Meu único Salvador, que posso dizer?
Vós sabeis tudo que eu desejo. Nada está oculto do vosso saber.
O mais íntimo do meu coração vós podeis ver
Por a vós somente almejo!
Margarida de Navarra (11 de abril de 1491 – 21 de dezembro de 1549) era filha de Luísa de Sabóia e de Charles de Valois-Orléans, conde d’Angoulême. Dois anos após o seu nascimento, nasceu seu único irmão, Francisco de Paula, que mais tarde sucedeu a Luiz XII e tornou-se o rei da França.
Margarida era uma mulher muito inteligente e desde os seis anos de idade foi educada por tutores. O estudo para ela não era um peso ou obrigação, pois era apaixonada pelo conhecimento e passava horas em seu quarto lendo, aprendendo e refletindo sobre o que havia aprendido; a única coisa que gostava mais do que aprender, era fazer o bem (Almeida, 2010).
Sempre foi uma filha obediente e possuía um comportamento exemplar, diferentemente de sua mãe, Luiza. Ela era uma pessoa muito ambiciosa e de caráter duvidoso; apesar de amar os dois filhos e educá-los de forma brilhante, era apenas para alimentar o seu próprio ego. Margarida não enxergava os defeitos da mãe, segundo a pesquisadora Almeida (2010, p. 84) “Ela respeitava e obedecia à sua mãe, considerava-a discreta e virtuosa cuidou dela em suas doenças e velhices, mas não seguiu seu exemplo.”
Apesar de ser apenas dois anos mais velha que o irmão, auxiliava a mãe na educação do futuro rei da França. E quando este dia chegou, sempre procurou estar próxima a ele e aconselhou-o em muitos momentos; Margarida atuou praticamente como uma diplomata, pois sabia, como ninguém, se comunicar como os nobres da Europa. Quando o rei ficou viúvo, se responsabilizou em cuidar dos sobrinhos.
Desde muito nova, desprezava as coisas terrenas e preocupava-se com as coisas do céu. Era consciente de seu pecado e temia entristecer a Deus. Quando sentia que estava se afastando do Senhor, se entristecia e sentindo suas faltas, fechava-se em seu quarto onde compunha canções de cunho espiritual, como a que segue:
Para ouvir a voz do prazer, deixei-te,
Para fazer uma má escolha, deixei-te,
E deixando-te, aonde vim ter?
Quando a Reforma Protestante já era realidade, estudou as obras de Martinho Lutero com afinco e aprovou as advertências que muitos reformadores fizeram contra a imoralidade da igreja católica.
Segundo Almeida (2010), Margarida era uma mulher modesta e não se entregava às paixões que dominava a corte francesa. Quando completou 17 anos, casou-se com o Duque de Alençon, um homem grosseiro que não possuía virtudes nobres; consumou o casamento em obediência à mãe, pois não conseguia amá-lo como marido. Ainda assim, ajudou-o em tudo e foi fiel até à sua morte, que aconteceu após retornar de uma batalha muito enfraquecido e não resistiu.
Posteriormente, o rei tentou casá-la com o Enrique VIII do qual recusou, pois a esposa dele ainda não havia falecido e como se não bastasse, estava apaixonado pela sua ex-dama de honra, o que feria os seus princípios cristãos. O seu segundo esposo foi o príncipe de Navarra, Henrique d’ Albret, o que muito a agradou, pois ambos tinham os mesmos princípios.
O auxílio aos reformadores
O amor que dedicava a Cristo cresceu junto com a perseguição aos reformadores. Se antes já se identificava com os ensinamentos protestantes, naquele momento se apegava ainda mais a sua fé e tentou ajudar todos que a procuravam.
Margarida usou de sua influência com o rei, seu irmão, para libertar, abrigar e livrar da morte muitos reformadores que sofriam perseguição papal. Desde o ano 1521, quando havia iniciado o encalço, até 1525, nenhuma vítima foi queimada na estaca da ortodoxia católica. Mas, infelizmente, nem tudo conseguiu evitar: ainda havia pessoas que eram açoitadas, aprisionadas, marcadas com ferro quente etc., e isso lhe doía o coração.
Um dos protegidos foi Luiz de Berquin, religioso devoto dos cerimoniais católico. Ao conhecer as Escrituras Sagradas, o livro ganhou o seu coração. No desejo de que a França inteira conhecesse as convicções de sua alma, começou a escrever e traduzir para o francês muitos livros de teologia. Beza, o sucessor de Calvino, declarou que “a França poderia ter achado um segundo Lutero em Berquin se este tivesse achado um segundo eleitor em Francisco I”.
Em 1523, quando o prenderam por traduzir alguns dos livros de Lutero, foi colocado em liberdade devido à interferência de Margarida junto ao irmão. Quando, pela segunda vez, foi preso, ela conseguiu novamente libertá-lo. Porém, quando o destemido reformador foi aprisionado pela terceira vez, o rei estava ausente e acabou sendo morto na fogueira em 1529.
Margarida amava o irmão, via-o como um herói. Mesmo que não compartilhasse dos mesmos princípios que ela, a rainha de Navarra não saía do seu lado. Almeida declarou acertadamente: “Eis a nossa personagem, uma mulher dividida entre o amor às novas ideias da Reforma, o amo à paz, à caridade e amor ao irmão que promoveu tantas guerras e perseguições” (Almeida, 2010, p. 89).
Ainda assim, ela ajudou a muitos: deu refúgio a Calvino na França quando foi perseguido em Sorbonne e ainda conseguiu dar encerramento ao seu processo; Berthaud, Roussel e Corault pregaram em Paris com a permissão do rei Francisco I, isso graças às petições de sua irmã. Ao serem presos, ela advogou por eles, o irmão concedeu apenas que saíssem da cadeia para o claustro; quando estava em uma de suas viagens, no cargo interino de governadora da Guiana, devido à falta do marido, a rainha ajudou o irmão do reformador Melanchthon, que tinha sido preso por pregar na cidade de Agen. Margarida foi ao Palácio da Justiça e requereu a libertação dele e foi atendida; Marot, o famoso poeta, quando fugiu de Paris, foi acolhido na corte de Margarida devido à perseguição. Graças a sua intercessão, em 1526, ele recebeu a permissão de voltar para a França. Ao traduzir os Salmos que tinha sido adotada pelos protestantes, foi exilado novamente em 1543.
Ao notar que estava mais difícil de proteger os seus irmãos em Cristo, mandou-lhes aviso para que evitassem correr novos perigos, pois temia não poder mais interceder por eles junto ao rei.
Há muitos outros nomes que não foram mencionados aqui, mas que a rainha estendeu a mão em prol do evangelho. Ela ajudava não apenas os reformadores, como também os menos favorecidos, visitava os sofredores, os doentes e ajudava-os como podia.
Margarida, sendo rainha e nascido em um lugar de ostentação, tanto de poder e riqueza, poderia ter levado uma vida tranquila, seduzir-se pela vida promíscua que muitos ali levavam. Mas algo tocou em seu ser tão forte que levou-a a fazer a diferença no lugar em que se encontrava: a palavra de Deus.
De nada adiantaria toda a influência que possuía para ajudar os reformadores, se ela não tivesse fé. A sua posição privilegiada sem a sua compaixão, de nada serviria.
Além de tudo o que esta notável mulher fez pelos perseguidos e pelos súditos pobres que precisavam de ajuda, também foi uma excelente escritora. É autora de cerca de 72 histórias, a maioria sobre mulheres, com o título “L’Hemptameron des Nouvelles”, também conhecida como “The Heptameron”. A maioria dessas obras é de caráter religioso, ficou conhecida como uma literata cristã e são lidos por cristãos de todo o mundo até hoje.
Marguerite de Navarre, a partir de um desenho a giz de cera de François Clouet , preservado na Bibliothèque nationale de France , Paris.

Morte, dúvidas e legado
À medida que Margarida envelhecia, a fé que ela professava foi direcionada para outro rumo: rompeu a amizade com Calvino quando soube que ele teceu críticas às pessoas que ela admirava e por mais que tenha reprovado vários rituais católicos, a rainha participou de um banquete realizado para homenagear São Martinho. Quais seriam seus motivos? Realmente cria em tais homenagens ou desejava apaziguar o coração do rei que era católico? Jamais saberemos.
O que se pode ter certeza é que Margarida de Navarra ansiava que a Palavra de Deus fosse acessível, que todos reconhecessem Cristo como o único Justificador e o cessar dos martírios. Quando ficou enferma, com febre, a pleurisia se instalou e Margarida de Navarra não resistiu, falecendo aos 57 anos, na cidade de Odos, em 21 de dezembro de 1549.
Sainthe-Marthe, na ocasião de sua morte, afirmou que: “(Margarida) mostrava em seus olhos, em sua tolerância, em seu comportamento, em seu discurso, e, sem dúvida, em todas as suas ações que o Espírito Santo de Deus tinha sido seu salvo-conduto”.
Desde que eu entendo que meu único criador é meu Salvador, meu advogado e juiz, eu não terei mais temor devido à falta de fé, eu farei dele meu apoio, meu refúgio, pois ele pode livrar-me do mar de pecados, tão mortal quanto o pior dilúvio, e quando eu tiver meus pecados apagados, eu plantarei virtudes em minh’alma, em lugar dos males que lá estavam guardados.
Margarida de Navarra
Ela deixou um fruto, Jeanne d’Albret, a futura rainha de Navarra e defensora da Reforma Francesa, que levaria adiante a obra de Margarida.
REFERÊNCIAS
ALMEIDA, R.S. Uma voz feminina na Reforma: A contribuição de Margarida de Navarra à reforma religiosa. Editora: Hagnos, 2011.
GOOD, J. I. Mulheres da Reforma. Editora: Knox Publicações,1° ed, 2011.
SALVIANO, Rute.Uma voz feminina na reforma: A contribuição de Margarida de Navarra a reforma religiosa. 1 ed. Rio de Janeiro: Hagnos, 2010.

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