INDICAÇÃO DE LEITURA: AS CATACUMBAS DE ROMA – BENJAMIN SCOTT

O testemunho e o martírio dos primeiros cristãos

O salmo acima foi escrito pelos descendentes de Asafe, é uma reflexão sobre a tristeza e o abandono sentido pelos judeus devido a destruição do templo em 586 a.C., pelo exército de Nabucodonosor. O autor do salmo compara a origem do rei pagão, a Babilônia, a um lugar escuro, tenebroso e violento, pois nesse país reinava a idolatria oriunda de um paganismo exacerbado.

Assim como a Babilônia, houve um tempo em que a cidade de Roma dominou não apenas uma grande parte do mundo antigo, mas também o coração de muitos cristãos através do medo e aflição, por apenas autodeclararem-se cristãos. Esse simples termo, que carrega em si um profundo significado, foi motivo de grandes perseguições, flagelos, sofrimentos e mortes incalculáveis cometidos pelos imperadores romanos sedentos de sangue cristão.
As catacumbas romanas que o digam! São testemunhas da carnificina sofrida pelo povo da cruz.

Na obra “As catacumbas de Roma” [1], Benjamin Scott [2], não apenas mostra, mas escancara toda a maldade sofrida no corpo, na alma e no coração da comunidade cristã do primeiro século na antiga e poderosa Roma; ressalta que o cristianismo daquela época foi caracterizado pelo amor mútuo e fé.

É possível que o leitor não tenha ouvido falar sobre as catacumbas romanas e por isso, talvez, não saiba da importância que representa para a historicidade da igreja. As catacumbas funcionavam como túmulos subterrâneos onde os cristãos enterravam seus irmãos martirizados pela causa de Cristo.

Uma vez que na Roma pagã o evangelho era proibido, as catacumbas também eram utilizadas pelo povo cristão para cultuar, fortalecer uns aos outros e para registrar a fé por meio de símbolos cristãos; vislumbrava que na posteridade muitos viriam a conhecer o que estava escondido.

Podemos concordar com o autor quando declara que “Nesta silenciosa cidade dos mortos” – diz ele – “vemo-nos cercados por uma poderosa nuvem de testemunhas, uma multidão que ninguém pode contar, cujos nomes, desprezados na terra, estão inscritos no Livro da Vida” (P.10).

CAPÍTULO I: O PAGANISMO E O SEU CULTO

O autor inicia o capítulo informando ao leitor o contexto do cenário que estava sendo montado para a cruel perseguição. Esclarece que a época dos fatos que serão mencionados, confere a era conhecida como o “o período de Augusto”, que culminou com o reinado de César Augusto e seus sucessores.

Scott discorre sobre a religião pagã de todo o império romano, com exceção dos judeus, cita alguns deuses (adotavam também deuses estrangeiros), semideuses, imperadores divinizados e divindades menores. O interessante é que o autor não faz citações somente de autores cristãos para demonstrar a adoração exageradas e a criação de várias divindades, assim como a inutilidade dessas, mas apresenta declarações de personalidades pagãs que criticaram o comportamento dos romanos para com os deuses. Entre eles: Aristóteles, Platão, Petrônio e Sêneca.

O capítulo discorre também sobre os deuses estrangeiros que se encontravam fora dos limites de Roma (no Oriente, por exemplo), para deixar claro que o paganismo corrompeu praticamente todo o mundo, citando alguns ritos de carnificina em todos os continentes. Não era uma atitude particularmente romana.

O autor não tem a intenção de descrever as barbáries cometidas pelos adeptos do paganismo, que inclui sacrifícios humanos, mas deixa claro ao leitor que os ritos eram cruéis, sangrentos e de cunho sexual. Ele ressalta que o cristianismo foi o principal libertador de tais práticas, inclusive para a valorização da mulher que era tida como um ser inferior, em todos os sentidos, e levadas à prostituição nos templos.

CAPÍTULO 2: A SOCIEDADE SOB A INFLUÊNCIA DO PAGANISMO

Scott fornece ao leitor um panorama do dia a dia da sociedade romana que era visivelmente influenciada pelo paganismo. Ele começa discorrendo sobre a brutalidade, depravação, ganância e vaidades que fluíam nas veias dos imperadores e senadores e os modos em que os próprios cidadãos tratavam uns aos outros, especialmente os escravos.
Nas páginas seguintes, descreve algumas das maiores barbáries cometidas pelos principais césares: Júlio César, César Augusto, Tibério, Calígula (que se casou com a própria irmã), Cláudio e Nero; todos eram assassinos cruéis, incestuosos, depravados, arrogantes e, ainda assim, aclamados como deuses pelo público, entre eles filósofos, políticos e artistas.

O reflexo de uma sociedade está em seus líderes. Roma estava mergulhada em uma devassidão que é difícil de descrever, mas o autor deixa claro que outras nações também acometiam tais atrocidades que os líderes romanos faziam questão de imitar.
Obviamente que Scott não poderia deixar de falar sobre o coliseu. É assustador saber que os cidadãos romanos, que, no dia a dia, eram considerados bons pais de família e bons funcionários, se deleitavam ao assistir, de forma cruelíssima e bárbara, no aclamado coliseu, pessoas inocentes gladiando-se entre si. Para eles, nada era mais divertido que a morte sanguinolenta.

Tudo sob a influência dos deuses, para os deuses e pelos deuses…muito sangue cristão forrou o chão do coliseu porque “agrediam” a esses mesmos deuses.

O capítulo finaliza com uma reflexão difícil de ser esquecida: apesar de termos sido presenteados com as mais belas artes, arquiteturas, estátuas, poemas e pensadores que a mente pode conceber, isso não é o que salva os seres humanos de suas infames paixões.
O autor transcreve as considerações de Blackburn, que foram dedicadas ao grande império Assírio, mas que pode ser aplicável a todos os outros, uma grandiosa reflexão:

CAPÍTULO 3: O CRISTIANISMO E AS CATACUMBAS

Depois de delinear os contextos em que se encontrava Roma e algumas outras partes do mundo, principalmente na área espiritual, o autor demonstra que esse mesmo mundo pagão esperava um tipo de salvador; conclamava alguém que viesse à terra e a livrasse de todo mal. Inclusive historiadores romanos escreveram sobre alguém que viria e mudaria o curso da história: entre eles, Suetônio, que diz: “É persuasão antiga e fixa, predominante no Oriente, estar predestinado que alguém se levantará na Judéia, para estabelecer um império universal” (P.56).

E essa pessoa apareceu. O que não esperavam é que pertenceria a classe mais humilde da sociedade judaica. Scott esclarece que não é a intenção debater a autenticidade de tudo o que Jesus fez e declarou, ele crê veemente nas Escrituras e acredita que o leitor também. A proposta do capítulo é expor alguns fatos e um resumo da doutrina ensinada por Cristo. E o fez com maestria.

Após o resumo, o autor investiga a data em que o cristianismo começou a ser conhecido em Roma e conclui que foi durante o reinado de Cláudio, que se opôs contra os cristãos. Scott ressalta que saber da data auxiliará o leitor a compreender a situação das catacumbas somada a chegada do apóstolo Paulo.

Aqui o autor, pela primeira vez, fala das catacumbas como esconderijos e da relação delas com Paulo. Discorre sobre sua principal funcionalidade, descobertas, detalhes sobre a construção e qual o fim que levou após a perseguição romana.
“Para cada habitante que hoje pisa o solo de Roma há centenas de habitantes primitivos, cada um na sua tumba, até que venha o dia do arrebatamento” (P.73).

CAPÍTULO 4: AS CATACUMBAS E O SEU TESTEMUNHO

Nesse capítulo, Scott ressalta que cerca de mil anos depois que as catacumbas não eram mais utilizadas para enterrar seus mártires e servir como esconderijos, cresceu sobremaneira o interesse arqueológico pelo lugar. Ele cita alguns pesquisadores que dedicou muitos anos de suas vidas para investigar e explorar as galerias.

Durante as explorações, relíquias (pinturas e artesanatos) e inscrições tumulares foram recolhidos e depositados no Museu do Vaticano em Roma. Para o autor, as coleções mais admiráveis que estão no museu, são as inscrições que estão dispostas na Galeria Lapidária, onde estão registrados epitáfios pagãos de um lado e cristãos do outro (mais de três mil!).

“As inscrições neste museu e nos museus contíguos são testemunhas que apresentamos para provar o que era o paganismo do passado e o que é o Cristianismo do presente” (P.77).
O escritor destaca uma das principais diferenças entre as religiões pagãs e a cristã sobre como encaram a morte: os pagãos, que valorizam a vida e fazem de tudo para aproveitá-la ao máximo realizando todos os seus desejos, odeiam a morte e a amaldiçoam, com textos nos túmulos, o deus que os levou; os cristãos, que sabem que a vida aqui é passageira, esperam a vida plena na eternidade e não temem a morte. Nos epitáfios está muito claro a que Deus serviam!

Há belas reflexões sobre as diferenças entre a esperança pagã e a do cristianismo. O autor ressalta que apesar da violenta perseguição sofrida, o cristianismo sempre saía vencedor e mais forte a cada perseguição.

Ainda neste capítulo, Scott responde uma pergunta que, comumente, os incrédulos questionam: “…se o Cristianismo é divino, porque não chegou mais cedo ao mundo?”. Ele ressalta a soberania de Deus em todos os âmbitos dos acontecimentos, inclusive sobre o momento certo da encarnação de Cristo.

Para concluir, há um encorajamento para refletir e agradecer pelos benefícios que o cristianismo proporcionou ao iluminar as trevas que advieram com o paganismo, entre eles: a cessação de sacrifícios humanos, a ponderação das guerras, orfanatos, vários hospitais, a valorização da mulher etc.
Devemos tudo à graça de Deus.

CAPÍTULO 5: OS EPITÁFIOS DAS CATACUMBAS

As inscrições das catacumbas são objetos de estudo por parte dos arqueólogos: a parte literária, em que muitas palavras em grego são escritas com letras romanas e vice-versa; as datas são analisadas com muita atenção, descobriu-se que a pedra mais antiga, que possui a data consular, pode ter sido erigida no ano de 71, ou seja, 36 anos depois da morte de Jesus; os nomes inscritos e os símbolos de fé são analisados de igual maneira.

O autor destaca que a maioria das inscrições cristãs não possuem o local de nascimento dos falecidos, como que reconhecendo e declarando que a verdadeira pátria dos cristãos é além-túmulo.

Encontram-se nas catacumbas numerosos desenhos que representavam, de alguma maneira (a profissão, por exemplo), a pessoa ali enterrada. Nos primeiros anos da igreja, os humildes eram mais receptivos ao evangelho do que os nobres; infelizmente, nem todas as pessoas pobres sabiam ler e, por isso, enfrentavam dificuldades para compreender as inscrições nas sepulturas e identificar se pertenciam a familiares ou amigos. Para facilitar, as pinturas, símbolos ou sinais auxiliavam nessa questão.

O símbolo representava a profissão ou o nome da pessoa. São chamados de símbolos fonéticos. Exemplo:

Nauis é o latim para navio e navio é o melhor símbolo fonético para Navira, o nome da falecida (P.96).

Como supracitado, a maioria dos cristãos da igreja primitiva não sabia ler. Contudo, havia neles a necessidade de criar símbolos que representassem a fé pela qual estavam dispostos a morrer e que fossem indecifráveis para seus perseguidores. Assim, nasceram dois símbolos bem conhecidos: “o Peixe” e outro “o Monograma”.

Descobriu-se, através das catacumbas, que havia judeus em Roma que foram confundidos com os cristãos, participando, assim, nas perseguições. Pelas inscrições, é sabido que muitos converteram-se ao cristianismo. O autor também escancara a ambição da igreja romanista quando explorou, ao máximo, as catacumbas a procura dos ossos de mártires para serem levados à igreja e santificá-los (mesmo sem comprovação).

CAPÍTULO 6: ROMANISMO ADULTERADO

Scott, nesse capítulo, desmascara todo o sistema romano (entre eles, corrupção, avareza, ambição, violência, rebelião, traição etc.) referente a algumas tradições que o papado impôs aos seus seguidores ao analisar o que fizeram com as catacumbas para angariarem dinheiro dos fiéis.

Através de inscrições, esculturas e pinturas dos cristãos primitivos deixadas nas catacumbas, é possível verificar que o sistema romano enganou e continua a enganar os que se dispõem a seguir as suas filosofias. Não é a intenção do autor apontar todos os erros papais através dessas registros, mas é possível obter informações valiosas que negam o que o sistema romano prega.

O autor é enfático em suas críticas sobre o paganismo que a instituição papal impôs sobre a igreja e, sobretudo, destaca sobre a adição do sacerdócio em suas falsas doutrinas. “Sobre este ponto tão importante, que dizem as inscrições nas Catacumbas de Roma? Nelas nunca se encontrou termo algum que corresponda ao ofício sacerdotal dos pagãos ou dos judeus” (P. 133).

Scott conclui o capítulo desmascarando, uma vez mais, a ganância dos papas ao furtarem das catacumbas objetos fabricados pelos cristãos genuínos e por mentirem aos fiéis, ao declararem que pertenciam aos cristãos que foram enterrados ali e canonizados posteriormente. Claro que estão dispostos em museus para contemplação em troca de dinheiro.

CAPÍTULO 7: AS REVELAÇÕES DAS CATACUMBAS CONTRA O ROMANISMO

No último capítulo, o autor continua desmascarando a instituição católica sobre a forma como ela desonra a Cristo, agora discorrendo um pouco sobre a falácia do purgatório.

Scott deixa claro que o purgatório não tem base bíblica e expõe alguns dados interessantes sobre certas indulgências famosas em que os padres ultrapassaram todos os limites ao fornecerem remissões do purgatório em troca de rezas a determinados santos.

As catacumbas atestam o que está nas Escrituras sobre essa falácia; se fosse algo ensinado por Deus, certamente que os cristãos da igreja primitiva não esqueceriam de registrar em seus epitáfios.

A arte praticada nas catacumbas também são destaques nesse capítulo. A Bíblia foi a inspiração para diversas iluminuras e ilustrações; os sofrimentos dos cristãos e a libertação que Deus concede ao seu povo, são os principais temas que inspiraram nossos irmãos. Ele apresenta algumas imagens para que o leitor contemple e possa observar determinados detalhes.

O autor conclui o livro com duas observações: para os que perguntam onde estava a religião cristã antes da Reforma Protestante, ele é enfático ao responder que estava e está nas páginas da Bíblia, estava e está gravada nos testemunhos nas lápides das Catacumbas de Roma e na alma dos verdadeiros cristãos que lutaram (e ainda lutam) para manter o Evangelho ileso e que se desejamos realmente conhecer o Cristianismo, que aprendamos com a Bíblia.

Benjamin Scott foi magistral em cada página. A forma como utilizou as catacumbas não somente para explicar a importância histórica para o cristianismo, mas para refutar muitas das heresias espalhadas principalmente pelo catolicismo, é brilhante.

O livro é um misto histórico e bíblico, é uma fonte de informação notável em cada capítulo para quem tem o interesse em aprender sobre a história da igreja. A leitura é didática e de fácil compreensão, tanto para os que já visitaram as Catacumbas tanto para os que anseiam, um dia, conhecê-las.


Notas

[1] Scott, Benjamin. As Catacumbas de Roma / Benjamin Scott. – 4. ed. – Rio de Janeiro : CPAD, 1982.

[2] Benjamin Scott (1814-1892) foi um cristão não-conformista, membro da Gospel Purity Association e serviu como Chamberlain da cidade de Londres de 1858 até a sua morte. Scott era advogado e reformador social, atuando em campanhas puritanas que visavam moralizar a sociedade Inglesa. Lutou contra os impostos para igrejas, doenças contagiosas e pelo fim do tráfico de crianças para a prostituição.



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