Idelette: A Virtuosa Esposa de Calvino

Mulher de conduta piedosa e espírito ensinável

João Calvino (Noyon, 10 de julho de 1509 – Genebra, 27 de maio de 1564) foi um teólogo e escritor cristão francês. Calvino deixou um legado teológico extraordinário, o que contribuiu, de forma incontestável, para a formação das doutrinas da Reforma Protestante.

A sobrecarga de Calvino era grande: atuou como pastor, professor, participante de conferências e escritor. Produziu as Institutas (1539), o Comentário da Epístola aos Romanos, a Resposta a Sadoleto (uma apologia da fé reformada) e outras obras.

Devido a tantos deveres, a sua saúde foi prejudicada e permanecer sozinho não estava sendo bom para ele. Apesar de ter abrigado em sua casa vários alunos, pensionistas e uma governanta mal-humorada com o filho, ainda assim, não era uma vida ideal para o reformador.

Certa vez, um de seus amigos, Guilherme Farel (responsável por implantar o protestantismo em Genebra), escreveu a ele sobre uma possível esposa, Calvino respondeu:

Eu não pertenço a esse tolo grupo de amantes, que estão dispostos a cobrir até mesmo as falhas de uma mulher com beijos, tão logo tenham caído por sua aparência externa. A única beleza que me encanta é que ela seja virtuosa, obediente ao invés de arrogante, econômica, e paciente, e que eu possa contar que ela cuide da minha saúde. [1]

Diante das circunstâncias, conseguir uma esposa para ele se tornou algo complicado. Tanto que estava disposto a viver como celibatário, mas os amigos de Calvino não se conformavam e faziam o possível para encontrar uma mulher idônea e piedosa. O reformador confiava que seus amigos seriam melhores nessa tarefa do que ele próprio.

Finalmente, uma companheira

A resposta não demorou a vir e ele encontrou todas essas qualidades em Idelette (1499-1549). Há poucas informações sobre a infância e família desta notável mulher. Sabe-que nasceu em um lar culto, pois ela dominava o latim que na época, era um idioma utilizado com frequência somente em ambientes acadêmicos. É bem provável que fosse filha de um famoso anabatista, Lambert van Buren, que no ano de 1533 foi condenado por heresia, o motivo pelo qual teve todas as suas propriedades confiscadas e foi exilado de Liege.

Idelette, que já estava casada com Jean Storder, um pastor anabatista e pai de seus dois filhos, também foram expulsos do país e se refugiaram em Estrasburgo, Alemanha. Foi nesta mesma cidade que João Calvino, depois de ter sido banido de Genebra, estabeleceu sua moradia. Apesar de o casal ter abraçado o anabatismo, não fazia parte da ala mais radical e ainda assim, foram perseguidos e rejeitados pelos católicos romanos, luteranos e por quase todos os reformadores.

Em Estrasburgo, João Calvino começou a exercer o pastorado em uma congregação de refugiados e o casal Storder começou a frequentar o lugar e ouvir a palavra. Ao ouvir os sermões sobre a justificação através de Cristo Jesus e as doutrinas da fé reformada, algo incendiou em seus corações e logo tornaram-se membros da igreja e tiveram Calvino como pastor.

Com o passar do tempo, se transformaram em grandes amigos e era comum que Calvino frequentasse a casa da família. Nascia ali uma grande amizade. Ele admirava “a simplicidade e a santidade da vida deles”.

Infelizmente, algum tempo depois, Jean Storder veio a falecer devido a uma febre causada por uma peste que assolava a cidade de Estrasburgo. Calvino foi testemunha do cuidado que ela teve com o marido doente e da fortaleza com que enfrentou a enfermidade e a morte do marido. Foi uma fase muito difícil para Idelette, pois além de perder o amor de sua vida e na condição de viúva e exilada, não tinha como sustentar a si e os dois filhos.

Depois da morte de Stordeur, Bucer perguntou a Calvino: “E a amável Idelette?” Ele começou a considerar a questão: não a via mais apenas como uma irmã em Cristo, mas como uma possível esposa idônea, pois era inteligente, piedosa e de uma gentileza admirável. Apesar de ter sido alguns anos mais velha que ele, Idelette era uma mulher belíssima e isso não passou desapercebido pelos amigos de Calvino, um deles, Machiel van den Berg, observou que “o extrovertido Farel expressou seu espanto por ela ser uma mulher tão bonita!”. Mas o que chamou a atenção do reformador foi a conduta piedosa, a hospitalidade com que era tratado quando visitava o casal quando ainda vivia com o marido, o amor pela palavra de Deus e o seu espírito ensinável.

Ele viu em Idellete o que está registrado em Colossenses 3:12, “Portanto, como povo escolhido de Deus, santo e amado, revistam-se de profunda compaixão, bondade, humildade, mansidão e paciência.”

Calvino decidiu cortejá-la e em pouco meses (17 de agosto de 1540) casaram-se. Algumas semanas após o casamento, ele escreveu a Farel sobre a alegria que sentia com sua nova esposa. Van den Berg escreve: “Calvino claramente percebeu no casamento uma especial experiência de alegria”. Van den Berg continua dizendo que “o casamento deles foi mais do que um simples acordo racional; ele se tornou um vínculo verdadeiro e sólido de amor e lealdade. A calma e paciente Idelette foi uma amiga excepcionalmente adequada no casamento”.

Espírito doce

Idelette era simples, serena, ativa e cultivava a feminilidade que agradava a Deus…”Casas e riquezas herdam-se dos pais, mas a esposa prudente vem do Senhor” (Provérbios 19:14).

Alguns meses depois, o reformador foi pressionado por alguns líderes da cidade de Genebra a voltar e foi convencido que deveria ao menos tentar ajudar as pessoas desse lugar a viverem de acordo com as Escrituras. Ele assentiu e levou a sua família para viver uma nova fase de suas vidas.

Essa etapa foi constituída de algumas tristezas. Calvino era perseguido por todos os lados e Idelette vivia em constante agonia e esperava, que a qualquer momento, poderia receber uma trágica notícia sobre o seu esposo. O estado de saúde de Calvino também exigia muitos cuidados e as perseguições que sofria servia para prejudicar ainda mais a sua saúde que já estava frágil, não apenas nele, mas também em sua esposa.

Ainda assim, Idelette nunca se queixou. Calvino não ouvia dela nenhuma reclamação ou murmuração. Um amigo da família a descreveu como “uma dama sóbria e honorável.”

O casal, infelizmente, perdeu três filhos. Quando o primeiro filho nasceu e alguns dias depois faleceu, João Calvino escreveu: “O Senhor certamente infligiu uma ferida severa e amarga pela morte de nosso filho recém-nascido. Mas Ele mesmo é Pai e sabe o que é necessário para seus filhos”.[2]

Eles confiavam que Deus estava no controle e que para tudo tinha um propósito. Os inimigos do reformador, porém, eram implacáveis e diziam a ele que a falta de filhos era uma vergonha. A confiança do casal, ainda assim, permanecia inabalável. Ao contestar um adversário que o difamava por não ter filhos, o reformador escreveu: “O Senhor me deu um filho, mas ele o levou… Em toda a cristandade eu tenho dez mil filhos”.[3]

Devido a esses acontecimentos, Idelette estava com a saúde afetada. Cada dia que se passava ficava mais fraca e havia uma tosse que a acompanhava de forma permanente. Nos dias em que se sentia melhor, recebia vários visitantes e refugiados que estavam em busca de proteção e abrigo, hospedava-os com muito carinho. Apesar dos infortúnios que sofriam, o seu lar era lugar de paz e harmonia.

Quando ficou muito enferma, a ponto de não ter forças para fazer os serviços domésticos e cuidar do jardim, que tanto gostava, Calvino escreveu:“Minha esposa se recomenda às suas orações. Está tão prostrada em sua enfermidade que mal pode ficar de pé. Frequentemente parece estar melhor, mas logo recai.”

Calvino contou esta história tocante sobre os dias finais de sua vida:

Como eu temia que esses cuidados particulares pudessem aborrecê-la sem propósito, aproveitei a ocasião, no terceiro dia antes de sua morte, para mencionar que não deixaria de cumprir meu dever para com seus filhos. Retomando o assunto imediatamente, ela disse: ‘Já os entreguei a Deus’. Quando eu disse que isso não era para me impedir de cuidar deles, ela respondeu: ‘Sei que você não negligenciará o que sabe que foi confiado a Deus.[4]

Eis uma das declarações mais comoventes que ela fez antes de morrer: “Ho ressurreição gloriosa! Ho, Deus de Abraão e de todos os nossos pais! Em Ti confiaram os fiéis durantes tantos séculos passados, e nenhum deles confiou em Ti em vão! Eu também esperarei!”

A morte de sua esposa gerou em Calvino momentos de profunda tristeza, um amigo próximo disse que em esses momentos ele teria “um coração quebrado e lacerado.”

Certa vez o reformador escreveu:

“Eu tenho sido privado da melhor companhia de minha vida, de uma que, se eu estivesse tão disposto, teria compartilhado com prazer não apenas minha pobreza, mas também minha morte. Durante a sua vida, ela foi a fiel ajudante de meu ministério. Nunca experimentei por sua parte a mais mínima pena. Nunca me criou nenhum problema, e procurava não me preocupar durante o curso de sua enfermidade e estava mais ansiosa por seus filhos que por ela mesma.”

O companheirismo, a fidelidade em suas convicções, a hospitalidade e o conhecimento de Deus das Escrituras fizeram de Idelette um caráter digno de imitação e força. Foi uma mulher tão admirável a ponto de ser reconhecida por outras pessoas como uma mulher “sóbria e honorável”.

E você? O que pensa? De que forma acredita que as dificuldades que enfrentamos são, na verdade, amostras da bondade e do amor de Deus por nós? De que maneira a vida de Idelette te incentiva a exercitar os dons de Deus na sua vida familiar? Quais são os riscos que correria se dispensasse a feminilidade Bíblia para a vida cristã?


Notas

[1] VAN HALSEMA, João Calvino era assim, p. 107.

[2] Vida de Calvino, nota de rodapé do editor 10, p. 268;

[3] COTTRET, Calvin, p. 183;

[4] Obras Selecionadas, vol. 5 Carta de 7 de abril de 1549.




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