Ao longo da história, inúmeras mulheres piedosas se destacaram como faróis de inspiração. Uma figura que especialmente sobressai em minhas leituras é Mary Love, esposa do pregador puritano do século XVII, Christopher Love. Sua inteligência cristã e piedade são inspiradoras; não posso deixar de desejar tê-la conhecido pessoalmente e aprendido de sua sabedoria diretamente.
A vida de Christopher Love terminou aos 33 anos, quando foi executado por decapitação em 1651, acusado de conspirar contra Oliver Cromwell, então Lorde Protetor da Inglaterra. Sua esposa estava grávida de oito meses do quinto filho do casal, o terceiro que sobreviveria, quando ele foi executado.
No dia de sua execução, Christopher Love usou o cadafalso como seu último púlpito, pregando seu sermão final e orando por seus acusadores. Entre suas últimas palavras estavam: “Há apenas dois passos entre mim e a glória. Basta deitar-me sobre o bloco para que eu ascenda a um trono. … Estou trocando um púlpito por um cadafalso e um cadafalso por um trono. … Estou trocando uma guarda de soldados por uma guarda de anjos que me receberão e me levarão ao seio de Abraão”.
Nas semanas que antecederam sua execução, a fé firme de Mary em Deus brilhou intensamente, especialmente em uma carta de despedida que escreveu ao marido enquanto ele estava preso, em 14 de julho de 1651. A leitura dessa carta toca profundamente o coração:
“Meu querido coração,
Antes de escrever uma palavra a mais, suplico-te que não penses que é tua esposa, mas sim uma amiga, quem agora te escreve. Espero que já tenhas entregue livremente tua esposa e teus filhos a Deus, que disse em Jeremias 49:11: ‘Deixa os teus filhos órfãos, Eu os guardarei vivos, e a tua viúva confie em Mim’. Teu Criador será meu marido e Pai para teus filhos. Oh, que o Senhor te livre de qualquer pensamento aflito por causa dos teus familiares! Desejo entregar-te livremente nas mãos de Teu Pai, e não apenas considerar como uma coroa de glória para ti morrer por Cristo, mas também como uma honra para mim ter um marido que parte por amor a Cristo.
Não ouso falar contigo, nem permitir que meu coração pense em minha perda indescritível, mas mantenho meus olhos fixos apenas no teu ganho inexpressável e inconcebível. Deixas apenas uma esposa pecadora e mortal, para seres eternamente unido ao Senhor da glória. Deixas apenas filhos, irmãos e irmãs, para ires ao encontro do Senhor Jesus, teu Irmão mais velho. Deixas amigos na terra para desfrutares da comunhão dos santos, dos anjos e dos espíritos dos justos aperfeiçoados na glória. Tu apenas deixas a terra para o céu, e trocas uma prisão por um palácio. E, se os afetos naturais começarem a se levantar, espero que O Espírito da graça que habita em ti os silencie, sabendo que todas as coisas aqui embaixo não passam de esterco e refugo, comparadas com as coisas que estão no alto. Sei que manténs teus olhos fixos na esperança da glória, o que faz com que teus pés pisem sobre a perda das coisas terrenas.
Meu querido, sei que Deus não apenas preparou a glória para ti, e a ti para ela, mas estou persuadida de que Ele adoçará o caminho para que chegues ao desfrute dela. Quando estiveres vestindo tuas roupas naquela manhã, pensa: ‘Estou colocando minhas vestes nupciais para ir me casar eternamente com meu Redentor!’.
Quando o mensageiro da morte vier a ti, que ele não te pareça terrível, mas olha para ele como um mensageiro que traz notícias de vida eterna. Quando subires ao cadafalso, pensa (como me disseste) que é apenas teu carro de fogo que te levará à casa de teu Pai.
E quando deitares tua preciosa cabeça para receber o golpe de teu Pai, lembra-te do que me disseste: ainda que tua cabeça seja separada do corpo, em um instante tua alma estará unida à tua Cabeça, o Senhor Jesus, no céu. E, ainda que possa parecer um pouco amargo que, pelas mãos dos homens, sejamos separados um pouco antes do que seria naturalmente, consideremos que isto é decreto e vontade de nosso Pai; e não tardará muito para que desfrutemos novamente um do outro no céu.
Consolemo-nos mutuamente com estas palavras. Conforta-te, meu querido coração. É apenas um pequeno golpe e estarás onde os cansados descansam e onde os perversos cessam de perturbar. Lembra-te de que podes comer teu almoço com ervas amargas, mas terás um doce jantar com Cristo naquela noite. Meu querido, pelo que te escrevo não pretendo ensinar-te, pois esses consolos eu mesma recebi do Senhor por meio de ti. Não escreverei mais, nem te incomodarei além disso, mas entrego-te aos braços de Deus, com quem, em breve, tu e eu estaremos.
Adeus, meu querido. Nunca mais verei teu rosto, até que ambos contemplemos o rosto do Senhor Jesus naquele grande dia.
— Mary Love.
A carta de Mary me convida a refletir sobre minhas próprias convicções e a avaliar as concepções predominantes de amor na cultura atual. Seu amor pelo marido não era egoísta nem idólatra, mas um amor profundamente enraizado nAquele que primeiro nos amou, Aquele que desferiu o golpe mais pesado de todos sobre o Seu Filho unigênito, a quem ama, para que todo aquele que nEle crê não pereça, mas tenha a vida eterna. Em vez de se concentrar na perda iminente, Mary direcionou seu olhar, e o de seu marido, para o seu primeiro Amor e Noivo eterno: nosso Senhor Jesus Cristo.
Parece especialmente apropriado que o sobrenome de sua família fosse Love (“Amor”).
Por: Jessica Santoso ©️ 2013, A Pilgrim’s Progress. Fonte: Christopher and Mary Love. Tradução: Samuel Sousa Gomes. Agosto de 2025.

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