“Aqui está, então, o máximo de verdade que um biógrafo poderia descobrir sobre uma [pessoa]. Que o leitor descubra o máximo de seu significado que ele [ou ela] puder.”
– Elisabeth Elliot, em sua biografia do missionário Kenneth Strachn, 1968
Há uma leva de pessoas que amam florear histórias de quem admiram e que não admitem rusgas, pecados ou defeitos e anseiam, até exigem, que as histórias de seus heróis sejam permeadas por milagres e finais felizes comoventes.
O volume II da biografia de Elisabet Elliot, Usada por Deus, narrada por Ellen Vaughn1, foi considerado, segundo a própria autora, o mais difícil de escrever. No capítulo 2, Vaughn prepara o leitor para o que virá e esclarece que não sabia como narrar a segunda parte da biografia da missionária.
Se no volume I, Moldada por Deus, a biógrafa é abertamente clara quanto aos erros de Elliot, não esperem que ela mude de ideia no segundo. Após ler os diários e dialogar com pessoas próximas à Elisabeth, cenas foram descortinadas e fatos que não desejava encontrar vieram à tona.
Ellen Vaughn é assertiva:
Eu vi partes da história de Elisabeth que não haviam sido incluídas em seus discursos públicos, nem em seus livros sobre família, sobre homens e mulheres ou sobre a fé. Eu desejaria que ela as tivesse incluído; a história teria sido ainda mais rica, transbordando da graça de Deus. Afinal, ela era um ser humano, não uma impecável e reluzente capitã no exército de Deus. (p.23,24)

A vida de Elliot, quando não estava palestrando, dialogando com editoras ou participando de debates, por vezes, era desordenada; algo impensável para uma mulher que valorizava a ordem e modos requintados. Ao conversar com familiares, Ellen Vaughn soube de algumas realidades que poderiam manchar a imagem que Elisabeth havia construído de si mesma: elegante, prática e independente.
Ninguém imaginaria que cometeria erros lamentáveis que poderiam ser evitados. Seus atos e erros fatídicos não a desqualificaram como serva de Deus, que atendeu ao chamado divino sem pestanejar como um ser humano tão humano quanto qualquer um de nós.
A autora alerta aos leitores que se esperam por um livro triunfalista com a versão narrada de nossa missionária de maneira previsível, o que muitos já o fizeram, que recorram a eles. O livro não contém melodramas com vilões e mocinhos, mas apenas a história real sem os enfeites corriqueiros de escritores que não suportam verdades se não forem camufladas.
Ao tomar a decisão de expor alguns dos fatos registrados nos diários e em conversas com a família, Ellen Vaughn convenceu-se que nem a própria Elliot, com a madurez que os anos lhe proporcionaram e devido a uma certa rebeldia que era conhecida no meio evangélico, gostaria que fosse diferente. E o mais importante: ao orar obteve coragem e o conforto necessário para fazê-lo.
No primeiro livro, a biógrafa nos apresentou Elisabeth Elliot criança, adolescente, jovem, solteira, casada e viúva. Com todos os desafios e amadurecimento emocional e espiritual que enfrentou tanto nos Estados Unidos como nas selvas equatoriais.
Agora, a autora nos revela uma mulher que, ao viver na floresta durante sete anos após o martírio do marido, decide voltar para a civilização e se acostumar com os antigos/novos costumes. Se encontrou revivenciando circunstâncias adversas que essas lhe traziam e constatou que não foi nada difícil dormir novamente em uma cama acolchoada e experimentar água quente na hora do banho.
Mas o mundo que Elisabeth deixou, há doze anos, ao servir como missionária, não era o mesmo. Quando ela e a filha se mudaram para Francônia, Newn Hampshire, no verão de 1963, tentou ainda se manter isolada. Vaughn reprisou alguns dos principais acontecimentos que moldaram os Estados Unidos desde a sua partida, auxiliando, assim, o leitor a compreender o mundo que Elisabeth encontrou após retornar ao país.
Ao regressar, construiu uma casa e recebeu várias propostas de casamento (através de cartas); uma antiga amiga, também missionária, Eleanor Vandervort, passou a viver com ela e a filha, na qual foi de grande auxílio para Elliot, pois ela passou a receber inúmeros convites para palestrar em conferências.
Talvez muitos admiradores não saibam, mas Elisabeth se entregou a árdua tarefa de escrever um livro ficcional, o que foi algo imensamente difícil para ela. Um romance missionário, intitulado Não farás para ti imagem de escultura (tradução nossa),2 inspirado em sua própria experiência na selva, mas que recebeu duras críticas pela maioria dos leitores, pois o desfecho não era o que se pregava nas igrejas contemporâneas.
Além de ter publicado este romance, também lançou outro livro desafiador sobre suas impressões de Israel, o Fornalha do Senhor: Reflexões sobre a Redenção da Cidade Santa (tradução nossa),3 a pedido de uma editora e, para tal, viajou até Jerusalém para conhecer a Velha Cidade e se inspirar.
Ambos os livros foram rejeitados: o primeiro, como supracitado, pelo público, e o outro pelos redatores (posteriormente, outra editora se interessou pelo projeto). Esses acontecimentos criaram em si dúvidas devastadoras se realmente era uma boa escritora e se teria feito o correto de seguir a carreira.
Nesta fase de sua vida, Elisabeth começou a se descobrir sob várias vertentes: uma nova mulher, que abriu o coração para novas amizades (mas ainda enfrentava dificuldades socialmente); que passou a frequentar teatros, exposições de arte, jantares e o gosto refinado por literatura secular.
A palestrante foi criada em um lar cristão repleto de formalidades e apenas leituras da Bíblia e de livros cristãos eram permitidos. Ainda não havia lido Shakespeare, Dostoiévski, Tolstói e muitos outros até então. Descobriu uma nova amiga em Flannery O’Connor; escrevia em seu diário: “Ó escrita maravilhosa. Mulher humilde, com visão terrivelmente clara e sagacidade demolidora. E ela amava a Deus.” Considerava esses escritos como fartos banquetes em que não sabia que podia desfrutar. Ela enxergou que Deus “imprimiu sua imagem criativa até mesmo em pessoas que ainda não o confessaram como Senhor” (p. 67).

Enquanto Elisabeth descobria-se em momentos como estes, descobrimos algumas nuances de sua personalidade que a autora se deparou em seus diários e que a missionária nunca fez questão de demonstrar: suas falhas e fraquezas.
Elisabeth era uma mulher que prezava pela etiqueta comportamental e possuía um gosto refinado em todos os sentidos (amava uma boa porcelana). Ao ser convidada para palestrar em algum ambiente que considerava brega e visualmente desaagradável em que o comportamento de seus ouvintes não condizia com o que considerava educado, criticava-os duramente e logo se tornava motivo de chacota para os amigos íntimos e familiares; não se deixava dominar por sentimentos facilmente, mas apaixonou-se por um homem casado cuja esposa estava enferma e ambos trocaram mensagens amorosas e dois breves beijos. Ela se culpava por tais sentimentos e evitou vê-lo e falar sobre ele em seus diários por um tempo. Quando ele ficou viúvo, casaram-se.

“Faça-se a tua vontade, ainda que seja a minha ruína!”
-Elisabeth Elliot (p. 231)
Uma das partes tristes do livro, quando casada pela segunda vez, foi a constatação de dois cânceres em seu marido, o Dr. Addison Hardie Leitch4, um nos lábios e o outro na próstata. Através dos relatos vivenciamos, juntamente com a missionária, as lutas, os cuidados constantes com o enfermo e a fé, no início firme e convicta de que venceria a enfermidade e, logo após, lemos essa oração em seu diário, pois estava ciente que ele não sobreviveria.
Mesmo em meio ao seu segundo luto, Elliot permaneceu firme nas palavras do Senhor de que não a abandonaria. Para Vaughn, desde a descoberta da doença até o falecimento de Addison, foram os momentos em que a sua fé foi mais forjada no Senhor.
Elisabeth Elliot era uma mulher bonita, elegante, sensual, inteligente, bem-sucedida e independente, mas sentia-se extremamente sozinha. Registrava em seus diários esses momentos de solidão quando chegava em casa, após cumprir as agendas, e confessava que sentia falta de um homem ao seu lado; a vida solitária não era para ela.
“Eu me pego desejando apaixonadamente o cheiro, a sensação, a aparência e a força de um homem. Quero ser abraçada, protegida, querida e amada. Bem, quem não quer. Mas às vezes pedimos por tudo isso, muito embora o céu seja tudo o que é prometido.” (p. 163)
Assim, a autora prepara o leitor para o que viria: devido a carência e no que acreditava ser a vontade de Deus, casou-se com um homem distinto de tudo que ansiava em uma ação precipitada. Por mais que tenha ponderado a situação, ao criar uma lista de prós e contras de uma possível união com um de seus inquilinos, a carência venceu e, apenas nove dias após o casamento, confessou aos amigos próximos e familiares que havia cometido o maior erro de sua vida.

No ápice por se sentir segura, encontrou em Lars, seu terceiro marido, essa garantia; ao conversarem, ele prometeu que a cercaria de todas as formas e a protegeria de todos os lados. Cumpriu todas:
“Muitas pessoas hoje amam os livros, programas de rádio, discursos e cartas de Elisabeth oriundos da mesma época da vida em que ela estava vivendo com discórdia, controle e dor dentro de casa. Elisabeth conseguia escrever verdades factíveis sobre a liberdade em Cristo, mesmo quando seu marido verificava no odômetro quantos quilômetros ela havia percorrido e imprevisivelmente negava-lhe acesso à filha, genro e netos que ela amava. Lars podia ser tanto charmoso como grosseiro. Elisabeth também. Ela se propôs a honrar seu marido, mas nem sempre teve sucesso. Sua língua era uma arma formidável. Bem, mal, gloria, dor, tedio, esperança e desespero estavam todos misturados na história de sua vida.” (p. 322)
Elisabeth comprometeu-se verdadeiramente com o seu casamento, mesmo ao ter declarado que havia sido um erro. Ela foi submissa e suportou o marido por trinta e oito anos até Deus recolhê-la para si, em 2015.
Infelizmente, neste período, foi diagnosticada com Alzheimer ao findar dos anos 1990 e, ainda assim, Lars manteve sua agenda ativa mesmo quando a palestrante estava cansada e não queria mais viajar; sempre meticulosa com as suas roupas, ela subia às plataformas de forma desgrenhada e havia sempre um burburinho durante as palestras se estava doente. Houve uma ocasião, em que Lars obrigou Elisabeth sentar-se em uma cadeira no palco, muda ao lado de um gravador que ecoava pelo salão uma de suas mensagens de outrora.
Amigos e familiares tentaram uma intervenção, removendo-a para uma casa de repouso em outro país, mas sempre repetia o desejo de permanecer ao lado do cabeça dela. Elisabeth Elliot, uma linguista brilhante, perdeu a própria linguagem. A sua voz cessou aos poucos, até que ficasse apenas no silêncio; alguns diários, infelizmente, foram queimados pelo próprio marido.
O Senhor a levou e agora ela descansa naquele que sempre sonhou, esperou e escreveu. Ela viveu como todos nós vivemos: imperfeitamente, lutou de forma digna contra o pecado buscando servir ao Senhor com toda a sua alma.
Nesta biografia, como em tantas outras que narram histórias de servos fiéis a Cristo, não houve um final feliz com o companheiro que escolheu passar o restante de sua vida terrena, como alguns entusiastas românticos desejariam. Mas sem dúvida, o final feliz que realmente importa, ela está vivendo neste momento com a pessoa que escolheu passar toda a eternidade: Jesus.
Assim como no volume I, em Moldada por Deus, Ellen Vaughn escreveu com entusiasmo e cuidado. Algumas semanas após descrever a morte do segundo marido de Elliot, vivenciou, na pele, o diagnóstico do esposo que estava com câncer; três semanas após a descoberta, faleceu. Ellen, mais que qualquer um, sentiu os sentimentos descritos por Elliot que sobressaem durante o luto.
A história de Elisabeth Elliot foi difícil de finalizar pois, segundo a autora, peças-chaves de correspondência e alguns de seus diários que eram meticulosamente enumerados, estavam faltando.
Ainda assim, cumpriu sua missão de forma excelente ao relatar a vida de uma das mulheres cristãs mais lidas e influentes do cristianismo atual. A capa do volume I é rosa com botões prestes a desabrochar, neste volume, a cor ainda rosa, é mais suave e a flores nas laterais da capa já estão desabrochadas.
Todos que leram, viram e ouviram Elliot são testemunhos e frutos do ministério desta grande mulher, que ao desabrochar, alcançou vários jardins.
Notas:
- ELLEN VAUGHN é autora e palestrante best-seller do New York Times, tendo dezenas de livros publicados. Com diplomas da Georgetown University e da University of Richmond, Ellen colaborou com o falecido Chuck Colson, ex-conselheiro da Casa Branca, em várias de suas obras seminais. Ex-vice-presidente de comunicações executivas da Prison Fellowship, maior organização cristă do mundo para presos, ela viaja frequentemente para entrevistar seguidores de Cristo em diversas partes hostis do mundo. Ellen gosta de ler, fazer caminhadas, beber café e olhar pensativamente para o oceano. ↩︎
- No original: No Graven Image. Publicado pela primeira vez em 1966, é o único romance de Elisabeth Elliot. Margaret, uma intrépida missionária de 25 anos, viaja para a Cordilheira dos Andes, no Equador, para iniciar seu ministério. Ela vê pouco progresso no início, mas eventualmente conquista seguidores e uma reputação aprimorada por sua participação no parto seguro e aparentemente milagroso de um bebê pélvico. As coisas parecem estar indo bem. Ela trabalha em sua tradução da Bíblia para a língua indígena e faz amizade com um nativo e sua família. Então, a tragédia acontece, abalando todo o modo de pensar de Margaret. Repleto de entusiasmo, emoção humana e da exótica cultura e cores sul-americanas. ↩︎
- No original: Furnace of the Lord, publicado pela editora Hodder Stoughton TDA, em 1969. ↩︎
- Reitor e Pastor Universitário no Grove City College, em Grove City, Pensilvânia. Em seguida, retornou ao Seminário Teológico Pittsburgh-Xenia como professor até 1961 e como presidente de 1955 a 1959. Começou a lecionar no Tarkio College, em Tarkio, Missouri, em 1961. De 1969 até sua morte em 1973, o Dr. Leitch lecionou teologia no Seminário Teológico Gordon-Conwell, em South Hamilton, Massachusetts. ↩︎
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