DIÁRIO DE VIAGEM: A PRISÃO MAMERTINA – ROMA

Segundo a tradição, apóstolos Pedro e Paulo foram encarcerados aqui pelo imperador Nero.

É impossível caminhar por Roma, capital da Itália e da região do Lácio, localizada no centro-oeste da península itálica, e não se surpreender em cada rua, esquinas e lugares que respira e transpira história.

Muita história.

A cidade é um museu em que a arqueologia e o cotidiano se mesclam e transmitem a sensação de que estamos no passado, mesmo que estejamos na era contemporânea. É incrível.

A história do cristianismo no ocidente é destaque na Itália e, em Roma é quase que palpável.

Dentre tantos lugares históricos para o cristianismo, a prisão Mamertina, que ao contrário de outros locais está quase escondida entre as ruínas da capital, merece destque nas páginas deste museu em movimento.

A prisão, que na Antiguidade era conhecida como Tullianum, era uma prisão com uma masmorra.

O local situa-se abaixo da igreja de San Giuseppe dei Falegnami (São José dos Marceneiros), desenhada a partir de 1597, inicialmente pelo arquiteto e escultor Giacomo della Porta (o mesmo que completou a cúpula da Basílica de São Pedro depois da morte de Michelangelo) e, em seguida, por outros profissionais.

Ela pode passar imperceptível por algum transeunte que, desatento, não a percebe. Mas a sua localização é digna de nota: está situada entre o Capitólio e as ruínas do Fórum Romano, no Clivo Argentário (de frente para a Cúria e os fóruns imperiais de Nerva, Vespasiano e Augusto).

Fonte: arquivo pessoal (2025).

ORIGEM

Ela é considerada a mais remota da cidade e durante os primórdios de Roma foi a única prisão pública existente.

De acordo com a tradição, foi construída por volta de 640-616 a.C., por Anco Márcio. Há dúvidas também quanto à origem do nome Mamertino: alguns creem que procede de um antigo nome para a deusa Marte, Mamers.

Devido a localização próxima dos tribunais, a Tullianum era utilizada, de forma frequente, como prisão por curtos períodos antes dos julgamentos e também como local das execuções onde afogavam na poórpia masmorra que foi construída em uma cisterna.

A estrutura

Fonte: produção da autora (2026).

1º Piso – andar superior

Remonta ao século VI a.C.; foi reformado diversas vezes durante o período republicano e o início do Império. Diferentemente do nível inferior, é provável que muitos prisioneiros tenham sido detidos ali por longos anos; além de artefatos expostos para apreciação, possui uma placa na parede com os nomes dos prisioneiros mais notórios.

Fonte: arquivo pessoal (2026).

Pessoas aprisionadas em Tullianum

  • Eumenes III de Pérgamo, também conhecido como Aristônico. Rebelou-se contra Roma em 132 a.C. e foi derrotado em 130 a.C.
  • Publius Cornelius Lentulus Sura, co-conspirador de Catilina. Executado com outros conspiradores.
  • Herennius Siculus, simpatizante dos Gracos, bateu com a cabeça num arquitrave na sua cela e morreu antes de poder ser executado.
  • Quinto Plemínio, propretor. Preso e depois exilado após perder o poder.
  • Caio Pôncio, líder dos samnitas durante a Segunda Guerra Samnita. Foi preso e executado.
  • Vercingetórix, líder dos gauleses durante a Guerra Gálica. Executado no Triunfo de César em 46 a.C.
  • Adiatorix, tetrarca da Galácia. Foi aprisionado lá por ter condenado à morte todos os colonos romanos em Heracleia.
  • Jugurta, rei da Numídia. Morreu de inanição em 104 a.C.
  • Os santos Martiniano e Processo, guardas da mesma prisão. Após serem batizados por São Pedro, ambos foram presos aguardando execução.
  • Sejano, soldado e confidente do imperador Tibério. Caiu em desgraça, foi aprisionado e depois executado.
  • Simão bar Giora, líder revolucionário judeu. Capturado na Judeia e levado para Roma para ser exibido durante o cortejo triunfal. Executado em 70 d.C.

O pequeno altar, que anteriormente era colocada uma cruz invertida abaixo da arte, simbolizam a execução de Pedro, que é acompanhada pelas barras às quais ele supostamente foi acorrentado (também não disponpivel no dia).

Fonte: arquivo pessoal.

Há também um buraco no chão, agora coberto por motivos de segurança; esse buraco dá acesso direto ao Tullianum, e era assim que os prisioneiros eram jogados na cela.

2º Piso – Tullianum

O nível inferior tem o formato semicircular e é o mais antigo (datando do século VII a.C.). A princípio, foi arquitetada como uma cisterna para uma nascente; os prisioneiros eram descidos por uma abertura para a masmorra, cujas águas eram usadas para matar os inimigos do povo romano.

Segundo a hagiografia cristã, inicialmente chamava-se “Prisão de Túlio”, do latim Tullus, que significa “fonte de água”. Alguns historiadores, todavia, atribuem o nome ao sexto rei de Roma, Sérvio Túlio, que devido ao aumento da população carcerária, ampliou a prisão.

Paulo e Pedro na prisão

Há uma forte tradiçao que afirma que os apóstolos foram aprisionados neste lugar antes de serem executados. Os historiadores não conseguem concluir de forma definitiva, mas ainda assim é um local muito frequentado entre os cristãos que acreditam fortemente que eles permaneceram presos por algum tempo antes do martírio.

Durantea estadia na prisão, contam que os apóstolos conseguiram converter seus carcereiros, Processo e Martiniano, assim como os companheiros de cela que espreravam a morte e os batizava ali mesmo.

A prisão do apóstolo Paulo em Roma teve dois momentos distintos: prisão domiciliar, onde ele vivia em uma casa alugada sob vigilância e a outra na masmorra subterrânea, escura e úmida.

Durante a primeira prisão, ele podia receber visitas e escrevia cartas, mas na segunda aguardava a execução.

De acordo com a tradição, a carta que o apóstolo Paulo escreveu deste lugar insalubre, por volta de 67 d.C., foi a Segunda Epístola a Timóteo que, ao contrário das “Epístolas da Prisão” (Efésios, Filipenses, Colossenses, Filemom) que eram de forma domiciliar, 2Timóteo foi escrita pouco antes de sua execução por Nero.

É considerada sua “última vontade e testamento”, onde expressa a solidão que sentia e anseia a presença de Timóteo e de Marcos. Declara: “Combati o bom combate, acabei a carreira, guardei a fé” (2 Timóteo 4:7).

O apostolo era cidadão romano, portanto, o tratamento que recebeu era menos rígido em comparação com outros prisioneiros cristãos. A tradição aponta que ele foi decapitado na região da Abadia das Tre Fontane, em Roma.

De acordo com a tradição da igreja, Pedro foi martirizado em Roma sob o domínio do imperador Nero, um dos mais notórios perseguidores dos cristãos. Os pais da igreja, como Tertuliano, Orígenes, Clemente e Dionísio, fazem referência à crucificação, de cabeça para baixo, de Pedro. Além disso, o historiador Eusébio escreve sobre isso em sua obra História Eclesiástica Atos de Pedro, mas tem menos peso.

Reflexões da prisão: um olhar interior

Fonte: arquivo pessoal (2025).

Dize-se que Roma é um lugar cheio de “fantasmas” que nunca vão embora (não esqueçamos do Coliseu!). Obviamente que não acredito que fantasmas existam, mas creio que são excelentes metáforas para transmitir a sensação que senti ao visitar este lugar.

A prisão em si não me assusta, mas causa repulsa. Me enoja ao saber como que os cristãos, em todas as épocas são tratados; mesmo que os apóstolos nunca tenham pisado nesta masmorra, ainda assim, devido a perseguição maciça dos imperadores aos nossos irmãos na época, é absolutamente certo que eles tenham experimentado o sabor amargo do cárcere.

As escórias do mundo que não deviam existir.

Não era apenas um aprisionamento: havia os maltratos, a fome, frio, sede e doenças contagiosas; cristãos e também não cristãos passaram por ela muitas vezes sem merecer.

A Mamertina é uma lembrança de que pecadores que não temem a Deus é capaz de fazer.




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