Durante o recesso de outono, tive a oportunidade de participar de um trabalho de evangelismo transcultural e plantação de igrejas no coração do norte de Londres, especificamente em um bairro chamado Camden.
Quando pensamos em Londres, geralmente imaginamos cabines telefônicas vermelhas, o Big Ben e pessoas dizendo “Cheers” ao garçom enquanto ele recolhe a conta. Esses estereótipos são verdadeiros, e eu mesmo disse vários “Cheers” durante minha viagem. No entanto, o que eu não esperava era encontrar uma cidade espiritualmente sombria, que quase apagou da memória sua rica história cristã de poucos séculos atrás.
Ao auxiliar uma equipe da IMB focada em alcançar o norte de Londres, percebi o quão distinta era a cultura local em relação à dos Estados Unidos, especialmente ao sul do país. Nos Estados Unidos, frequentemente tentamos ajudar cristãos nominais a compreenderem o verdadeiro chamado do Evangelho. Já em Londres, enfrentamos o desafio de nos engajar com uma cultura pós-moderna que rejeita tanto a religião organizada quanto a pessoa de Jesus Cristo.
Em um dos dias de evangelismo em Camden, eu e um colega conversamos com um morador local por quase uma hora sobre a Bíblia, Deus e a pessoa e obra de Jesus Cristo. Logo no início, ficou claro que ele conhecia bem as Escrituras e tinha argumentos prontos para justificar por que a Bíblia não se alinhava com sua visão de moralidade.
Conversar sobre o Evangelho com alguém que não acredita em verdades ou valores morais absolutos era algo que eu havia estudado nas aulas, mas viver essa experiência foi algo completamente diferente. A beleza do Evangelho, o amor de Cristo por nós e o poder salvador da expiação foram ofuscados por questões como o julgamento e a ira de Deus, a prova de Abraão no Antigo Testamento e a exclusividade da mensagem do Evangelho.
Em uma cultura que idolatra a tolerância e a fluidez, a exclusividade do Evangelho não se encaixa em sua concepção de amor e graça.
Confesso que não tive uma resposta perfeita para cada argumento apologético que ele apresentou. Acredito que nunca estaremos completamente preparados para todos os contra-argumentos que surgem ao compartilharmos nossa fé. Contudo, isso não nos exime da responsabilidade de nos prepararmos para defender nossa fé de forma consistente e respeitosa (1Pedro 3.15).
Ao longo daquela semana, percebi que os londrinos não estavam procurando perdão por seus pecados, mas sim paz espiritual, superação de vícios e um propósito maior. O pecado é um elemento indispensável na mensagem do Evangelho? Absolutamente. Porém, durante o evangelismo, ficou evidente que as pessoas buscavam as coisas de Deus nos lugares errados. Estavam recorrendo ao misticismo da Nova Era em busca de paz, em vez de ao Príncipe da Paz (Isaías 9.6). Buscavam satisfação em drogas ou álcool, em vez de no verdadeiro Deus, que concede satisfação perfeita (Salmo 90.14). Tentavam superar vícios com suas próprias forças, em vez de confiar no Senhor, que dá sabedoria a todos os que pedem (Tiago 1.5).
Um contexto pós-moderno como o de Londres responde à apresentação do Evangelho de maneira muito diferente de alguém na Carolina do Norte. Embora o conteúdo da mensagem não deva ser moldado pelo viés do ouvinte, podemos observar o ministério de Paulo e buscar praticar uma boa contextualização, assim como ele fez ao considerar seu público e o contexto cultural em que estavam inseridos.
A mensagem do Evangelho é relevante para todas as pessoas, em todos os tempos. É como um diamante, que pode ser contemplado por diversos ângulos, revelando as várias maneiras como impacta nossas vidas. Essas diferentes facetas ressoam de formas distintas em cada pessoa. Em Camden, percebi que as facetas da paz espiritual oferecida pelo Evangelho e o amor altruísta de Cristo eram profundamente desejadas pelas pessoas, embora estivessem procurando essas coisas nos lugares errados.
O coração de Deus em sua missão é o amor pelas pessoas. Porque Ele AMOU o MUNDO de tal maneira, enviou seu único Filho (João 3.16). O âmago da missão de Deus é o amor pelas pessoas, e amar alguém significa verdadeiramente conhecê-lo. Nosso coração para missões deve refletir o coração de Deus, se quisermos ser eficazes. Nosso amor pelos perdidos precisa ser a força motriz do nosso evangelismo: um amor que nos leva a conhecer profundamente as pessoas, caminhar ao lado delas, reconhecer as necessidades espirituais que tentam preencher desesperadamente com coisas falsas, e mostrar-lhes como Jesus é a porção perfeita. É um trabalho lento e intencional, mas que reflete o amor de Deus e sua paciência conosco.
“O Senhor não demora em cumprir a sua promessa, como alguns julgam demorada; pelo contrário, ele é paciente com vocês, não querendo que ninguém pereça, mas que todos cheguem ao arrependimento” (2Pedro 3.9).
Minha experiência em Londres revelou o valor de conhecer profundamente os anseios espirituais das pessoas locais, a importância de construir relacionamentos no evangelismo e a necessidade de ouvir o que alguém realmente está buscando. Por trás do debate intelectual que meu amigo na rua desejava travar, havia uma alma zangada com Deus, à procura de amor verdadeiro e propósito, lutando para compreender como um Deus amoroso pode condenar o pecado. Quando conseguimos enxergar além da superfície e mergulhar nas questões que alguém realmente deseja expressar, podemos aplicar as verdades do Evangelho à sua vida e mostrar como a obra de Cristo é suficiente.
A colheita é abundante em lugares como Camden. As pessoas buscam espiritualidade nos lugares errados, e temos a bela missão de levar-lhes as boas novas. Quando refletimos o coração do Senhor no amor com que tratamos as pessoas e, a partir desse amor, mostramos como o Evangelho satisfaz os anseios mais profundos de seus corações, participamos de um evangelismo que não é rígido nem decorado, mas uma conversa em que ouvimos e respondemos com a verdade bíblica, em amor.
Por: Sophie Rhoads ©️ The Center for Great Commission Studies. Traduzido com permissão. Fonte: The Heart of God in Evangelism. Todos os direitos reservados. Tradução e revisão: Samuel S. Gomes. Dezembro de 2024.
Autora: Sophie Rhoads está atualmente cursando seu Mestrado (MA) em Aconselhamento Intercultural no Southeastern Baptist Theological Semianry e trabalha no escritório de Comunicação do campus. Ela é apaixonada por ajudar outros crentes a entenderem melhor o que significa refletir o coração de Cristo na vida cotidiana, e seu cão salsicha Boba.

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