De humanista clássica à cristã genuína
O Humanismo, movimento intelectual que nasceu na Itália no século XV, marcou a transição da Idade Média para o Renascimento. Muitos eruditos e nobres na época aderiram a este movimento, que ainda hoje possui seus adeptos.
Este movimento, de acordo com a União Humanista e Ética Internacional, pode ser definido da seguinte maneira:
O humanismo é uma postura de vida democrática e ética, que afirma que os seres humanos têm o direito e a responsabilidade de dar sentido e forma às suas próprias vidas. Representa a construção de uma sociedade mais humana através de uma ética baseada em valores humanos e outros valores naturais, no espírito da razão e na investigação livre através das capacidades humanas. Não é teísta e não aceita visões sobrenaturais da realidade. [1]
Este era o estilo de vida da Olympia Fulvia Morata (1526-1555), uma mulher que fazia parte da nobreza e que foi considerada uma das mais inteligentes e brilhantes da Europa. Ela possuía um talento excepcional para idiomas, tornando-se fluente em grego e latim aos 12 anos.
Pela graça de Deus, em algum momento de sua vida, declarou lindamente:
Foi grande a escuridão que envolveu o meu espírito, até que Deus a rasgou com sua graça e deixou iluminar sobre mim a luz de sua sabedoria divina. Eu pude experimentar em mim mesma como ele guia a história humana. Tu sabes o quanto eu estava abandonada e desamparada; aí ele me provou que ele é pai e senhor protetor dos órfãos. Acredite-me, nenhum amor paternal pode ser comparado à amabilidade e cuidado que Deus teve para comigo. Ah, somente então eu reconheci toda a minha tolice. [2]
Como chegou a esta conclusão?
Olympia Morata nasceu em Ferrara, Itália, seu pai, Fulvio Pellegrino Morato, conhecido humanista e professor universitário, servia como tutor na corte de Afonso I d’Este, duque de Ferrara (1476-1534). De sua mãe não se sabe muito, apenas que se chamava Lucrezia Gozi Morata; Olympia tinha três irmãs (só se conhece o nome de uma delas, Vittoria) e um irmão mais novo, Emilio.
Além de falar fluentemente grego e latim, provavelmente também hebraico, através do pai e de dois tutores, bem como de seu amigo e estudioso, Celio Secondo Curione. Foi considerada uma menina prodígio e recebeu diversos elogios de renomados intelectuais da época; estudava constantemente, admirava as obras clássicas, participava de debates na academia, apresentava preleções e era apreciada pelo desempenho excelente em suas oratórias.
Em algum momento a família morou em Veneza, onde o Fúlvio lecionou por um tempo antes de regressar para Ferrara, convocado pelo filho de Afonso I e sucessor, Hércules II d’Este, duque de Ferrara (v. 1508-1559) e sua Renata da França, (1510-1574). Nesta época, Olympia se tornou dama de companhia e tutora da princesa Ana d’Este.
Enquanto tutora da princesa, Olympia conheceua a Reforma Protestante.
Reforma na Itália
A Reforma na Itália não avançou como em outros locais, em vista da repressão pela Igreja. O frade dominicano Girolamo Savonarola (1452-1498), visto como um pré-reformador, pregava contra as políticas antibíblicas da Igreja por volta de 1490 e suas obras influenciariam a Martinho Lutero e Huldrych Zwingli (1484-1531), mas não obteve o mesmo impacto em seu próprio país.
Savonarola foi enforcado e queimado como herege em 1498, mas lançou as sementes da Reforma através de suas pregações. Após sua morte, os esforços na Reforma se tornaram clandestinos até 1520, quando as 95 Teses de Martinho Lutero e algumas de suas cartas foram traduzidas para o italiano. Porém, as autoridades da Igreja agiram rapidamente para apreender e queimar a literatura luterana e executar quem as distribuísse.
Hércules II não compartilhava os sentimentos de seu avô em relação à Reforma e permaneceu um católico devoto, mas sua esposa, a duquesa Renata, uma intelectual com interesse nas Escrituras e filosofia, entretinha vários acadêmicos favoráveis à Reforma na corte, incluindo João Calvino. Ela distribuiu uma das obras de Calvino, Institutos da Religião Cristã e estimulava o debate e discussão religiosas. Olympia, encorajada, participava destes debates e, através deles, tornou-se cada vez mais interessada em ler as Escrituras.
Por volta de 1546, converteu-se à fé protestante, mas precisou deixar a corte e voltar para casa devido a uma doença de seu pai. Neste episódio, presenciou o poder do evangelho em uma alma faminta por Cristo: nos momentos finais, seu pai confessou a Cristo e morreu em paz.
Ao regressar à corte, tudo estava diferente: Ana d’Este casou-se com Francisco, duque de Guise (519-1563) e se mudou para a França, enquanto Hércules II desencadeou a Inquisição romana em Ferrara para descobrir hereges, eliminando os salões intelectuais da duquesa Renata. A liberdade que Olympia desfrutava de ler e escrever o que lhe agradava, foi severamente restringida e, como Ana se fora, já não havia necessidade para sua presença e começou a ser ignorada; a duquesa estava sob suspeita de heresia e o mesmo ocorria a ela.
Eu fui abandonada por minha própria princesa, que foi afastada não apenas de mim, mas de toda a minha família por calúnia. Você pode imaginar minha dor. Ninguém teve qualquer consideração por nós. Se eu tivesse permanecido na corte, teria colocado minha salvação em perigo. Não tinha permissão para ler o Velho e o Novo Testamento. Comecei a ansiar ir para a casa das muitas moradas, onde um dia é melhor do que mil nas cortes dos príncipes. [3]
O seu paradeiro, após abandonar a corte, é incerto. O que se sabe, é que se encontrava em uma crise existencial, sentindo-se perdida e muito confusa. É claro que, por mais que se sentisse sozinha, ainda mais após a perda do pai, Deus não ignorava as suas dores e ela pôde experimentar a graça divina envolvê-la completamente.
Olympia reviu seus valores e concluiu que nada acontecia por acaso, como era a sua filosofia de vida. De uma humanista convicta, se transformou verdadeiramente em uma filha de Deus, o Criador dos céus e da terra.
A visão do Evangelho, advinda com a Reforma Protestante, como um relacionamento vivo e pessoal com um Deus amoroso, contribuiu para um interesse mais profundo na Bíblia do que qualquer obra clássica. Iniciou ou retomou traduções dos salmos, diálogos e comentários sobre temas teológicos, além de escrever algumas cartas que compõem parte de seu acervo que resistiu ao tempo.
Em 1549, conheceu e se apaixonou por Andreas Grundler, da Bavária, quando ele chegou em Ferrara para concluir a graduação de medicina. Olympia não falava alemão, acredita-se que os dois conversavam em latim, pois era o mesmo idioma que usavam nas correspondências. Além de possuir o mesmo interesse pela literatura clássica, ele era cristão protestante e ansiava que a Reforma alcançasse todas as regiões. Em 1550, casaram-se, tratava-se de uma união por amor, não pré-arranjado como era costumeiro na época.
Olympia Fulvia Morata , gravura de 1734. Biblioteca da Universidade de Leipzig.

Neste mesmo ano, a Reforma amadureceu na Itália e, embora nunca tenha tido a força com que chegou na Alemanha e arredores, foram muitos os adeptos com a contribuição de Olympia. Ela leu as obras de Lutero, Calvino e Zwinglio, correspondeu-se com os dois primeiros e ficou convencida da verdade da predestinação dos eleitos.
A fuga
Mas a situação na Itália, devido a perseguição pela Inquisição romana, se tornou insustentável. O casal, mais o irmão de Olympia, fugiu para a Alemanha, em 1550, foram para a cidade natal de Andreas, Schweifurt, moraram em uma casa deixada como herança pelos pais dele; uma vez instalados, viveram em paz por quatro anos.
Neste tempo, Olympia retomou sua obra de tradução para o italiano, Andreas a auxiliava em seu trabalho e compôs músicas para as traduções dos salmos; ensinou literatura clássica e a Bíblia para Emílio e continuou sua correspondência diária. Ela também instou sua amiga de infância, Anna d’Este, a se opor à perseguição aos protestantes na França; as autoridades católicas tentavam ofendê-la, chamando-a de “Amazona Calvinista”.
Tudo estava bem, até que a cidade foi invadida.[4]
Segundo Rebecca VanDoodewaard:
O povo apressou-se aos portões para escapar, mas foram obrigados a voltar. Alguns fizeram seus próprios preparativos para o funeral em casa. Outros caíram de joelhos, implorando em vão por piedade. Uma multidão buscou a igreja como um local de refúgio, apenas para morrer quando o edifício desabou com o incêndio. Olympia e sua família foram arrastados pela multidão que estava se dirigindo à igreja, onde poderiam ter morrido, não fosse um soldado inimigo dizer-lhes para fugir ou serem sepultados nas cinzas do povoado. Eles deixaram seu lar sem nada. [5].
Fugiram apenas com o que vestiam e alguns dos manuscritos de Olympia, mas a maior parte de sua obra foi perdida para o fogo. Eles viajaram por quilômetros, descalços e quase despidos, até alcançarem a propriedade em um lugarejo vizinho, de onde foram expulsos. Mas foram acolhidos pelo conde de Erbach, simpático à Reforma, em Gemunden.
A saúde de Olympia declinou durante a jornada e ela ficou de cama por mais de um mês, até se fortalecer o suficiente para que pudesse viajar novamente. A família chegou a Heidelberg em agosto de 1554 e retomou suas vidas.
Vivenciar tais situações, trouxe a certeza de um consolo divino inexplicável diante do sofrimento do qual ela passou a enxergar a mão soberana do Senhor em tudo.
Em Heidelberg, Andreas se tornou professor de medicina na universidade. O Eleitor Palatino Frederico II, também ofereceu a Olympia uma vaga para lecionar grego, muitos questionam se ela chegou a ensinar na universidade, pela falta de evidências mais concretas. Mas, se aceitou o convite e atuou como professora, devido à saúde debilitada, recusou ou lecionou por pouco tempo.[6] Se foi, de fato, uma oferta para cátedra titular, Olympia teria sido a primeira mulher na história a ocupar tal cargo universitário.
As cartas que escrevia nesta época, eram de que a sua vida estava se findando e almejava um futuro glorioso com Cristo. A sua saúde estava precária, pois a fuga cobrou muito de si, entretanto, a fé permanecia inabalável: “Anseio por ser dissolvida, tão grande é a confiança em minha mente, e para estar com Cristo, no qual minha vida floresceu” (Stjerna, 207). Numa carta a Curione, ela desabafa: “Minha força corporal se foi. Não tenho apetite para a comida”, e menciona febre e congestão constantes e dores que a impediam de dormir.
Ainda enfraquecida por doenças que contraiu durante a fuga, não resistiu a um surto de peste em 1555 e aos 29 anos, morreu como gostaria: em paz, oriunda de Jesus Cristo, e ao lado do marido.
Escritos para a posteridade
Infelizmente, o marido de Olympia e Emílio não viveram muito após sua morte, pois ambos sucumbiram à praga. Mas antes, o marido enviou os escritos da amada para Curione, que os publicou em Basileia. A reputação de Olympia como acadêmica de destaque continuou e seus materiais foram traduzidos a partir do final do século XIX e, atualmente, é reconhecida como uma das mais importantes vozes do início da Reforma. A Universidade de Heidelberg a homenageia atualmente com o Programa Olympia Morata, concedendo financiamento para pesquisadoras de pós-graduação.[7]
Obras e Evangelismo
As obras que sobreviveram incluem 52 cartas, traduções de sete salmos e partes do Decameron de Giovanni Boccaccio, dois diálogos, onze poemas e explicações sobre os textos Paradoxos Estoicos e Elogio a Múcio Cévola, de Cícero.
Ela pode ter vivido pouco, mas todos os seus dias já estavam contados por aquele que tudo faz e determina. A sua breve vida foi o suficiente para conhecer a Cristo e encontrar, em suas palavras, salvação e conforto, muito mais que o movimento humanista poderia ofertar.
Notas:
[1] IHEU (1996) IHEU Minimum Statement on Humanism. Humanists International, General Assembly.
[2] DALFERTH, Heloisa Gralow. Mulheres no movimento da Reforma, p. 117.
[3] ALMEIDA, Rute; PINHEIRO, Jaqueline. Reformadoras. 1. Ed. Rio de Janeiro: GodBooks; Thomas Nelson Brasil, 2021. P. 51.
[4] Em 1553, Schweinfurt foi invadida pelas forças de Alberto Alcibíades, Marquês de Brandemburgo-Kulmbach (1522-1557) durante o curso da Segunda Guerra Margrave (1552-1555). As tropas de Alcibíades saquearam a cidade e então fugiram diante da chegada do exército de Maurice, Eleitor da Saxônia (1521-1553), que incendiou Schweinfurt.
[5] VanDoodewaard, R. Reformation Women: Sixteenth-Century Figures Who Shaped Christianity’s Rebirth. Reformation Heritage Books, 2017.
[6] De acordo com Holzberg, a correspondência de Olympia também mostra que ela realmente assumiu suas atividades de ensino apesar de sua doença: Como prova disso, ele vê uma carta de Hieronymus Angenosius, na qual ele agradeceu a ela pelo ganho das conversas com ela e lamentou que agora tivesse que voltar para a França, onde havia feito progressos diários em falar grego. No entanto, a datação desta carta no ano de 1555 não é comprovada com certeza e pode datar da época em Ferrara. No entanto, se Olímpia realmente assumiu sua atividade de ensino, não poderia ter durado muito, porque ela morreu em outubro de 1555, apenas algumas semanas antes de seu marido e irmão.
[7] https://www.unify.uni-heidelberg.de/en/equality/olympia-morata-programme. Acesso em 28 de out. 2025.
Referência:
Mark, Joshua J.. “Olympia Fulvia Morata.” Traduzido por Ricardo Albuquerque.World History Encyclopedia. World History Encyclopedia, 29 abr 2022, https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-20654/olympia-fulvia-morata/. Acesso em 29 out 2025.

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