos 1092, 1166 e 1198. As outras cinco oliveiras mais antigas não puderam ser testadas; segundo os pesquisadores, as partes mais velhas, as mais interessantes para o estudo, que ficavam no cerne, haviam secado. Os troncos que atualmente são visíveis, imensamente alargados, resultam de brotos de épocas posteriores.

Eles observaram, no entanto, que todas as árvores testadas eram da mesma linhagem, o que pode indicar que os antigos guardiões da terra tentaram preservar uma herança específica para as gerações futuras. A natureza dessa linhagem foi esquecida pela história.

Fonte: arquivo pessoal.

Embora as idades mencionadas as torne mais jovens do que os eventos relatados na Bíblia, os pesquisadores observaram que ainda estão entre as árvores mais antigas já registradas. Além disso, eles apontaram que as oliveiras têm a capacidade de crescer novamente a partir de suas raízes se o tronco for cortado, portanto, é impossível descartar a possibilidade de que sejam realmente as mesmas árvores.

Fonte: arquivo pessoal.

Independentemente se elas são as mesmas ou não, o solo sob elas é, sem dúvida, o mesmo mencionado na Bíblia cristã.

Fonte: arquivo pessoal.

Alguns especilaistas questionam a veracidade dessa pesquisa e afirmam que datam de mais de 2000 anos. Para quem deseja conhecer os argumentos em favor dessa teoria, indico a leitura do site: https://landarchconcepts.wordpress.com/how-old-are-the-olive-trees-in-gethsemane/.

Descobertas arqueológicas no Getsêmani

Umas das mais importantes e surpreendentes descobertas arqueológicas durante as escavações no Vale do Cedrom, foram as ruínas de um banho ritual de dois mil anos e rastros de uma igreja na era bizantina. O que era para ser apenas uma construção de um túnel que ligará a Basílica das Nações ao vale, tornou-se um presente para a arqueologia bíblica: nas ruínas, foram encontrados vários objetos preciosos, o que fez com que as autoridades das Antiguidades Israelenses preservassem o local.

A descoberta é chamada de Mikveh, também escrito mikvah (em hebraico: מִקְוֶה), o banho ritual purificatório de origem e tradição hebraica, datada do “Segundo Templo”, ou seja, do tempo em que vivia Jesus.

Segundo o arqueólogo Amit Re’em, o achado confirma narrativas bíblicas:

Fonte: https://franciscanos.org.br/terrasanta/novas-descobertas-arqueologicas-no-getsemani/

Nós e o Getsêmani

Fonte: arquivo pessoal.

Após essa profecia, passou-se cerca de 700 anos para o nascimento de Jesus Cristo. Deus sempre deteve o controle da história e agiu de forma soberana para o cumprimento da predição acima.

O lugar em que ocorreu um dos maiores embates da história, foi em um simples jardim fora dos muros de Jerusalém; Deus não escolheu um jardim frondoso, grande, com flores possuídoras de cores vivas e vibrantes, em um recinto lindo de se contemplar. O simbolismo do lugar não poderia ser mais apropriado: oliveiras e prensas de azeite.

Nos tempos bíblicos, o azeite era retirado através de um procedimento de prensagem das azeitonas, geralmente em lagares de pedra ou moinhos. As azeitonas eram esmagadas e, em seguida, prensadas para extrair o óleo.

Como as azeitonas nesse jardim, aprouve Deus esmagá-lo, prensá-lo a tal ponto nesse lugar que o nosso Salvador suou sangue, algo muito mais precioso que o azeite que dali era extraído, pois o sangue de Jesus tem o poder de salvar seres depravados como nós; era apenas uma amostra do que estava por vir.

Na narrativa, vemos uma angústia emocional muito forte sentida por Jesus. Nela, podemos contemplar a sua humanidade: ele sente medo, pavor e angústia. São os mesmos sentimentos que temos quando enfrentamos uma situação de perigo e medo da morte. Mas o desespero de Jesus foi muito, muito mais profundo: ao ser crucificado e abandonado por Deus, ele experimentaria a violenta ira divina sobre si, ainda que inocente. Jesus foi prensado, exprimido e esmagado mais do que qualquer um de nós ou quem possamos conhecer.

No Getsêmani foi travada uma batalha na qual saímos vencedores mesmo sem lutar; graças a obediência do Filho de Deus, fomos salvos de nossos pecados. O jardim é um lembrete de que se Jesus foi obediente em meio à provação, o nosso coração terá que desenvolver a mesma inclinação e seguir o seu exemplo de oração, devoção e amor.

Satanás não teve poder de afastá-lo da missão que a Jesus foi outorgada, ela foi cumprida com louvor e fomos livres de um destino que, pelo inimigo de nossas almas, já estava traçado, mas ele não contava com a obediência de um homem: Jesus.


Notas

[1] Também conhecido como Itinerarium Hierosolymitanum (“Itinerário de Jerusalém”), é o mais antigo itinerarium cristão conhecido. Foi escrito pelo “Peregrino de Bordéus”, um peregrino anônimo da cidade de Burdigala (atual Bordéus, França) na província romana da Gália Aquitânia. Relata a jornada do escritor por todo o Império Romano até a Terra Santa em 333 e 334[2], enquanto viajava por terra pelo norte da Itália e pelo vale do Danúbio até Constantinopla; depois pelas províncias da Ásia e Síria até Jerusalém, na província da Síria-Palestina; e depois de volta pela Macedônia, Otranto, Roma e Milão.

[2] O Onomasticon, mais completamente sobre os nomes de lugares nas Sagradas Escrituras, é um dicionário geográfico de nomes de lugares históricos e atuais na Palestina e na Transjordânia compilados por Eusébio (c. 60/265–339), bispo de Cesaréia, e tradicionalmente datado de algum tempo antes 324.

[3] A Ordem Equestre do Santo Sepulcro de Jerusalém (em latim: Ordo Equestris Sancti Sepulcri Hierosolymitani – OESSH) é uma instituição leiga da Santa Sé encarregada de suprir as necessidades do Patriarcado Latino de Jerusalém e de sustentar a atividade e as iniciativas em favor da presença cristã na Terra Santa.

[4] É o maior conselho de pesquisa da Itália. Como organização pública, sua missão é apoiar a pesquisa científica e tecnológica. Sua sede fica em Roma.


Referências

Monte das Oliveiras. Britannica, 2025. Disponível em: https://www.britannica.com/place/Mount-of-Olives. Acesso 10 de jun. de 2025.

Novas descobertas arqueológicas no Getsêmani. Comisseriado Terra Santa, 2021. Disponível em: Novas descobertas arqueológicas no Getsêmani – Terra Santa- Franciscanos Vida Cristã – Província Franciscana da Imaculada Conceição do Brasil – OFM. Acesso 10 de jun. de 2025.




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