Ao final da vida, Anne Bradstreet escreveu uma carta aos filhos, relatando sua história para o “benefício espiritual” deles e para a “glória de Deus”. Ela começou recordando sua infância na Inglaterra, onde nasceu em 1612, em uma piedosa família puritana. Como era comum entre os escritores puritanos, ela não escondeu suas lutas e fracassos. Foi honesta ao mencionar períodos de indiferença religiosa durante a adolescência e sua relutância em adaptar-se ao estilo de vida no posto avançado da Nova Inglaterra, para onde se mudou com a família em 1630.
Anne tornou-se a primeira poetisa publicada na América. Seus escritos ganharam reconhecimento em ambos os lados do Atlântico, sustentando a fé de muitos cristãos em tempos marcados por conflitos e divisões. No entanto, sua fé não foi sempre inabalável. Na carta aos filhos, ela compartilhou dúvidas profundas e sua cuidadosa análise de assuntos que antes considerava óbvios. Hoje, talvez isso fosse chamado de “desconstrução”. Ainda que atribuísse tais dúvidas ao diabo, ela as levava a sério e buscava respostas sólidas.
Sua primeira grande pergunta foi: Deus realmente existe? “Jamais vi milagres que me confirmassem isso, e os que li — como saber que não eram fictícios?” Como muitos antes dela, encontrou uma resposta na beleza e na ordem da criação:
“A consideração dessas coisas certamente me convenceria, com espanto, de que existe um Ser Eterno.”
A dúvida seguinte era mais específica: “Como saber que Ele é o Deus que adoro — o Deus Trino — e que Cristo é, de fato, o Salvador em quem confio?” Com o tempo, ela venceu essas incertezas quanto à confiabilidade das Escrituras por meio de várias reflexões. Em primeiro lugar, observou que as Escrituras haviam produzido em seu coração um efeito “que nenhuma invenção humana poderia exercer sobre a alma”. Além disso, destacava que a Bíblia fora preservada por séculos, apesar de inúmeras tentativas de destruí-la. Por fim, apontava para as muitas profecias cumpridas que, segundo ela, “não poderiam ter sido previstas por ninguém além do próprio Deus, há tanto tempo.” Para Anne, esses eram testemunhos suficientes da veracidade da Palavra de Deus.
Ela também enfrentou dúvidas quanto à legitimidade da Igreja Católica Romana. Se Deus é o mesmo revelado nas Escrituras, como saber se a interpretação protestante está correta? A alegação católica de professar o mesmo Deus, o mesmo Cristo e a mesma Bíblia poderia tê-la confundido, não fosse o que ela mesma observou:
“As vãs loucuras existentes em sua religião, seus milagres mentirosos e as cruéis perseguições aos santos” dissiparam tal dúvida.
Contudo, uma questão a perturbava ainda mais: “Se a interpretação protestante das Escrituras é correta, por que há tantas divisões e até erros grosseiros entre os cristãos?”
Essa pergunta a levou a exclamar: “Existe fé na terra?”
Mas então ela se recordou das palavras de Cristo:
“Assim deveria ser, e que, se possível, até os eleitos seriam enganados.”
Isso acalmou seu coração:
“Agora posso dizer: ‘Volta, ó minha alma, ao teu repouso; sobre esta rocha, Cristo Jesus, edificarei a minha fé, e se perecer, pereci’; mas sei que todos os poderes do inferno jamais prevalecerão contra ela. Sei em quem confiei e em quem cri, e que Ele é poderoso para guardar o que confiei aos Seus cuidados”.
Essa seção da carta, dedicada às dúvidas e questionamentos, ocupa cerca da metade do conteúdo — evidência da importância que essa luta teve em sua caminhada de fé. Anne encerrou sua carta desejando que, caso seus filhos enfrentassem dúvidas ou provações semelhantes, se lembrassem de recorrer a Deus:
“O mesmo Deus que me ouviu e me livrou fará o mesmo por vocês, se confiarem nEle. E, quando Ele os livrar da angústia, não se esqueçam de Lhe agradecer, mas andem mais perto dEle do que antes. Este é o desejo de sua mãe amorosa.”
Anne escreveu essas palavras em 1657, após mais um episódio de doença e desmaios.
“Isto foi escrito em meio a muita doença e fraqueza”, disse ela, “e é feito de forma muito fraca e imperfeita; mas, se vocês puderem extrair algum benefício disso, é o alvo que eu almejava”.
Ela provavelmente achava que estava próxima da morte. No entanto, Deus a sustentou por mais quinze anos. Sua saúde se deteriorou progressivamente até que, em 1671, seu filho Simon a descreveu como “pele e osso”. Seus últimos poemas revelam o quanto ansiava pelo céu. Anne faleceu em 16 de setembro de 1672, em North Andover, Massachusetts, aos 60 anos, com o marido ao seu lado.
Embora nem todos os filhos pudessem estar presentes em sua morte, é provável que tenham lido e relido a carta que ela lhes deixou. E não foram apenas eles os beneficiados. Gerações de cristãos foram edificadas por sua coragem em enfrentar dúvidas com honestidade e integridade, buscando fortalecer sua fé em meio às provações. Seus poemas — igualmente profundos — continuam a inspirar, pois retratam uma fé autêntica, que não teme o embate com a dor, a dúvida ou a morte.
Por: Simonetta Carr ©️ 2024, Reformation Heritage Books. Todos os direitos reservados. Usado com permissão. Fonte: A Puritan Woman’s “Deconstruction”. Tradução: Samuel Sousa Gomes. Julho de 2025.






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