P. 28: Que benefício há em sabermos que Deus criou todas as coisas e que continuamente as sustenta pela sua Providência?
R.: Podemos ser pacientes na adversidade, agradecidos na prosperidade e, quanto ao futuro, podemos confiar firmemente em nosso Deus e Pai Fiel, porque criatura alguma poderá nos separar do seu amor; pois todas elas estão de tal modo em sua mão que, sem a sua vontade, elas não podem nem mesmo se mover.
Esta linda declaração, um maravilhoso louvor ao Deus onipotente, faz parte do Catecismo de Heidelberg, publicado pela primeira vez em 1563, a pedido de Frederico III, Eleitor Palatino, que nomeou Zacarias Ursino e Gaspar Oleviano para a elaboração.
Capa do famoso Catecismo de Heidelberg:

O que é catecismo e qual é a sua função?
A Reforma Protestante, ocorrida no século XVI, além de confrontar a Igreja Católica concernente aos seus dogmas e superstições, observou que era necessário produzir materiais fundamentalmente bíblicos para que o povo de Deus compreendesse, de forma fácil e prática, as verdades contidas nas Escrituras.
Assim, surgiram inúmeras declarações de cunho doutrinário e teológico que ficaram amplamente conhecidos como “confissões e catecismos”. Segundo Mark Noll, as “confissões” (é importante salientar que os catecismos também são confissões de fé), designam as declarações formais da fé cristã escritas especialmente por protestantes, desde o início do seu movimento. [1]
Com a finalidades didáticas para o ensino das Escrituras, concomitantemente, surgem os catecismos (grego katekhéo: “ensinar”, “instruir”, “informar”; cf. Lc 1:4; At 18:25; 21:21,24; Rm 2:18; 1Co 14:19; Gl 6:6). É um manual de instrução religiosa geralmente organizado na forma de perguntas e respostas juntamente com os textos-provas. Antigamente, muitas religiões ensinavam suas crenças de forma oral, o Catecismo na forma escrita é fruto principalmente do cristianismo.
Embora não apareça nas traduções de língua portuguesa, nem em sua forma substantiva e como verbo (catequizar), ainda assim, a palavra “Catecismo” é encontrada na Bíblia no original em grego: No livro de Lucas 1.4, o evangelista esclarece que escreveu a Teófilo “uma exposição em ordem, para que tenhas plena certeza das verdades em que foste instruído” (grifo nosso). Presume-se que Teófilo tenha aprendido sobre a salvação em Jesus ao ouvir uma pregação ou algum tipo de instrução oral. Lucas fornece uma exposição escrita sobre a pessoa de Jesus Cristo e os seus feitos.
Os primeiros catecismos originaram-se através dos pais da igreja primitiva, como Agostinho de Hipona, João Crisóstomo, Cirilo de Jerusalém e muitos outros que os difundiram ao longo da Idade Média.
Com a imprensa de Gutenberg e a explosão da Reforma Protestante, os Catecismos e Confissões, depois da Bíblia, foram os principais documentos usados para estudar a Palavra de Deus: os mais conhecidos entre eles estão o do João Calvino, Instrução na Fé (1537), as Confissões de Westminster entre outros.
Uma das mais lindas declarações de fé doutrinárias elaboradas naquele período foi o mais importante documento confessional da Igreja Reformada Alemã: O Catecismo de Heidelberg.
Onde tudo começou: Palatinado
Heidelberg é uma cidade da Alemanha, situada no vale do rio Neckar, no noroeste do Baden-Württemberg. Ela é a antiga residência do Conde do Palatinado (alemão: Pfalz), que era um dos sete Príncipes Eleitores[2] do Sacro Império Romano-Germânico. Pode-se dizer que nesta época, uma mudança espiritual ansiava ocorrer em Heidelberg muito antes do Catecismo ser formulado.
Após “explodir” a Reforma Protestante, Martinho Lutero visitou a cidade em 1518 para participar de um debate entre os monges agostinianos e defendeu, ao apresentar as Teses de Heidelberg[3], declarando que somente a cruz de Cristo salva os pecadores. Mas infelizmente não obteve o resultado esperado entre os cidadãos, em partes devido ao fato de que o Eleitor da época, Ludwig V (1478 – 1544), empregava seus esforços na política e o poder que esta lhe traria ao invés de uma vida piedosa.
Mas logo essa situação sofreu transformações quando, em 1520, alguns líderes cristãos reformados passaram ocupar cargos que exerciam influência sobre a população. Heidelberg era o lugar de famosas universidades, das quais começou a ensinar sob uma perspectiva protestante, além do mais, um dos pastores, Wenzel Strauss da igreja principal, a Heiliggestkirche, apregoava as verdades contidas nas Escrituras e não temia a fúria papal.
Em 1546, um novo líder governamental da região, Frederico II, que sucedeu o Eleitor Ludwig V, possuía um coração voltado a Deus e aberto à Reforma, chegando a promover algumas transformações religiosas no Palatinado. No entanto, o imperador fervoroso católico, Carlos V, reprimiu a todos que desejavam pela Reforma e impôs a catolicidade romana em todo o país; a Dieta de Augsburgo[4] foi um exemplo da imposição do ensino papal à população.
Mas era necessário mais que uma repressão para deter a Reforma na cidade. Houve uma resistência que culminou na Paz de Augsburgo (1555). Esse decreto permitia que cada príncipe local decidisse qual o posicionamento religioso de sua região. Essa política foi resumida na expressão latina, cuius regio, eius religio (tal príncipe, tal crença).
A primeira página do documento. Mainz, 1555:

Carlos V recebe a Confessio Augustana ou Confissão de Augsburgo na sessão do 25 de Junho de 1530:

Em 1556, Eleitor Frederico II foi sucedido por Oto Henrique (Ottheinrich), que também se mostrou um grande apoiador da Reforma Protestante. Ele tomou algumas medidas significantes para que o movimento tivesse voz na região: promoveu o uso do Catecismo de Württemberg na área educacional e providenciou que alguns grupos analisassem e identificassem a situação espiritual nos territórios em que governava; o relatório não foi satisfatório: como os pastores não receberam um treinamento adequado, as congregações não estavam recebendo um alimento espiritual adequado também e, além do mais, as superstições que foram impregnadas com avidez pelo catolicismo eram mais proeminentes que as Escrituras Sagradas.
Devido ao falecimento precoce de Oto Henrique, o seu sobrinho, Frederico III (1515 – 1576), veio a dar continuidade ao que o seu tio havia iniciado de forma tão piedosa.
A educação reformada
As escolas também passaram por reformas com o advento do protestantismo. A educação formal era um privilégio que somente os mais afortunados financeiramente podiam usufruir e os ensinos nas escolas só eram permitidos em latim, o que dificultava ainda mais a expansão educacional.
No decorrer do século XVI, houve transformações expressivas em que resultou em uma crescente conscientização da população referente à educação formal. A acessibilidade para todos, pobres e ricos, ensinados no vernáculo falado pelos cidadãos comuns; várias escolas alemãs originaram-se desta conscientização e com três elementos basais curriculares: escrita, leitura e catecismos!
Origem – A controvérsia referente a Ceia do Senhor
De um lado temos o pregador Tilemann Heshusius, que discursava na principal igreja de Heidelberg, professor na universidade e defensor da visão luterana sobre a Ceia do Senhor, ou seja, ele acreditava que Cristo se fazia presente fisicamente no momento do sacramento. Do outro lado temos o Wilhelm Klebitz, estudante universitário, diácono na igreja e defendia que durante a Santa Ceia, os irmãos desfrutavam de uma comunhão espiritual com Cristo, mas que ele não se manifestava fisicamente no momento do sacramento; e entre os dois encontrava-se o recém nomeado Eleitor, Frederico III, que já no início de seu mandato foi obrigado a lidar com tal polêmica.
A discussão entre estes dois homens se tornou pública e muitas vezes de forma agressiva verbalmente e utulizavam os púlpitos para que ambos defendessem suas crenças. A situação tornou-se de tal forma tão insustentável que Frederico III, prezando pela paz da cidade e normalidade, decidiu dispensar ambos de seus cargos e ordenou que encontrassem outro lugar para viver.
Após dispensá-los, as vagas para os respectivos cargos anteriormente ocupadas por eles, estavam à disposição. Frederico III chamou primeiramente Gaspar Oleviano (1536 – 1587)[5] para preencher a vaga na Universidade, mas posteriormente, ele tornou-se pregador na igreja Heiliggeistkirche; pouco tempo após, Frederico III chamou o Zacarias Ursino (1534 – 1583)[6] para ensinar teologia na Universidade.
Gaspar Oleviano:

Zacarias Ursino (gravura extraída de um livro de Hendrick Laurensz, 1647):

Devido a necessidade de um ensino realmente bíblico, Frederico III escolheu estes dois homens para a elaboração do Catecismo de Heidelberg.
Quem, de fato, escreveu o Catecismo?
Mesmo que apareça apenas os dois autores como elaboradores do Catecismo, há algumas controvérsias a respeito de sua autoria. Há discussões sobre quem dos dois mais contribuiu teologicamente para que ele fosse concluído; no entanto, Frederico III, ao prefaciar o livro, esclareceu o seguinte: “com o conselho e cooperação de toda a nossa faculdade teológica, e de todos os superintendentes e distintos servos da Igreja, temos assegurado a preparação de um curso sumário de instrução ou catecismo de nossa religião cristã, de acordo com a palavra de Deus, nas línguas alemã e latina”.
Assim, pelo menos três diferentes grupos de pessoas auxiliaram na preparação do Catecismo: professores de teologia, superintendentes e líderes da igreja.
| Faculdade de Teologia | Superintendentes da igreja | Consistório da igreja | Outros |
| Zacarias Ursino | Gaspar Oleviano | Gaspar Oleviano | Thomas Erastus |
| Immanuel Tremmelius | Joannes Velvanus | Adam Neuser | Eleitor Frederico III |
| Petrus Boquinus | Johannes Willing | Petrus Macheropoeus | |
| Johannes Sylvanus | Tilemann Mumius | ||
| Johannes Eisenmenger | Johannes Brunner | ||
| Michael Diller |
Os esforços de todos os envolvidos resultaram em um Catecismo claro, bíblico e um extremo cuidado na elaboração que se tornou um dos melhores já escritos.
Como ele é estruturado?
Inicialmente os catecismos foram elaborados para uma instrução oral. Talvez por este motivo que tanto o de Heidelberg e outros Catecismos, foram formulados no formato de perguntas e respostas relativamente curtas e bem estruturadas. São detalhes que auxiliam na memorização do documento e a desenvolver um aprendizado sobre a salvação por meio de Jesus, o Cristo.
Ele é composto por 129 perguntas e respostas, divididas em 52 seções intituladas de Dias do Senhor. Após o primeiro Dia do Senhor que é também uma introdução sobre o tema central do conforto, o Catecismo de Heidelberg divide-se em três partes:
• Nossos pecados e miséria (Dia do Senhor 2-4);
• Nossa salvação do pecado (Dia do Senhor 5-31);
• Nossa gratidão a Deus por tal salvação (Dia do Senhor 32-52).
Nos Dias do Senhor 8-22, a segunda parte do Catecismo é formado por uma explanação do Credo Apostólico[7]. A terceira parte instrui sobre os Dez Mandamentos (Dia do Senhor 34 – 44) e a Oração do Senhor (Dia do Senhor 46 – 52).
A Bíblia e o Catecismo
Os Catecismo e Confissões não são documentos substitutivos à Escritura Sagrada. O objetivo é totalmente o oposto: nos conduzir ao aprofundamento bíblico com estudos didáticos para melhor aprendizado. Tanto é, que logo abaixo de cada Dia do Senhor há listas de referências bíblicas, amiúde chamadas de textos-prova.
Um convite especial!
A equipe do blogue Ella Cristã disponibilizará, todo domingo (Dia do Senhor), uma pergunta do Catecismo de Heidelberg, juntamento com um pequeno texto (a maioria serão poemas) para nosso aprendizado e, assim, não somente para refletimos aos domingos, mas durante a semana.
Vamos juntos nesta jornada de aprendizado e conhecimento sobre Àquele que nos sustenta dia a dia: Deus.
Notas:
[1] M. Noll, Confessions and Catechims of the Reformation (Gran Rapids: Backer, 1991) 13.
[2] o Eleitor do Palatinado servia como imperador interino no caso de haver vacância no cargo imperial devido à morte ou outra circunstância trágica.
[3] As 28 teses de Heidelberg formaram a base da disputa e já eram uma melhoria significativa em relação às 95 teses do ano anterior. As teses deixaram de ser uma simples disputa sobre a teologia que sustentava as indulgências e se transformaram numa teologia mais completa, agostiniana, da graça soberana.
[4] A Dieta de Augsburgo é o nome com o que se conhecem as reuniões da Dieta Imperial ou Reichstag do Sacro Império na cidade alemã de Augsburgo. Houve muitas sessões, desde o ano 952 até o ano 1582; mas as mais importantes foram as que se celebraram nos anos centrais do século XVI, o período culminante da Reforma protestante e as guerras religiosas entre católicos e protestantes.
[5] Nascido em Trier, Oleviano era filho de um padeiro e frequentou um curso de estudos humanísticos em Paris. Estudou Direito em Bourges e foi influenciado pelos ensinamentos da Reforma. Ao retornar a Trier, suas crenças entraram em conflito com as do clero local.Em 1560, foi convidado por Frederico III, Eleitor Palatino, para lecionar na Universidade de Heidelberg. Após a morte do Eleitor, seu filho Luís VI, Eleitor Palatino, que tinha fortes convicções luteranas, tentou afastar a escola da doutrina reformada do catecismo de Heidelberg. Olevianus foi proibido de lecionar, mas pôde se mudar para Berleburg. Lá, em 1578, publicou um comentário sobre a Epístola aos Gálatas, com prefácio de Teodoro Beza. Olevianus publicou várias obras sobre o Pacto da Graça. Em 1584, mudou-se para o Condado de Nassau e tornou-se reitor da Academia Herborn. Faleceu em 1587, cercado por amigos e apoiadores, e foi sepultado em Herborn.
[6] Aos 15 anos se matriculou na Universidade de Wittenberg, dividindo sua habitação com Philipp Melanchthon, o sucessor de Martinho Lutero. Melanchthon admira o jovem Ursino pelos seus talentos intelectuais e sua maturidade espiritual, recomendando-o a outros intelectuais na Europa. Retornando a Breslávia, publica um pequeno volume sobre os sacramentos que suscita a ira dos luteranos que o acusam de ser mais calvinista do que luterano. A reação dos opositores de Breslávia conseguem expulsá-lo para a cidade de Zurique. Em 1561, Frederico III, o nomeia professor da Universidade de Heidelberg; termina o Catecismo de Heidelberg em cooperação com Oleviano. A morte de Frederico III resulta na remoção de Ursinus, que ocupará uma cátedra em Neustadt de 1578 até sua morte, ocorrida em 1583.
[7] Um dos credos ecumênicos mais amplamente usados.
Referências:
Britannica. catecismo. Disponível em https://www.britannica.com/topic/catechism. Acesso em: 03 de set. 2025.
Catecismo de Heidelberg. Reforma no Palatinado. Disponível em Reforma no Palatinado – Catecismo de Heidelberg. Acesso em 03 de set. 2025.
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